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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Alfredo Jaar, A New World (detalhe), 1990. Cortesia do artista


Alfredo Jaar, Studies on Happiness: Public Interventions, 1981. Cortesia do artista


Alfredo Jaar, Studies on Happiness: Public Interventions, 1981. Cortesia do artista


Vista da exposição, NGBK, 2012, Foto: Uwe Boek


Alfredo Jaar, 1+1+1, 1987. Cortesia: The Art Institute of Chicago


Alfredo Jaar, The Aesthetics of Resistance, 1992. Instalação no Pergamonmuseum, Berlim. Cortesia: NGBK


Alfredo Jaar, Lament of the Images (detalhe da instalação) , 2002. Cortesia: Louisiana Museum of Modern Art, Humlebæk, Dinamarca

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ARQUIVO:


ALFREDO JAAR

The way it is. 
An Aesthetics of Resistance




NGBK - NEUE GESELLSCHAFT FÜR BILDENDE KUNST
Oranienstraße 25
D-10999 Berlin

15 JUN - 19 AGO 2012


The way it is. 
An Aesthetics of Resistance


NGBK: 15 JUN – 19 AGO 2012

Berlinische Galerie: 15 JUN - 17 SET 2012

Alte Nationalgalerie: 15 JUN - 16 SET 2012




A retrospetiva de Alfredo Jaar em Berlim é um convite a conhecer a trajetória de mais de 30 anos da sua longa carreira. Composta por três mostras simultâneas e complementada por um intenso programa de conversas, visitas guiadas e apresentações realizadas pelo próprio artista, esta emblemática exposição, intitulada The way it is. An Aesthetics of Resistance, inclui uma seleção inédita de obras realizadas durante os dramáticos anos posteriores ao golpe militar no Chile, também trabalhos produzidos em e, para Berlim, acompanhados de instalações que utilizam a luz como elemento simbólico e o Ruanda como tema central.

Três espaços acolhem a retrospetiva de Jaar em Berlim: NGBK (Neue Gesellschaft für Bildende Kunst), Berlinische Galerie e Alte Nationalgalerie. Paralelamente, dois significativos trabalhos do artista – 1+1+1 e Persona – estão instalados na coleção permanente de obras do século dezanove na Neue National Galerie.

Entrar na sala da NGBK é como imergir na historia de Chile a partir do momento em que o Palácio da Moeda foi bombardeado. Obras relacionadas com este dramático episódio e os anos que se seguiram, convidam o espectador a perceber a atmosfera que motivou Jaar a desenvolver um discurso visionário e as circunstâncias que o levaram a emigrar para Nova Iorque, em 1982.

Para a visita guiada do artista, no dia 16 de junho, esperavam-se no máximo dez pessoas. Atrevo-me a dizer que nessa tarde chuvosa, estiveram pelo menos 100 pessoas a seguir atentamente cada um dos seus comentários sobre estas obras do início da sua carreira, reflexo ao mesmo tempo íntimo e coletivo do drama vivido no Chile nos finais dos anos 70. Para os chilenos presentes foi, sem dúvida, um momento comovente.

O título The way it is. An aesthetics of resistance reflete a metodologia de Jaar durante quase quarenta anos de carreira, em que a urgência ética foi necessária e motivadora para cada projeto que desenvolveu. Alfredo Jaar – que se define a si próprio como um arquiteto que trabalha no mundo da arte – divide a sua vida profissional em três áreas principais: os seus projetos no interior do “white cubeâ€, a sua atividade académica e as suas intervenções públicas. Somente desta maneira, segundo declara, se sente completo, tanto profissional como humanamente.

Esta última questão foi analisada durante a conversa com Chantal Mouffe –professora de teoria política e diretora do Centre for the Study of Democracy da Universidade de Westminster, em Londres – que decorreu na Berlinische Galerie. O artista teve oportunidade de partilhar as suas reflexões sobre o que significa trabalhar motivado por acontecimentos político-mediáticos e desenvolver uma produção artística dentro dos “últimos espaços de liberdadeâ€, como ele assinala, que são os museus, galerias, organizações culturais e universidades.

Mouffe avança definir a obra de Jaar como um dos melhores exemplos da “estética de resistência formada pela estratégia hegemónica da guerra de posicionamentoâ€, quer dizer, um artista que vê as instituições como um importante terreno de luta. Combinando estes três tipos de atividades, Alfredo Jaar é capaz de intervir numa variedade de sítios onde a hegemonia dominante se estabelece e reproduz, contribuindo desta maneira para o desenvolvimento de movimentos contra-hegemónicos.

