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MANIFESTA 9The Deep of the ModernKOOLMIJN VAN WATERSCHEI-GENK André Dumontlaan 67 3600 Genk 02 JUN - 30 SET 2012 Baseada na história social e económica da Europa pós-industrial, a Manifesta 9 – sediada em Genk, na região belga de Limburg – é fortemente inspirada na história da antiga mina de Waterschei, local da bienal. Escolhido com três anos de antecedência, antes da nomeação da equipa curatorial, o espaço da bienal evoca a crise europeia atual. A mina de carvão de André Dumont abriu em 1924, encerrou em 1987, e após a bienal fará parte de um largo complexo tecnológico, focado na investigação e inovação. Atualmente, da mina original, resta apenas o esqueleto do edifício principal e alguns traços art déco do interior. O património, a história e a memória da mina de Waterschei estabelecem um diálogo interessante com as obras selecionadas que se envolvem num ambiente particular do espaço histórico industrial. As “profundezas” das minas de carvão sugerem um metafórico retrato do início de uma nova era capitalista, principiada no século XX. É neste contexto que The Deep of the Modern emerge como o tema escolhido pelo curador mexicano Cuauhtémoc Medina, com curadoria associada de Katerina Gregos e Dawn Ades. Para Medina, a inexistência de um estudo sobre o papel do carvão na produção moderna cultural incentivou o desenvolvimento deste tema, sendo-lhe atribuído um papel primordial na Manifesta. A exploração das minas de carvão foi a grande impulsionadora económica da região, tendo ainda permitido a deslocação de cerca de 60 mil pessoas vindas de diferentes áreas do globo. O espaço expositivo está dividido em três secções designadas de “The Age of Coal”, “17 Tons” e “Poetics of Restructuring”. “The Age of Coal” é uma exposição histórica que abarca obras de 1800 ao início do século XX, próximas da temática do carvão e da indústria, numa espécie de estudo iconográfico da questão. O início deste núcleo parte da curiosa instalação de Marcel Duchamp, constituída por um teto de 1200 sacos de carvão, realizada para a Exposição Internacional do Surrealismo de Paris, em 1938. Através de uma vertente mais claustrofóbica – devido à proximidade do corpo do visitante ao teto repleto dos pesados sacos – a paisagem criada pela grande quantidade de sacos da indústria do carvão surge antes da sala climatizada, museologicamente instalada, onde entramos para percorrer a secção histórica da bienal. Aqui, o carvão pode ser avaliado no seu todo, ou seja, como matéria, fóssil, combustível, ou numa vertente histórica. Destacando o carvão como um fóssil da natureza, é apresentado um curioso conjunto de gravuras de Max Ernst, de 1926, ou uma enorme pintura de Jan Habex, antigo funcionário da mina e natural de Genk, que imagina uma maravilhosa paisagem florestal carbonífera. O estatuto do mineiro é, por exemplo, representado nos belos trabalhos de Josef Herman, em Three Miners (1953), ou nos papéis a tinta e pastel de Robert Heslop – trabalhou nas minas de Durham mais de 40 anos. “17 Tons” é o núcleo que reúne obras que surgiram no pós-encerramento das minas. Em geral, é apresentada uma série de peças que se destacam pela sua proximidade com a antiga mina e os seus trabalhadores. Numa grande diversidade de obras, tanto vemos maquetes em gesso, que permitem compreender as técnicas de exploração do minério; ou uma maquete de uma mina de carvão construída em LEGO; uma coleção de tapetes dos imigrantes turcos evidenciando a importância da comunidade turca em Limburg e o seu trabalho nas minas; ou as esculturas de Manuel Durán em carvão, polpa de batata e tinta de cabeças de mineiros. “Poetics of Restructuring” ocupa os dois últimos pisos do edifício, mostrando artistas contemporâneos numa relação próxima com o estado de degradação do espaço. Ao contrário do que é comum nas bienais que expõem um elevado número de obras em diferentes