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PAULO NOZOLINOUsuraESPAÇO NOVO BANCO Praça Marquês de Pombal, 3 1250-161 Lisboa 20 SET - 04 JAN 2013 “Usura†significa juro, em princÃpio excessivo, sobre um empréstimo monetário. O nome baseia-se no tÃtulo homónimo de um poema de Ezra Pound. Os nove trÃpticos de Paulo Nozolino que compõem Usura podem ser vistos no BES Arte & Finança, o que constitui uma fina ironia. A curadoria é de Sérgio Mah e o espaço está cuidadosamente delineado e iluminado, para que as fotografias sejam fruÃdas em pleno, como merecem. Nozolino iniciou estudos de pintura na SNBA, mas cedo preferiu a fotografia e foi estudar, entre 1975 e 1978, no London College of Printing. Considerado um dos mais importantes fotógrafos da atualidade, com trinta anos de carreira marcados por numerosos prémios e bolsas internacionais: Prémio Kodak (Portugal, 1988), Prix Fondation Leica (França, 1989), Bolsa Villa Médicis Hors-les-Murs (Paris, 1994) e Grand Prix de la Ville de Vevey (SuÃça, 1995). Viajou pela Europa, Estados Unidos, Norte de Ãfrica, Médio Oriente, Ãndia, América do Sul e continua a fazê-lo. Estas viagens permitem-lhe fotografar diferentes realidades e é por isso que alguns designam o seu trabalho por fotografia de viagem. Mas as imagens que nos mostra não têm referencial geográfico, têm referencial temático. Mostra-nos cidades suburbanas desabitadas que não sabemos onde são, nem isso interessa para o que Nozolino tem a dizer. A viagem não é o tema mas sim o método do artista. Mesmo quando vemos numa fotografia uma pequena imagem de Sadam Hussein, não estamos no Iraque, nem no Kuwait ou nos Estados Unidos; estamos na Guerra do Iraque. Não é um local geográfico, é um referencial histórico. Todas as imagens de Nozolino são abundantes em grão. As que contêm figura humana parecem possuir ainda mais granulosidade. Este grão define texturas, névoas, dilui ou acentua a profundidade. É o studium que permite que o punctum de cada fotografia penetre mais fundo no observador. Na era do digital em que as imagens ganham uma nova definição, Nozolino dá a este substantivo duplo sentido, pois é a menor definição visual que as torna tão acutilantes e claras. Aqui o grão remete-nos para a pelÃcula, acentua o olhar sobre o passado (mais ou menos recente), desfraldando questões sobre o presente e o futuro. O trabalho do fotógrafo vem na linha do fotojornalismo por oposição a um tipo de fotografia mais encenada e pictórica. No entanto, fica muito longe do fotojornalismo, porque mesmo tendo preocupações em mostrar a atualidade mundial, não se limita a imprimi-la, mas opta por fazer um comentário crÃtico. Em cada trÃptico há um diálogo entre as imagens que o compõe e um fio narrativo que nos guia. Há a intensão clara de confrontar o observador, de incomodá-lo sempre através de questões expressas nas fotografias e através da sua rudeza e dramatismo, nunca através de imagens-choque, tão ao gosto da fotografia de reportagem que se faz atualmente. São elegantes as suas imagens de desolamento e alienação assim como as suas intenções. Paulo Nozolino é meticuloso na composição, quer nas fotografias individuais, quer na sua reunião em trÃpticos. Todos os trÃpticos, exceto um, reproduzem a figura humana numa das suas fotografias, seja diretamente a partir do real ou através de uma imagem dentro da imagem. A exceção é o trÃptico que nos referencia o Holocausto. Aqui se vê a subtileza e o respeito do artista pelos temas que evoca. É tão mais impressionante a referência à Segunda Guerra Mundial sem as imagens que todos conhecemos e nos vêm imediatamente à memória. Há uma narrativa que percorre cada um dos trÃpticos que pertence ao domÃnio da ficção. Não como uma história falsa, mas tal como é definida por Jacques Rancière: “A ficção não é a criação de um mundo imaginário oposto ao mundo real. É antes o trabalho que opera dissentimentos, que modifica os modos de apresentação sensÃvel e as formas de enunciação, alterando os quadros, as escalas ou os ritmos, construindo relações novas entre aparência e a realidade, o singular e o comum, o visÃvel e a sua significação.†[1] Nota [1] Rancière, Jacques (2010), O espectador emancipado. Lisboa: Orfeu Negro, p. 96.
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