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ANNA MARIA MAIOLINOAqui e Lá09 JUN - 16 SET 2012 Não estranha que Anna Maria Maiolino tenha escolhido ocupar uma casa com a obra que fez para a 13ª edição da Documenta, em Kassel. O universo doméstico, que no seu trabalho permanece ligado ao feminino, sempre foi um “leitmotiv” potente. Maiolino, italiana radicada em São Paulo, nunca havia estado nesta pequena cidade alemã quando foi convidada para integrar a exposição. Numa viagem a Kassel com a curadora Carolyn Christov-Bakargiev, Maiolino viu a casinha à beira do parque que decidiu não só ocupar com esculturas, obras sonoras e vídeos mas também transformar em grande instalação. “Queria que o espectador ficasse envolvido pelo espaço da casa, pelo jardim”, disse, no seu apartamento na Vila Madalena, antes de viajar para montar os trabalhos. Na primeira visita a Kassel, Maiolino também foi a um antigo mosteiro que serviu de base da polícia secreta durante a Segunda Guerra (1939-45), lugar onde faziam a triagem dos prisioneiros que seriam mandados para os campos de concentração. Hoje funciona ali um manicómio. LOUCURA E PODER “Era um lugar onde se administrava o poder de uma maneira terrível, tentando colocar todas as mentes numa mesma forma”, diz ela. “São todos exercícios de poder.” Um vídeo que gravou na hora, durante a visita ao manicómio, é mostrado dentro da casa no parque. “É um documentário modesto”, diz Maiolino. “Foi mesmo um registo da minha chegada.” No caso dos desvios mentais, trechos do conto “O Alienista”, de Machado de Assis, e versos de Stela do Patrocínio, poeta que viveu anos internada na colónia Juliano Moreira, no Rio, serão combinados à fala da artista em gravações audíveis na porta da casa. “Nenhuma obra de arte, a menos que seja panfletária, pode ser lógica”, diz Maiolino. “Tudo é uma sobreposição de sentimentos ambíguos, estamos em busca dos sentidos. Estou a fazer uma afirmação da subjetividade.” LABOR FEMININO Outra afirmação é a série de esculturas em argila que Maiolino mostra no térreo da casa. São formas básicas, resultado de quatro movimentos da mão, que formam rolinhos e dobras. Terra Modelada, nome dado a esse ato de repetição quase obsessiva de formas em argila, é uma série que começou no início dos anos 1990. “Remete ao labor cotidiano, uma referência ao feminino”, diz a artista. Maiolino mete mesmo a mão na argila para moldar as peças sempre únicas, embora pareçam iguais. “ O meu trabalho não pode ser olhado como algo preso à forma”, diz a artista. “Estamos trabalhando em cima de um ritual.” Em Kassel, isso quer dizer entrar na casa da artista, ver e ouvir suas memórias e tentar entender suas proposições para um futuro possível. Nota: (*)Texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho em 2012.
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