espaços (e como sucedeu nas anteriores edições da Manifesta), em Genk, a equipa de curadores, optou por mostrar um número mais reduzido de artistas contemporâneos (39 artistas), mas simultaneamente optando pela diversidade de meios e suportes, desde a pintura e fotografia, a instalações e trabalhos áudio. Segundo os curadores, os artistas apresentados trabalharam sobre a industrialização ou pós-industrialização, a desindustrialização, a restruturação económica, as condições de trabalho atuais e a nova economia. A obra em construção permanente de Ni Haifeng, Para-Production, destaca-se à partida por estar montada no hall central do edifício; não obstante são várias as reflexões que inevitavelmente propõe e que atravessam a bienal. Este trabalho apresenta três partes: uma longa tapeçaria de fitas de tecido coloridas cosidas; um conjunto de tecidos soltos, sendo a maior parte deles de cor escura; e uma fila de máquinas de costura Singer, que permite ao público participar na instalação. A partir daqui a especulação é permitida nas diversas abordagens que trespassam o caráter da obra. A cultura do trabalho é um dos pontos principais, reatando a produção “Made in China” num sentido globalizado. Estamos igualmente perante uma homenagem aos trabalhadores da mina, evocando o escuro do monte de tecidos o carvão das minas de Waterschei. Ainda considerando o papel específico do trabalhador, Burtynsky apresenta uma seleção de oito fotografias intituladas China, Manufacturing, 2005. Ao longo de duas décadas o fotógrafo canadiano tem registado paisagens industriais, e entre 2003 e 2005 viajou pela China com este mesmo propósito. A exploração no trabalho de produção industrial em massa é visível nas imagens expostas. Coal Drawing Machine (2012), de Carlos Amorales, cria uma espécie de labirinto com grandes desenhos produzidos a carvão através de uma máquina que produz elementos gráficos variados, estabelecendo um contraponto entre o trabalho manual e industrial. Alguns artistas utilizam o carvão como material das suas instalações. Richard Long apresenta Bolivian Coal Line (1992), sendo o carvão proveniente da Bolívia e mostrado num tapete preto de 26 metros de comprimento; Marcel Broodthaers começou a usar o carvão nos seus trabalhos entre 1966 e 1967, data da peça aqui exposta Trois tas de charbon, completada com bandeiras da Bélgica em miniatura, numa referência à época do conflito entre a polícia e os mineiros de Zwartberg, em Genk. Bernar Venet em Tas de charbon (1963) também opta por utilizar o carvão mineral como matéria da obra. David Hammons, com Chasing the Blue Train (1989), estabelece uma metáfora em torno dos caminhos de ferro norte-americanos que transformaram radicalmente a paisagem e a sociedade americana do século XIX. Robert Smithson, com Nonsite, Site Uncertain (1968) apresenta o carvão de pedra em pequenos contentores de metal com forma de triângulo e em sequência, seguindo uma reflexão própria da sua obra sobre o não lugar, ou o tempo e o espaço indeterminados. Por um lado, este magnífico edifício foi uma excelente escolha para receber a Manifesta e permite esta feliz relação entre a história industrial da região de Limburg e a arte contemporânea. Por outro lado, e sobretudo no último piso da exposição, as obras escolhidas pecam pela falta de interesse e de relação com o espaço e com o tema da Bienal. A Manifesta 9, que desde 1996 se realizou em Roterdão, no Luxemburgo (1998), em Ljubljana (2000), em Frankfurt (2002), na Donostia-San Sebastian (2004), em Nicosia (2006 – cancelada), no Trentino-Alto Adige (2008) e em Murcia (2010), mantém uma distância deliberada das áreas de produção artística dominantes, procurando novas direções e práticas curatoriais, novos modelos de exposição e educação, numa bienal itinerante que pretende explorar e desenvolver o território europeu onde é sediada.
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