|
|
CYPRIEN GAILLARDWhat It Does to Your CitySCHINKEL PAVILLION Oberwallstrasse 1 10117 Berlim 13 SET - 21 OUT 2012 The Future is but the Obsolete in ReverseAo inÃcio da performance inaugural da exposição What It Does to Your City, de Cyprien Gaillard, não era claro para todos o que estava a acontecer não no Schinkel Pavillion, o espaço da mostra, mas no terreno em estaleiro do lado oposto da rua, onde no prazo de dois anos estará edificado o prédio de luxo no valor de oitenta e cinco milhões de euros do qual agora se iniciam os alicerces. O ambiente que se vivia na inauguração poderia compreender-se melhor − não pelo caráter lúdico da ficção mas pela exatidão dos factos − ficcionando que os visitantes da exposição tinham sido surpreendidos por uma emergência bizarra que os obrigasse a subir acima do nÃvel do solo, donde pudessem aceder ao que se passava entre os cabos de aço, tubos, blocos de betão e retroescavadoras por detrás da vedação de madeira da esquina Werderschen Markt/ Oberwallstraße. Alguns eram içados a partir das janelas do primeiro andar do espaço de exposição, usando como degrau uma caixa de eletricidade; as escadas estavam sobrelotadas e eram subidas pé ante pé, esperando um espaço livre no degrau seguinte, sem ser possÃvel que se visse o que estava adiante. Os desistentes que ficavam na rua tentavam trepar a parede lateral da igreja Friedrichswerdersche, contigua ao terreno. Quando a todos começou a chegar o som metálico de máquinas retroescavadoras em movimento e uma interpretação de Steve Reich vinda de dois xilofones situados ao ar livre num espaço adjacente ao terraço do Schinkel Pavillion, aqueles situados nos pontos mais altos relatavam a performance para os que tinham dificuldade em ver ou viam em diferido pelos visores de telemóveis elevados acima de si. Tal como na maior parte dos fenómenos, também no trabalho de Cyprien Gaillard as relações a estabelecer estão fora do núcleo visualmente acessÃvel do acontecimento. Precisamente, aquilo que centrava a performance estava eventualmente mais adiante: não nas paredes do Kronprinzengaerten (Jardim da Princesa Coroada), conforme virá a chamar-se o empreendimento imobiliário do qual o site da performance é agora o estaleiro. Essas vão ainda erguer-se do chão; só em certa medida, contudo; noutra, o que as cimentará é precisamente da mesma natureza que verdadeiramente centrava a performance: os 360º de acesso visual em seu redor. O que ativa uma cidade. O que vai restando das modas polÃticas, utopias sociais, escolas urbanÃsticas e arquitetónicas: Unter den Linden; a atual área relvada onde até há cerca de três anos estava edificado o Palast der Republic, o antigo parlamento da DDR, desmantelado minuciosamente devido à s suas componentes em amianto; o Kronprinzenpalast (Palácio da Princesa Coroada), do qual o futuro edifÃcio adaptou o nome e, visÃvel do terraço, elevada a trezentos e sessenta metros do solo e durante anos sÃmbolo do bem estar comunista, a Fernsehenturm (Torre de Televisão). Na lógica desses restos estão também os sujeitos quer da performance: três maquinas retroescavadoras em movimento entre fogo preso; quer da exposição: uma série de bicos de retroescavadoras ortodoxamente colocados sobre plintos, importados da sucata dum deserto na Califórnia. Porque the future is but the obsolete in reverse [1], a construção civil e a especulação imobiliária estão para Cyprien Gaillard na mesma categoria dos processos que provocam a falência funcional − arquitetónica ou urbanÃstica − dum bairro ou edifÃcio. A ruÃna, clássica e moderna que tem investigado indefinidamente em todo o planeta. O que está em causa não é futurologia para as polÃticas imobiliárias atuais, a gentrificação crescente dos centros urbanos ou qualquer outra tomada de posição eminentemente sociopolÃtica. Isso exigiria fazer sentido dos processos históricos e socioeconómicos implicados na ruÃna, e compreender como Cyprien Gaillard exige que se saiba o que se desprende da necessidade desde envolvimento. Até o oposto: quando afirma que o seu trabalho “começa depois dos arqueólogos terem ido embora†[2], aquilo no que insiste é a fruição duma qualidade entrópica contida nos processos degenerativos da paisagem natural, arquitetónica e urbanÃstica, abstraÃda da sua realidade cultural, polÃtica ou social. O edifÃcio, por exemplo, tal como o utiliza nas suas instalações, vÃdeos, fotografias, “acquires a life of its own, detached from its initial social function, from the history of modernism, from the architectural plan. It then becomes part of the landscape, receding into the background as if somehow unconnected to the scene†[3]. Se é essa uma das mais consequentes caracterÃsticas da sua visão, no contexto da tradição de artistas contemporâneos empenhados em refletir sobre os espaços da degradação arquitetónica e paisagÃstica, também é aà onde mais contundentemente é criticado. Onde a crÃtica aponta, contudo, é simultaneamente onde está, com igual força, um afastamento tão resoluto de consequências polÃticas, que pode questionar a pertinência que dela pode advir. Durante a performance What It Does to Your City, com a qual a exposição inaugurou, as frases que se ouviam por entre a assistência