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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição


Emlgreen & Dragset, Adonis (Back pack), 2009. Impressão a cores a laser montada em alumínio. 200 x 150 cm


Vista geral da exposição


Vista geral da exposição


Runo Lagomarsino, Untitled (Extended Arguments), 2005. DVD, loop, branco & preto, som


Rolf Nowotny, Blinding Light, 2012. Aço pintado. 200 x 200 cm


Alexander Tovborg, Archangel, 2009. Acrílico sobre tela. 200 x 100 cm

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COLETIVA

F for FREEDOM




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

05 JUN - 08 SET 2012


F for FREEDOM é a mais recente proposta expositiva do espaço da Galeria Filomena Soares, em Lisboa. F de Freedom, F de Fake, (evocando o ensaio/documentário de Orson Welles, de 1973) e de “várias palavras famosas (em inglês ou português), cuja primeira letra é um ‘F’.â€[1] É neste tom provocatório que Alexandre Melo introduz a exposição.

No sucinto manifesto de F for FREEDOM, o curador refere que esta não é uma exposição que pretenda vender ou impor uma noção de liberdade ou que a pretenda confinar a uma acepção puramente política ou social, apesar de a envolver. A liberdade é, segundo Melo, parte intrínseca da produção artística. Tal como refere no seu texto, esta mostra centra-se na “diversidade das práticas, métodos e materiais de cada artista. Choque de perspetivas e multiplicação de possibilidades de interpretação.†[2]

Numa reunião escandinava, artistas dinamarqueses, noruegueses e suecos apresentam o seu trabalho sob a insígnia da “Liberdadeâ€. Nas circunstâncias em que Portugal se encontra, esta palavra, surja em que contexto for, ganha proporções e expectativas que, por vezes, correm o risco de ser desmesuradas. De imediato, o nome da dupla Elmgreen & Dragset (1961, Dinamarca; 1968, Noruega), cuja identidade, vincada e sobejamente conhecida pelo mundo fora, ajuda a criar uma imagem de comprometimento político, cultural e social, de contestação e, porque não, de ativismo para esta exposição.

É de louvar a diretriz central da proposta: trazer alguns artistas que não estão na linha da frente do nosso universo de cauda da Europa, alargando horizontes e abrindo mercados. É de realçar a força e o cariz interventivo – diria até – de militância da primeira sala onde, frente a frente, Elmgreen & Dragset e Gardar Eide Einardsson (1976, Noruega) lançam os dados e introduzem a exposição. Em letras garrafais pode-se ler “1) Those who agree with you are insane/ 2) Those who do not agree with you are in power. 1) Some of those in power are insane /2) And they are rightâ€.

Como clara cabeça de cartaz, a dupla Elmgreen & Dragset carrega o peso da temática e da exposição às costas. Há uma tentativa, por parte do curador, de partilha desse peso com Einarsson, mas a forma como as suas peças se dispersam pelas duas salas faz com que a força do seu statement se perca entre paredes.

Elmgreen & Dragset são representados por três imagens de grande formato, algumas das quais fizeram recentemente parte da exposição Amigos, na Galeria Helga de Alvear, em Madrid. Em Amigos, parte da série era apresentada num contexto singular, uma apresentação de um ambiente, um espaço essencialmente cénico, que evocava uma sauna/balneário gay, aprofundando as narrativas e o discurso da dupla aquando da sua participação na Bienal de Veneza. Em F for FREEDOM, apesar da distância e da descontextualização, mantém-se o discurso sobre o corpo masculino, sobre o universo gay, sobre estereótipos e clichés instituídos, indissociáveis da dupla, que agora surge em confronto com o trabalho in your face de Einarsson, artista definido pela Interview como um dos mais mal amados artistas emergentes, na Noruega. Não é o que se verifica fora do seu país, onde tem vindo a afirmar-se e a construir um percurso sólido. A viver em Nova Iorque, Einarsson ganha um vocabulário muito próximo das culturas ditas marginais urbanas, no entanto, os seus trabalhos não são apenas puros atos de rebeldia, são reflexões acerca dos limites da transgressão, dos limites da liberdade. O trabalho de Einarsson centra-se no questionar das estruturas e do sistema, num jogo permanente entre o desafio às autoridades e a afirmação do poder. Einarsson é apresentado em Lisboa com quatro peças que poderão não ter a leitura que tiveram na sua recente mostra itinerante Power has a fragrance (título retirado da música dos Death in June) sobretudo devido ao facto de se tratar de uma coletiva e à dispersão espacial a que são sujeitas.

Ao entrar na segunda sala, continua-se na presença de Einarsson, agora com Lagomarsino, Rolf Nowotny e Alexander Tovborg em conferência. Runo Lagomarsino é apresentado com Untitled (Extended Arguments) , de 2005, que necessitava de um espaço com menos luz para ser apresentado. É uma peça que explora, através de um momento específico vivido no campeonato do mundo de 1973 no Chile, a estreita relação entre futebol e política. Uma relação que sempre foi relevante, mas oficialmente negada, pois sendo um desporto de massas – um jogo de futebol é um espaço privilegiado para celebrar a amizade entre as nações participantes – não fará sentido criar outro tipo de expectativas, particularmente de cariz nacionalista ou político.

Contra estes argumentos, muitos factos se apresentam: esta exposição foi inaugurada em ano de campeonato da Europa, e, este texto, escrito depois das seleções grega e alemã terem jogado, naquele que foi tido como o jogo que poderia dar lugar ao derradeiro grito de revolta grego, uma espécie de exorcismo da extrema tensão política entre os dois países. A Grécia acabou por ser esmagada pela poderosa seleção alemã, numa réplica da vida política atual. No entanto, a possibilidade de ainda se poder vir a assistir a uma Alemanha derrotada é um sonho de muitos dos que vivem sob o domínio do triunvirato conhecido como troika. Através desta peça, Lagomarsino faz-nos reviver, vezes sem conta, o momento em que a seleção chilena, que “jogou†sem adversário, devido ao boicote da seleção da União Soviética (consequência do golpe de estado que depôs Salvador Allende), marcar um golo. Golo este que passa a ser um símbolo do fim da democracia no Chile e a “rendição†dos jogadores e, consequentemente, do povo chileno ao regime militar de Pinochet.

Rolf Nowotny, que é apresentado através de duas peças (uma, quase impercetível, na primeira sala e outra, na segunda), lança para a discussão, um apontamento minimal, que, em consonância com o trabalho de Einarsson, joga com o poder dos signos: um “x†de dois metros por dois, em aço pintado ergue-se na parede, mudo e frio. Em Nowotny, a arte deixa o divino e entra no domínio do confronto com o poder. Para o artista, tudo na experiência humana é arte. O facto de estar apresentado lado a lado com Tovborg pode ser lido como um toque de ironia, mas é sobretudo a criação de uma relação paradoxal. Alexander Tovborg completa (?) e rompe por completo com o resto da sala. Para além do seu trabalho fazer a sala explodir de cor, as suas composições sugeridas por passagens bíblicas, por narrativas longínquas, deixam várias questões no ar: que ligações estabelece o curador entre liberdade e religião? Segundo Melo, as referências bíblicas “sugerem um dos caminhos decisivos da liberdade no mundo de hoje†[3]. As implicações são múltiplas e desacordantes entre si.






NOTAS
[1] Cf. Folha de sala da exposição F for FREEDOM, por Alexandre Melo, Maio 2012
[2] Ibid.
[3] Ibid.


Patrícia Trindade