A metodologia de Jaar, neste sentido, propõe desconstruções realizadas a partir do conflito sociopolítico-mediático, através da sua particular perspetiva espacial como arquiteto, para idealmente produzir uma falha no sistema. Exemplos de obras tais como Estudios sobre la felicidad (1979-1981) ou Questions Questions (2008) propõem a utilização de espaços comuns – transporte público, letreiros, estações, etc. – para desarticular o sentido comum e gerar uma provocação através de perguntas aparentemente simples e inocentes como “É feliz?†ou “A política necessita da cultura?â€, mas que transportam consigo uma sub-leitura que contribui para o desenvolvimento de um movimento de consciência contrário à hegemonia.

Durante uma conversa entre Jaar e Adriana Valdés, os presentes puderam aprofundar a sua perceção sobre a fase inicial de trabalho do artista, entre o desespero e o sepulcral silêncio que reinava no Chile durante a ditadura, e como decorreu a sua relação inicial com Nova Iorque.

“Quando a ironia não é suficienteâ€, como declarou Valdés na sua emocionada leitura inicial, é uma frase que se repete e abriu a conversa em que ambos refletiram sobre a maneira como os intelectuais, que ficaram no país, adotaram uma complexa estratégia para elaborar, publicar e difundir os seus escritos, momento que propiciou a origem do catálogo como ferramenta de apoio e difusão das artes visuais, e com o qual, tanto artistas como escritores, puderam beneficiar do poder de partilhar uma dinâmica de resistência segundo o modo de um “exílio interiorâ€.

Finalmente, Jaar realizou uma apresentação chamada It is difficult, em que partilhou a génese e os processos de um conjunto de intervenções públicas realizadas em diferentes lugares do mundo, tais como Dear Marcus (Filândia, 2011), The Skoghall Kunsthall (Suécia, 2000), Lights in the City (Canadá, 1999), The Cloud (México-EUA, 2000) e Geometría de la Conciencia (Chile, 2010).

“A arte é 99% pensamento, o resto é articular a ideiaâ€, assinalou o artista, e destacou o processo racional que está oculto em cada projeto, um processo que, no entanto, deve ser aberto imediatamente ao acaso para encontrar uma ideia e orquestrar a melhor maneira de se comunicar, o que ocorre só depois de compreender integral e exaustivamente o contexto em que é realizada cada intervenção. Este processo é lento — alguns projetos têm levado anos para serem concluídos — e requer a colaboração das autoridades institucionais e da comunidade local. Portanto, cada intervenção pública de Jaar é o resultado de uma dinâmica de confiança cultivada por agentes que o convidam a participar e das condições que propiciam este processo.

Contudo, dada a natureza da intervenção pública, o êxito de cada projeto não se está implícito nele. O artista sabe-o e declara-o honestamente, tal como sucedeu com Requiem for Leipzig (2005), onde sem sucesso tentou criar um diálogo com a audiência numa igreja abandonada. Pelo contrário, a audiência criou-o fora dela, sentindo-se intimidada pela carga espacial e histórica da construção.
O artista submete-se ao enorme desafio de encontrar uma estratégia de representação específica para cada contexto em que intervém, depois ela é apropriada pela comunidade, e a maioria das vezes, sem um posterior seguimento. Isto, como sintoma geral, foi questionado por alguns observadores, tais como o reconhecido crítico e historiador de arte Hal Foster, que assinala no seu texto The artist as Ethnographer que “apesar das boas intenções do artista, somente uma participação limitada por parte do Outro é levada a cabo. Quase naturalmente, o foco desvia-se da investigação colaborativa para a ‘autoconstrução etnográfica’, na qual o artista não se descentra tanto, como o Outro é articulado em aparência artística†[1].

A metodologia de Jaar não integra necessariamente o êxito de cada projeto, nem tão pouco um seguimento logo posterior a cada intervenção pública, contudo, o valor da sua estratégia encontra-se na sua extrema sensibilidade (Jaar não impõe nenhum dos seus projetos à comunidade), na sua capacidade de abarcar eventos tão distantes e tão diferentes (no seu conjunto fora do alcance da maioria de nós) e a sua posterior colocação em cena na corrente internacional.

Ainda assim, as suas ações serviram como modelo para os artistas ativistas que desejam fundir a arte com o cenário sociopolítico e desprezam o domínio dos meios corporativos — um tema polémico nos tempos que correm.

Artista global, ao usar três contextos diferentes para combinar a sua atividade profissional, Alfredo Jaar satisfaz a necessidade de comunicar conflitos sociais, políticos e mediáticos elegantemente representados e tenta produzir uma fratura num sistema que parecia não oferecer uma alternativa ao neo-liberalismo, submetendo-se ao desafio de resistir perante uma cultura ocidental sobrecarregada de elementos visuais.


Notas
* Texto originalmente publicado em Artishock [www.artishock.cl]
[1] Hal Foster, “The Artist as Ethnographer?â€, in The Traffic in Culture: Refiguring Artand Anthropology, ed. George E. Marcus & Fred R. Myers. Berkeley: University of California Press, 1995, p. 306.


Michelle-Marie Letelier