que insistia em fazer sentido da performance eram menos irrisórias do que a sua aparência pode fazer crer. Por entre o som de máquinas de construção, xilofones e a visão extravagante de nevoeiro artificial avermelhado, a imagem das lagartas Caterpillar em movimento levava alguém a perguntar se pretendiam aquelas máquinas ser dinossauros ou um outro animal pré-histórico. Não é necessário tomar uma decisão precipitada. Mas pode fazer-se a ponte à possibilidade de abordar o seu trabalho levada a cabo por Hal Foster [4], em visita à anterior e muito mediatizada exposição de Gaillard em Berlim, The Recovery of Discovery [5]. Depois da visita à pirâmide de setenta e duas mil cervejas na qual consistia a exposição − bebidas depois da vandalização prevista das caixas ao longo da sua duração − antes de concluir que “depending on your mood, Gaillard’s show was either an open invation to festive sociality or just another bout of public drinkig in Berlinâ€, o que o teórico faz é uma interessante enumeração das ideias por onde, mais ou menos entediado, os seus “thoughts wanderedâ€: a febre de colecionismo da Europa neoclássica e imposição dos seus valores museológicos e arquivistas à s ruÃnas da antiguidade; a evocação da cidade de Ephesus, cujo nome turco é Efes, homónimo da cerveja; a representação celebrada no altar Pergamon; a crise económica grega e a postura dominante de Angela Merkel depois do “old German romance with classical Greeceâ€; a posição ambÃgua da Turquia na UE e dos emigrantes turcos na Alemanha. Pensamentos aos acrescenta algumas “art-historical associations†a juntar a estas “unsusual cultural-political connectationsâ€. Exatamente, Hal Foster estará eventualmente certo, e em vários aspetos. O facto de considerar estes pensamentos exteriores à experiência (anti) estética, nesse caso, da peça The Discovery of Recovery e relatá-los enquanto meras divagações paralelas, não inscritas naquilo que a exposição implica deve-se ao facto de Gaillard trabalhar sobre aquelas relações sem endereçar as suas intervenções diretamente a alguém, não pretendendo sequer o comportamento “take the money†– que tem sido avultado nos últimos anos – “and run†– conforme Martha Rosler sugere que alguma da produção artÃstica polÃtica e crÃtico-social se tem vindo a comportar relativamente ao sistema artÃstico. Hal Foster está certo, porque aquilo no que Galillard parece consequentemente falhar é na invulgaridade das suas ligações polÃtico-culturais. Eventualmente, também naquilo que delas faz: torná-las parcialmente irrisórias. Grande parte da investigação artÃstica feita acerca da paisagem vandalizada ou arruinada urbana e pós-industrial, da ruÃna histórica e moderna – indiretamente presente nesta exposição e transversal a todo o seu trabalho – pretende atuar repondo-lhe um sentido na lógica do qual seja possÃvel reordenar o fracasso que a determinou, registá-lo e devolvê-lo à categoria da ordem. O que distingue as suas obras em vÃdeo, fotografia, performance e instalação de outras propostas em pesquisa artÃstica que englobam este segmento de preocupações da cultura contemporânea da classe do lugar abandonado, é inscreverem-no de pleno direito na lógica do abuso e não do uso. Recusa valorá-las recauchutando-lhe qualquer categoria; por exemplo, a utilidade subsequente à falência da original, no caso das fotografias do sul africano Guy Tillim; a revelação duma qualidade apocalÃptica, como no caso do alemão Jörn Vanhöfen; ou de atualizador emocional pessoal, conforme Sarah Schönfeld fotografa os locais abandonados da sua infância na Alemanha de Leste. A fotografia, ao lado do trabalho videográfico e fÃlmico permanecem, cronologicamente depois da pintura, como a expressão da paisagem por excelência, e são também o suporte principal da experiência do “spacial turnâ€, na pesquisa artÃstica. Ainda que Cyprien Gaillard os use, não passam de ferramentas que obviamente não o inscrevem nesse media, mas sobretudo não partilham a assumpção do espaço arruinado enquanto não sustentado que atravessa a produção fotográfica sobre o tema. Exemplo disso é Artefact (2011) – com o qual venceu a edição de 2011 do prémio alemão da Nationalgalerie para arte jovem [6]. É a filmagem em iphone de espaços abandonados no Iraque, transferido para o filme 35 mm. A sucessão frenética de imagens de situações sobretudo desertificadas, disparadas a partir de filme serve o mesmo ambiente monumentalizado e performativo que transporta a realidade para um plano no qual a celebração da ruÃna é uma questão de surrealizar sobre o mundo atual. Aquela na qual finalmente se inscreve a dúvida se pretenderiam ser dinossauros as máquinas retroescavadoras que performavam na inauguração de What It Does to Your City. NOTAS [1] Vladimir Nabokov citado por Cyprien Gaillard, entrevista: www.tinyurl.com/9rktd4f [2] www.youtube.com/watch?v=qqTGtLZeoCY [3] www.tinyurl.com/9d43dpz [4] Foster, Hal, “Cyprien Gaillard: The Recovery of Discoveryâ€. In: Artforum, Dezembro de 2011 [5] Cyprien Gaillard: The Recovery of Discovery, Kunst-Werke Berlin, 2011 [6] Preis der Nationalgalerie für Junge Kunst 2011, Nationalgalerie im Hamburger Bahnhof, Museum für Gegenwart, Berlim, set. 2011/jan. 2012.
|


















