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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fernanda Gomes, vista da instalação, Museu da Cidade, Lisboa © 2012 DMF


Fernanda Gomes, vista da instalação, Museu da Cidade, Lisboa © 2012 DMF


Fernanda Gomes, vista da instalação, Museu da Cidade, Lisboa © 2012 DMF


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ARQUIVO:


FERNANDA GOMES

Fernanda Gomes




GALERIAS MUNICIPAIS - PAVILHÃO BRANCO
Campo Grande, 245
1700-091 Lisboa

30 MAI - 26 AGO 2012


Fernanda Gomes não expõe no Pavilhão Branco do Museu da Cidade. Explode, apropria-se do espaço, coloniza-o, expande-se, infiltra-se e encaixa-se magneticamente nas pregas e articulações da arquitetura da galeria, até às fendas do pavimento. A aparente arbitrariedade é só mesmo isso, aparente. De resto tudo é milimetricamente instalado no espaço expositivo, numa justaposição de objetos que, em equilíbrios improváveis, aparentam ter no peso da gravidade o seu único aglutinante e parecem cristalizar a obra total na integridade do seu conjunto, sem destituir de autonomia a cada fragmento.

A artista trabalha com acumulações de objetos comuns que seleciona e ordena cuidadosamente. Gastos de história e subitamente subtraídos dos seus contextos (o mundo próximo), são depois submetidos a uma reorganização semântica da sua matéria e função. A fragilidade e delicadeza dos materiais que quase se vaporizam, desafiam o observador a recalibrar a sua perceção e a aguçar os seus sentidos. Com uma minúcia laboratorial, a artista dispõe preciosidades precárias que vão desde pedaços de madeira, uma tela crua, cordéis, vidro, folhas de papel, uma pedra da calçada, que deixam adivinhar um conjunto de decisões formais ao desenharem-se junto ao solo numa composição simbiótica com o espaço.

Detentora de um currículo cada vez mais extenso, no seu país e fora dele, Fernanda Gomes (Rio de Janeiro, 1960) expôs pela primeira no nosso país, individualmente, no Museu de Serralves (2006) e na Galeria Graça Brandão (2009). Esta mostra é uma pequena reaplicação desse exercício, que poderá incluir um sem número de outros objetos, em dispositivos de uma criatividade inesgotável, em bruto, crus, em ciclos e variações eternas, até o seu fim.

Aqui continua a sua investigação como se nunca tivesse partido, porque qualquer galeria ou lugar no planeta são uma extensão da sua casa, que é uma extensão do seu atelier que é uma extensão do mundo. “A minha casa não é exatamente uma casa, é uma coisa diferente†afirma. De fato, encontram-se descrições da sua casa tão entusiásticas quanto das suas exposições. Nela a artista acumula objetos de forma quase obsessiva, acrescenta-lhes camadas, ensaia composições, espera que desapareçam. Algumas coisas recolhe de onde expõe, outras vêm desta sua casa, para lá regressarem, amnésicas, ao seu uso anterior (as cadeiras da cozinha, os copos de água ou de vinho, os livros em branco).

A sua escolha, o seu uso, a sua reorganização e o seu retorno a utensílio, coreografam um movimento circular. De onde vieram? Para onde retornarão? Este dispositivo dilata-se muitíssimo no tempo que o precede e no que o sucederá. A entropia é outra força da física a que os objetos se devolverão, de forma doce e sem sentimentalismo. Talvez de obra “Sem título†e de identidade ambígua, acabem por retornar aos seus nomes.

Voltamos à casa, que não é bem uma casa. Lá não é só a coisa física que a artista justapõe, mas tempo e memória, em camadas (na tinta branca que se acumula e estala revelando carne dos objetos, no vidro suavemente riscado denunciado na luz baça quando a filtra ou no papel amarelado). Há elementos e processos retomados de há anos. Nesta mostra Fernanda fala dos livros que resgata de um trabalho antigo adormecido e que provavelmente darão origem a muitos desdobramentos no futuro. Por outro lado, os objetos que recolhe (onde já se sedimentavam as diferentes identidades e todos os seus ciclos de dormência e reativação), testemunham os vestígios de gestos diários íntimos.

Exemplo disso são os trabalhos em progresso como a recoleção diária de fios de cabelo, novelos de fio dental usado que reúne desde meados da década de 90 ou um sabonete já transparente de tão gasto, mostrados em outras exposições. Não são apenas materiais, trazem consigo experiências e propriedades sensíveis. Trazem consigo os rituais que os esculpiram. É difícil definir uma fronteira entre a arte e a vida quando deparamos com algo assim, onde estes dois universos coexistem sem uma margem definida.

Primeiro existe o espaço e depois vêm as coisas ou primeiro existem as coisas e depois o espaço? A artista sabe que no final desta equação resta apenas a experiência e que tudo – do espaço expositivo aos objetos nele – se resume a matéria e depende de nós para existir. É mais complexo do que parece à primeira vista, tal como o branco. O branco é uma cor complexa, que se desmultiplica num sem número de tonalidades. Só após descobrir todas as suas cambiantes a artista possivelmente se interessará por qualquer outra.

Recentemente, até abril deste ano, o MAM no Rio exibia a maior mostra da artista no Brasil, ocupando 1.820 metros quadrados de museu. Fernanda falava em entrevista [1] da história dos objetos que reúne e da multiplicidade de relações que cada visitante iria destilar deles.

Oscilando entre a singularidade de cada fragmento e a constelação total da obra, o espetador hesitará quanto ao lugar que o seu corpo ocupará nessa ordem, numa experiência estilhaçada e quebradiça do espaço. A circulação de um corpo constitui um problema num engenho-teia tão frágil. A artista reserva-lhe vários dilemas: onde encaixar o ponto de vista, onde pousar os pés, até quando suster a respiração, que percurso tomar ou como decifrar a história que um objeto evoca. Um dispositivo arqueado assemelha-se a uma cana de pesca, um saco de plástico transparente discretamente suspenso caça o ar e repousa furtivo à espreita da próxima presa. Esta mostra ameaça implodir-se junto com o visitante, acionado seja um dos seus fios sensíveis.

João Fernandes, em torno da exposição em Serralves [2] referiu que “cada visitante abrirá um novo caminho, tão hesitante quanto tateante, entre tudo o que se oculta quanto o que se revela. Não há mapa possível para esta errânciaâ€.

Mais vale desistir de qualquer “ismo†que o guie. Para uma artista plural que prioriza as propriedades físicas e afetivas dos objetos, tanto faz as categorias da estética. Antes um regresso ao essencial, que nos faz repensar os limites da escultura e da instalação.



NOTAS

[1] Entrevista ao Informe Cultural (www.youtube.com/watch?v=6lWIf6FQSxM)

[2] Texto de João Fernandes in Fernanda Gomes. Porto: Museu Serralves, 2006, p.123, 124


Pietra Fraga