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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Sophie Calle, Voir la mer, 2011. Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Sophie Calle, La Dernière Image. Aveugle au lever de soleil, 2010. Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Sophie Calle, La dernière image, 2010. Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Sophie Calle, La dernière image, 2010 (detalhe). Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Sophie Calle, Voir la Mer, 2010 (detalhe). Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Sophie Calle, Voir la Mer, 2010 (detalhe). Copyright © Adagp, Paris 2012. Cortesia: Galerie Perrotin


Capa da obra de Sophie Calle, Aveugles, Edição Actes Sud, Verona, 2011

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ARQUIVO:


SOPHIE CALLE

Pour la dernière et pour la première fois




GALERIE PERROTIN
76, rue de Turenne
75003 Paris

08 SET - 27 OUT 2012



Le vert c’est beau. Parce que chaque fois que j’aime quelque chose, on me dit que c’est vert. [1]

De mon mari, on m’a dit qu’il était beau. Je l’espère. [2]




Iniciada há quase trinta anos com o seu projecto Les Aveugles (1986), a exploração de Sophie Calle relativamente à problemática da cegueira tem sido contínua: mais do que a sua dimensão fisiológica, a artista tem procedido a um inventário dos seus efeitos não simplesmente metafóricos, mas sim os que recaem na experiência, no estar-no-mundo dos que sofrem de perturbaçãos nesse sentido régio. É que é difícil para quem vê compreender os seus graus: a cegueira total não é ver ininterruptamente uma cor ou algo como a escuridão – é antes um não-ver, uma ausência absoluta, uma não percepção de luz (frequentemente denominada no light perception). Será algo como a descrição de Richter: “Rien, absolument rien, pas de personnage, pas de couleur, rien” [3], que Calle recolheu numa outra abordagem a esta temática, La Couleur Aveugle (1991), onde confrontou as descrições de cor dos cegos com textos sobre a monocromia de Borges, Klein, Malevich, Malevich, Manzoni, Rauschenberg, Reinhardt e Richter. Já a cegueira parcial, ou chamada visão subnormal, permite uma infinitude de graus percepcionáveis possíveis relativamente à amplitude (nunca os 180 graus considerados normais), detecção de movimento da luz, ou cromatismo.

A exposição agora presente na Galeria Perrotin consiste em duas secções: Voir la mer (2010) e La Dernière Image (2010). A primeira, que contou com a colaboração de Caroline Champetier, colaboradora de, entre muitos, Jean Luc-Godard e Philippe Garrel, junta três ecrãs numa sala e vários outros numa segunda, sendo que a série de filmagens se centra em indivíduos, voltados de costas para o espectador, face ao mar, cujo movimento das ondas não pára de soar. Cada um dos filmados se volta, à sua vez, para o espectador, mostrando bustos afectados – dois homens choram calmamente, como se tivessem visto algo que os remeteu ao mutismo – algo que não é nem o mar, nem o infinito, uma imagem que se impõe entre o ecrã e o espectador, que não se apresenta directamente mas sim de um modo indicial, cravado no rosto – o vestígio de uma revelação. É que todas estas pessoas, que a artista conheceu no interior da Turquia, nunca tinham visto o mar. Sophie Calle proporciona assim o choque da primeira imagem desse motivo transversal a todas as culturas e regista-o, fixando a intensidade e o choque de um encontro (esse outro motivo também transversal a toda a sua obra [4]).

O mar é, como Bachelard, Freud e muitos outros formularam e as artes sugeriram, desde a pintura à escrita (lembremos Duras), um dos símbolos maternos por excelência e um dos mais potentes motivos da cultura – em francês a homofonia entre mãe e mar, Mère/Mer, ambos de género feminino, sugere já esse berço das imagens até ao infinito, aquela instância que contém tanto a morte (tanatos) como a vida (eros) e, portanto, onde tudo conflui e onde o estatuto de “visualização inédita” é possível, dado o seu carácter de incontornável.

Já em 1986, quando Calle perguntava a um grupo de pessoas cegas qual era para eles a imagem da beleza, alguém que não havia nascido cego respondia-lhe “La plus belle chose que j’ai vue c’est la mer, la mer à perte de vue” (p.11) – frase escolhida para ser o primeiro depoimento do livro Aveugles [5], que é acompanhado pelo sistema de leitura em braille; já outro, cego desde a nascença, também tinha a certeza: “La mer, je l’imagine belle, belle au-delà de la description qu’on m’en faite. J’aurais tendance à aimer le bleu à cause d’elle“ (p.13).

A visão do mar ressurge nesta exposição como a mais bela das coisas ou pelo menos a última, num dos testemunhos em que um indivíduo o contemplou antes de uma operação que viria a ser mal sucedida: “J’ai regardé la mer au loin derrière les immeubles, le soleil dans les nuages, le passage de l’obscurité à la lumière. Comme si c’était la dernière fois.” [6]

La Dernière Image (2010) pretende localizar a última imagem de vítimas de cegueira súbita, também na Turquia, invocando o mito grego da construção de Bizâncio, que dita que a fundação da acrópole pelo rei de Mégara, Bizas, se deveria à indicação de um oráculo que o aconselhou a fundar a cidade do lado oposto ao da “terra dos cegos”, os calcedónios, que foram doravante tomados por tal, pelo facto de não terem edificado a sua cidade no lado mais favorável da região.

Os vários testemunhos são acompanhados de fotografias que sugerem essa última visualização, sendo que Calle recriou esses últimos motivos: deslocou-se à praça da infância, à clínica onde a operação fracassou, à estrada onde o acidente de viação teve lugar, registou esse tapete que já não foi possível terminar ou os traços desse marido que, independentemente do toque, ficará sempre cristalizado: “mais mon image a encore les cheveux bruns et aura toujours trente-neuf ans” [7]. A importância da última imagem é tanta e tão pouca quanto o facto de ter sido a última, antes da completa ausência – dignidade ontológica mais que suficiente.

A cegueira apresenta assim um investimento simbólico incomensurável numa civilização que se quis moldar à medida de imagens potentes – seja a cegueira que se descobriu como sintoma ou causa de doenças, seja a cegueira dos profetas ou mesmo a que nos reconhecemos em nós próprios antes dos acidentes de percurso – não é por acaso que Sophie Calle dedica o livro A Bob Calle qui m’a fait voir – como se antes, mesmo com dois olhos operacionais, lhe faltassem as imagens.



NOTAS


[1] Depoimentos de cegos de nascença: Calle, Sophie, Aveugles. Verona: Edição Actes Sud, 2011, p.17
[2] Ibidem, p.25
[3] Richter, Gerhard, Entretien avec le critique Coosje van Bruggen: Gerhard Richter, «Painting as a Moral Act». In: Artforum, Mai, 1985, apud Calle, Sophie, Aveugles. Verona: Edição Actes Sud, 2011, p.63.
[4] Por exemplo, a sua afamada perseguição em Veneza, que originou o livro: Calle, Sophie e Baudrillard, Jean, Écrit sur l’imagem. Sophie Calle. Suite vénitienne. Jean Baudrillard. Please Follow me. Bagneux: Édition de l’Étoile, 1983.
[5] Calle, Sophie, Aveugles. Verona : Edição Actes Sud, 2011.
[6] Excerto de depoimento registado por Sophie Calle e presente na exposição.
[7] Excerto de depoimento registado por Sophie Calle e presente na exposição.


Jorge Vieira Rodrigues