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MAURIZIO CATTELANCollection Sandretto Re RebaudengoWHITECHAPEL GALLERY 80 - 82 Whitechapel High Street London, E1 7QX 25 SET - 02 DEZ 2012 Que sera, sera Que sera, sera assim começa o texto de Francesco Bonami, diretor artÃstico da Fundação Sandretto Re Rebaudengo (FSRR), publicado no catálogo da primeira exposição que marca o inÃcio de uma interessante parceria entre esta fundação italiana e aquela que é bem conhecida como um dos pontos nevrálgicos do contexto internacional artÃstico contemporâneo, a Galeria Whitechapel em Londres. Reutilizando o mote desta nostálgica canção de Doris Day, Francesco Bonami fala-nos sobre os valores da FSRR. Sobre os objetivos que têm guiado a construção desta que é já umas das mais importantes coleções de arte contemporânea da Europa. No ano de 1990, Patrizia Sandreto Re Rebaudengo iniciou este percurso, a que chama de uma longa jornada através dos caminhos aventurosos da arte contemporânea. Ao som da canção What will I be?/Will I be pretty?/Will I be rich? ou ao som das perguntas: Will it be successful? Will it be famous? foi reunindo ao longo dos últimos 20 anos nomes importantes do panorama artÃstico. A coleção representa nomes como Matthew Barney, Jake & Dinos Chapman, Andreas Gursky, Damien Hirst, Anish Kapoor, Cindy Sherman, e entre outros Maurizio Cattelan. Maurizio Cattelan (Pádua, 1960) marca o inÃcio deste projeto entre a FSRR e a Whitechapel Gallery. O projeto surge debaixo do apropriado tema, THINK TWICE, que irá ser apresentado em quatro momentos distintos. A escolha do tema relaciona-se mais uma vez com as palavras daquela pequena menina, cantadas por Doris Day. Como diz Francesco Bonami “(…) ‘think twice’ is a good answer to the impatient little girl’s questions, and is an appropriate title to a group of works that will give its viewers pause for tought (…)†[1] O projeto que une estas duas instituições apresenta um Maurizio Cattelan que não era visto no Reino Unido há mais de 20 anos. Ao abrimos as portas da Galeria 7 entramos na condensação de um Maurizio Cattelan revisitado. Numa sala apenas, estão reunidas sete obras de Maurizio Cattelan, datadas entre os anos de 1991 a 2000. Somos guiados por um certa curiosidade desconcertante, que nos faz correr as salas e os corredores, na expetativa de finalmente encontrar Maurizio Cattelan. Tudo se reúne ali, numa sala. Olhamos ao redor da sala e confirmamos, sim está cá tudo, tudo o que têm para mostrar. Afinal este Maurizio Cattelan que nos aparece, é-nos dado a ver pelo fio criterioso da colecionadora Patrizia Sandretto Re Rebaudengo. Cada obra marca e conta a história da relação entre a colecionadora e o artista. Ao mesmo tempo, testemunha o percurso ascendente de Cattelan. Na ascendência deste tom provocativo, subversivo e irónico em que Cattelan tem construÃdo a sua identidade artÃstica. A primeira peça adquirida pela coleção está disposta num dos cantos da sala. Catttelan (1994) surge em letras de néon branco, ao nÃvel do olhar do espectador. Assistimos ao ato em que o nome do artista torna-se ele próprio um signo, uma imagem. A assinatura do artista escrita à mão, obriga-nos a um segundo olhar. Desatentos, identificamos facilmente a forma visual tão caracterÃstica das esculturas do movimento Arte Povera, nomeadamente do artista italiano Mário Merz, e das suas obras com o uso recorrente do neón. De um néon repleto de espiritualidade. É também com esta carga simbólica que Cattelan, desenha o seu nome, introduzindo um terceiro ‘T’, que nos deixa equivocados no segundo olhar, sendo que no primeiro tivemos absoluta certeza da ausência deste. Num jogo centralizado no poder dos sÃmbolos, objetivamente envia-nos para diversas direções. Enquanto os três ‘T’ s evocam para o sÃmbolo católico alusivo à crucificação de Cristo, no lugar chamado Golgotá (lugar elevado