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COLETIVAF for FREEDOMGALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 05 JUN - 08 SET 2012 F for FREEDOM é a mais recente proposta expositiva do espaço da Galeria Filomena Soares, em Lisboa. F de Freedom, F de Fake, (evocando o ensaio/documentário de Orson Welles, de 1973) e de “várias palavras famosas (em inglês ou português), cuja primeira letra é um ‘F’.â€[1] É neste tom provocatório que Alexandre Melo introduz a exposição. No sucinto manifesto de F for FREEDOM, o curador refere que esta não é uma exposição que pretenda vender ou impor uma noção de liberdade ou que a pretenda confinar a uma acepção puramente polÃtica ou social, apesar de a envolver. A liberdade é, segundo Melo, parte intrÃnseca da produção artÃstica. Tal como refere no seu texto, esta mostra centra-se na “diversidade das práticas, métodos e materiais de cada artista. Choque de perspetivas e multiplicação de possibilidades de interpretação.†[2] Numa reunião escandinava, artistas dinamarqueses, noruegueses e suecos apresentam o seu trabalho sob a insÃgnia da “Liberdadeâ€. Nas circunstâncias em que Portugal se encontra, esta palavra, surja em que contexto for, ganha proporções e expectativas que, por vezes, correm o risco de ser desmesuradas. De imediato, o nome da dupla Elmgreen & Dragset (1961, Dinamarca; 1968, Noruega), cuja identidade, vincada e sobejamente conhecida pelo mundo fora, ajuda a criar uma imagem de comprometimento polÃtico, cultural e social, de contestação e, porque não, de ativismo para esta exposição. É de louvar a diretriz central da proposta: trazer alguns artistas que não estão na linha da frente do nosso universo de cauda da Europa, alargando horizontes e abrindo mercados. É de realçar a força e o cariz interventivo – diria até – de militância da primeira sala onde, frente a frente, Elmgreen & Dragset e Gardar Eide Einardsson (1976, Noruega) lançam os dados e introduzem a exposição. Em letras garrafais pode-se ler “1) Those who agree with you are insane/ 2) Those who do not agree with you are in power. 1) Some of those in power are insane /2) And they are rightâ€. Como clara cabeça de cartaz, a dupla Elmgreen & Dragset carrega o peso da temática e da exposição à s costas. Há uma tentativa, por parte do curador, de partilha desse peso com Einarsson, mas a forma como as suas peças se dispersam pelas duas salas faz com que a força do seu statement se perca entre paredes. Elmgreen & Dragset são representados por três imagens de grande formato, algumas das quais fizeram recentemente parte da exposição Amigos, na Galeria Helga de Alvear, em Madrid. Em Amigos, parte da série era apresentada num contexto singular, uma apresentação de um ambiente, um espaço essencialmente cénico, que evocava uma sauna/balneário gay, aprofundando as narrativas e o discurso da dupla aquando da sua participação na Bienal de Veneza. Em F for FREEDOM, apesar da distância e da descontextualização, mantém-se o discurso sobre o corpo masculino, sobre o universo gay, sobre estereótipos e clichés instituÃdos, indissociáveis da dupla, que agora surge em confronto com o trabalho in your face de Einarsson, artista definido pela Interview como um dos mais mal amados artistas emergentes, na Noruega. Não é o que se verifica fora do seu paÃs, onde tem vindo a afirmar-se e a construir um percurso sólido. A viver em Nova Iorque, Einarsson ganha um vocabulário muito próximo das culturas ditas marginais urbanas, no entanto, os seus trabalhos não são apenas puros atos de rebeldia, são reflexões acerca dos limites da transgressão, dos limites da liberdade. O trabalho de Einarsson centra-se no questionar das estruturas e do sistema, num jogo permanente entre o desafio à s autoridades e a afirmação do poder. Einarsson é apresentado em Lisboa com quatro peças que poderão não ter a leitura que tiveram na sua recente mostra itinerante Power has a fragrance (tÃtulo retirado da música dos Death in June) sobretudo devido ao facto de se tratar de uma coletiva e à dispersão espacial a que são sujeitas. Ao entrar na segunda sala, continua-se na presença de Einarsson, agora com Lagomarsino, Rolf Nowotny e Alexander Tovborg em conferência. Runo Lagomarsino é apresentado com Untitled (Extended Arguments) , de 2005, que necessitava de um espaço com menos luz para ser apresentado. É uma peça que explora, através de um momento especÃfico vivido no campeonato do mundo de 1973 no Chile, a estreita relação entre futebol e polÃtica. Uma relação que sempre foi relevante, mas oficialmente negada, pois sendo um desporto de massas – um jogo de futebol é um espaço privilegiado para celebrar a amizade entre as nações participantes – não fará sentido criar outro tipo de expectativas, particularmente de cariz nacionalista ou polÃtico. Contra estes argumentos, muitos factos se apresentam: esta exposição foi inaugurada em ano de campeonato da Europa, e, este texto, escrito depois das seleções grega e alemã terem jogado, naquele que foi tido como o jogo que poderia dar lugar ao derradeiro grito de revolta grego, uma espécie de exorcismo da extrema tensão polÃtica entre os dois paÃses. A Grécia acabou por ser esmagada pela poderosa seleção alemã, numa réplica da vida polÃtica atual. No entanto, a possibilidade de ainda se poder vir a assistir a uma Alemanha derrotada é um sonho de muitos dos que vivem sob o domÃnio do triunvirato conhecido como troika. Através desta peça, Lagomarsino faz-nos reviver, vezes sem conta, o momento em que a seleção chilena, que “jogou†sem adversário, devido ao boicote da seleção da União Soviética (consequência do golpe de estado que depôs Salvador Allende), marcar um golo. Golo este que passa a ser um sÃmbolo do fim da democracia no Chile e a “rendição†dos jogadores e, consequentemente, do povo chileno ao regime militar de Pinochet. Rolf Nowotny, que é apresentado através de duas peças (uma, quase impercetÃvel, na primeira sala e outra, na segunda), lança para a discussão, um apontamento minimal, que, em consonância com o trabalho de Einarsson, joga com o poder dos signos: um “x†de dois metros por dois, em aço pintado ergue-se na parede, mudo e frio. Em Nowotny, a arte deixa o divino e entra no domÃnio do confronto com o poder. Para o artista, tudo na experiência humana é arte. O facto de estar apresentado lado a lado com Tovborg pode ser lido como um toque de ironia, mas é sobretudo a criação de uma relação paradoxal. Alexander Tovborg completa (?) e rompe por completo com o resto da sala. Para além do seu trabalho fazer a sala explodir de cor, as suas composições sugeridas por passagens bÃblicas, por narrativas longÃnquas, deixam várias questões no ar: que ligações estabelece o curador entre liberdade e religião? Segundo Melo, as referências bÃblicas “sugerem um dos caminhos decisivos da liberdade no mundo de hoje†[3]. As implicações são múltiplas e desacordantes entre si. NOTAS [1] Cf. Folha de sala da exposição F for FREEDOM, por Alexandre Melo, Maio 2012 [2] Ibid. [3] Ibid.
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