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COLETIVAO Novo OfícioMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 20 JUN - 26 AGO 2012 A ubiquidade da música sempre motivou um sentimento dúbio de fascínio e de ânsia por uma conversão da mesma em materialidade objetivável. A exposição O Novo Ofício, actualmente a visitar no Museu Colecção Berardo e comissariada pela editora de música a Filho Único, reúne obras que, ao longo do século XX e até à atualidade, refletem uma tendência, um tanto clandestina, por parte de autores do domínio musical, para um extravasamento dos limites discursivos, simbólicos e materiais que prosaicamente lhes dizem respeito. As obras expostas, de cariz musical, sofrem deste modo uma transposição espacial que lhes acrescenta uma dimensão expositiva, permitindo pensá-las num contexto museológico. A sinestesia torna-se gritante. Formas, cores e texturas, melodias e ritmos, numa mescla simbólica, invadem-nos os sentidos, e o que foi, talvez inocentemente, apenas música, tem agora a complexidade e a solidez de uma obra cuja origem está num objeto que transborda o suporte que o enforma, numa busca por outras linguagens. A expressão musical é o epicentro criativo de um núcleo de artistas que pensaram a música para lá dos limites do espectro sonoro. Em 33 1/3 (1912-1992), da autoria de John Cage, encontramo-nos perante a já tão familiar ousadia do compositor: doze gira-discos portáteis que desenham um círculo no espaço, e que, rodeados de discos intencionalmente aleatórios, apelam à intervenção do espectador, o que culmina numa cacofonia irrepetível, uma melodia de palimpsestos que, em toda a sua extensão, consiste na obra final pretendida com a composição dos objectos. A versatilidade e a interdisciplinaridade das criações artísticas de Marcel Duchamp fazem com que as obras do autor integradas na exposição não se revelem surpreendentes. La Mariée mise à nu par ses célibataires, même. Sculpture musicale (1913) opera uma objetivização absoluta da música que nos coloca perante a hibridez de um objeto convertido em peça musical ou de uma música convertida em obra objetual. A conversão da música em materialidade de uma presença espacial enquanto possibilidade parece estar também no centro da obra co-autoral de Le Corbusier e Edgar Varèse, Poème Electronique concebida arquitetónica e musicalmente para a Expo’58 de Bruxelas, a respeito da qual estão presentes na exposição documentos, planos e fotografias: um edifício e uma música concebidos um a partir do outro, a pedra que está para a melodia e que desta retém a sua essência. A evolução dos instrumentos de criação musical é inalienável no contexto de uma reflexão acerca do objeto-música. Luigi Russolo, artista plástico do futurismo italiano, concebeu os Intonarumori (1913), dispositivos mecânicos criados para produzir ruído, contextualizados pelo manifesto “A Arte do Ruído”. Nos primórdios do uso da tecnologia ao serviço da música, Leon Theremin desenvolveu um instrumento que terá revolucionado a história da instrumentação eletrónica, responsável pela criação de um som cuja artificialidade parece estar para lá de um futurismo. Music on a Long Thin Wire (1977), instalação criada por Alvin Lucier e obra de relevo para a arte sonora, é transversal aos domínios da física, da escultura e da música, atingindo uma harmonia sonora e visual através de um cabo de aço em grande tensão e de um íman industrial responsáveis pela produção de um ruído amplificado por microfones. Mais uma vez a indústria e a tecnologia ao serviço da criação sonora, expandindo os horizontes do audível e criando um som absolutamente desumanizado. Antropométrie de l’Époque bleue (1960), de Yves Klein, é uma obra emblemática no contexto de uma reflexão em torno da transposição das fronteiras disciplinares artísticas. A música é aqui explorada enquanto criação portadora de uma fertilidade criativa peculiar, desencadeando uma performance que abriga a dança, o teatro e a pintura, num todo desfragmentado que parece ambicionar a totalidade artística de que Richard Wagner tanto falou a propósito de uma obra de arte do futuro. The Desintegration Loops (2005), uma obra do compositor William Basinski, parece arrancar ao espectador uma indagação em torno do lugar que abriga a música e das contaminações que vai sofrendo em contacto com o real, asseverando que também este se torna autor, deixando as suas marcas na obra – por muito indelével que a sonoridade nos possa parecer. À música gravada em seis fitas áudio analógicas juntemos o tempo, com a sua potência aniquiladora, e o que ouviremos será ainda uma melodia, com uns rasgos de antiguidade e um pouco mais de mundo. Acerca da religiosidade da música que nos remete invariavelmente para certas representações, fala-nos a obra A Sounding Altar of Sacred Divinities (2012) do músico e artista visual Charlemagne Palestine. Uma sucessão de “altares” nos quais diversos objectos infantis parecem ser alvo de devoção, numa ambiência de sacralidade cedida pelo som de um órgão em constância. A apropriação e manipulação da figura do altar remetem menos para uma visão corrupta dos mesmos do que para um afirmar da religiosidade intrínseca à música. Na obra da dupla portuguesa Sei Miguel e Fala Mariam, Tríptico do amor – crime: A Cifra (2008 – 2012), encontramos uma materialização do som que passa pela codificação dos sons e transposição dos mesmos para o domínio material, num minucioso vocabulário que resgata a figuratividade intrínseca a cada som. Uma abordagem totalizante da musicalidade tende aqui a harmonizar pintura, música e escultura, pois que uma única interioridade ganha expressão através de diversos suportes artísticos. A exposição integra ainda obras de artistas e músicos como Lou Reed, Jandek, Gavin Bryars e Erik Satie, todos eles marcados pela mesma tendência para pensar a música através de discursos que extravasam o domínio do sonoro. A ubiquidade da música parece estar assim reflectida na sua omnipresença em todas as formas de expressão artística; e a ausência de fronteiras disciplinares que marca a arte contemporânea convida ao surgimento deste “novo ofício”.
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