fora da cidade de Jerusalém, onde eram pregados os malfeitores condenados à morte), no meio de dois malfeitores, evocam também para existência de conflitos de identidade, existentes em todos nós, mas principalmente aqueles que envolvem o posicionamento do artista. Esta obra é um excelente exemplo dos habituais discursos incomodativos de Cattelan sobre as linguagens intrÃnsecas do mundo artÃstico, poder e autoridade, e a Igreja Católica. Através destes interesses podemos, inclusive, contextualizar o artista e o sistema social e polÃtico, onde cresceu e viveu: a Itália. Olhar para além do óbvio, esta é a lição que relembramos com esta primeira peça, que serve de preparação para acolher o que se segue. O olhar conduz-nos para a escultura que está apenas uns centÃmetros ao lado. Se o nome de Cattelan transformado em sÃmbolo, nos transporta para o universo pessoal do artista e das suas complexidades, a figura de um Cattelan miniatura pendurado pelo casaco num bengaleiro metálico, embrulha-nos e revolve-nos dentro de questões particulares sobre o que é ser-se artista, espectador, ou ainda do que é ser Maurizio Cattelan. La Rivoluzione Siamo Noi (2000) dialoga em várias frentes. Revela-nos as preocupações e o posicionamento do artista face ao contexto histórico artÃstico, à construção da sua identidade no panorama contemporâneo e à própria definição de arte. O tema da obra contrasta com a posição indigna em que Cattelan se representa. Ouvimos o sussurro “eu não sou realmente um artistaâ€, ouvimos o artista alemão Joseph Beuys (1921-1986) a ressurgir dentro do seu fato de feltro e a gritar “La revoluzione siamo noiâ€. Aliás este foi o tema de uma imagem de Beuys, apresentada no contexto da performance Isolation Unit (1970). A ironia e o contraste que impregnam esta escultura agitam-nos, incitam-nos à ação, ao resgate. Afinal, será que “todo o homem pode ser artistaâ€? (Beuys) A visita pela sala culmina com Bidibidobidiboo (1996) as palavras mágicas que transformam o real em irrealidade e vice-versa. É exatamente isso que esta peça chave no percurso de Cattelan faz, brinca com a realidade, convoca questões, torna-se trampolim de discussão, abre o domÃnio público e desvenda o domÃnio privado. Será que nos fala do artista, do espectador ou simplesmente da personagem? Num palco diminuto acabado de ser transformado no segundo que antecede o nosso olhar, no segundo em que ouvimos Plim, logo depois das palavras mágicas Bidibidobidiboo, pronunciadas por uma qualquer Fada Madrinha que habita as nossas memórias infantis. Neste cenário encolhido habita um esquilo (submetido a processos taxidérmicos), sentado numa cadeira de cozinha com a cabeça pendida sobre a mesa de formica amarela. Copo vazio, outra cadeira desocupada, revólver caÃdo aos pés do esquilo, pia cheia de louça suja. Segundo a colecionadora esta obra é bastante representativa de Maurizio Cattelan. Com mestria consegue estarrecer o espectador perante as suas diminutas e frágeis realidades, convocando no espectador o sentimento de resgate e de resolução. A noção de Todo e do Eu convergem deixando-nos a inquietude e a incerteza de quem é a verdadeira personagem neste palco: nós ou Maurizio? Esta incerteza é ainda mais dimensionada quando recebemos a informação de que o cenário é na realidade uma réplica, adaptada a outra escala, da cozinha familiar onde Maurizio Cattelan cresceu. Com isto, tendemos a refazer o percurso pelo cenário, e eis que novamente ouvimos ressoar aos nossos ouvidos, as palavras daquela pequena menina: What will I be? Notas [1] Introdução do diretor artÃstico da Fundação Sandretto Re Rebaudengo, no catálogo do projeto THINK TWICE: Twenty years of Contemporary Art from collection Sandretto Re Rebaudengo, publicado pela Whitechapel Gallery e Fundação Sandretto Re Rebaudengo, 2012, p.16.
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