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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição DESERTMED, NGBK, 2012. Fotografia: Coletivo Desertmed


Vista da exposição DESERTMED, NGBK, 2012. Fotografia: Coletivo Desertmed


Ilha Gyaros, Grécia, 2010


Deborah Ligorio, Flussi, 2007. Vídeo, 10’. Cortesia: Deborah Ligorio e Francesca Minini


Fabian Bechtle, The World of Private Islands, 2012. Instalação vídeo, 6’ 40’’ loop/ 10' loop. Cortesia: Fabian Bechtle


Ilha Levitha, Grécia, 2008. Digital print


Sede da Guarda Costeira Italiana, Roma, 2008


Stefanos Tsivopoulos, Land, 2006. Vídeo, 6’ 30’’


Ilha de Macronissos, Grécia, 2008. Digital print


Vista da exposição DESERTMEDâ€, NGBK, 2012. Fotografia: Coletivo Desertmed


Bik van der Pol, Facts on the Ground, 2010. HD Vídeo, 18’

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Imagem do site www.desertmed.org

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ARQUIVO:


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DESERTMED: A project about the deserted islands of the Mediterranean




NGBK - NEUE GESELLSCHAFT FÜR BILDENDE KUNST
Oranienstraße 25
D-10999 Berlin

27 OUT - 02 DEZ 2012

Ilhas desertas do Mediterrâneo: Atlas de Imagens

Que problemáticas estão na agenda dum Atlas de Imagens sobre ilhas desertas em formato de exposição?

Boring completeness é a formula para a compilação, em dezenas de livros indistintos, pensados como um catálogo, de milhares de imagens de trinta e nove ilhas desertas pertencentes aos territórios italiano, grego, croata, albano, turco, tunisino e argelino visitadas pelo coletivo italiano DESERTMED [1], na peça The Desert Islands of The Mediterranean (2012); na instalação: dispostos ao longo duma mesa-mapa no centro da qual se alinham pontos correspondentes a trezentas ilhas desertas, identificadas pelo nome e reproduzindo a sua longitude relativa; uma enumeração incansável de nomes de ilhas, quer nesta peça, quer no conjunto da exposição: Alboram (ES), Chafarinas (ES), Rechgoun (DZ), Alimia (GR), Yilandik (TR), Ramkine (LB). Igual, a sua repetição: a irrelevância de sete suportes de monitor tornada consequência para o impacto neutro da arquitetura de exposição, que permite um contacto sem ruído, de forma genérica com a ideia de ilha deserta na exposição, mas também com as imagens de Desert Typologies (2012), a cobertura vídeo em sete canais duma “macro-ilhaâ€: uma recolha videográfica, em vários locais, com edição indiferente à sua origem geográfica. Ficção na montagem, problemáticas reais no agrupamento dos temas de cada um dos vídeos: ilha militar, ilha-prisional, ilha natural, parque natural ou ilha ecológica, ilha privada, ilha industrial. No conjunto das duas peças, o cumprimento das duas condições fundamentais de hierarquia e descrição métrica na representação em plano na qual se baseia o mapeamento [2] e que enforma a exposição.

Sempre nesta mesma intenção “acumulativa†dos géneros “registo†e “catalogação†das peças anteriores, da autoria do coletivo DESERTMED, mas permeabilizando contudo o seu âmbito documental, o projeto progride com uma consequência quase musical ao esticar o propósito de obter um resultado “akin to cartographiesâ€, conforme manifestamente intencionado para elas, também na aproximação à carga imaginária e onírica que envolve a topografia da ilha deserta, enraizada na humanidade em formato novelístico e, acima dele, mitológico e lendário.
Isso é conseguido sobretudo por quatro peças “blending fact and ficcion, documentary and imaginary†[3], agregadas no centro da exposição, e que enfatizam o universo fantástico associado à ilha deserta. Essa ênfase alarga-se para além deles mesmos chegando às contribuições mais documentais da exposição, que passam a estar impregnadas da estranheza da realidade geopolítica, jurídica, política económica do planeta globalizado; essa influência não ameaça o facto de ser este um projeto interdisciplinar − a exposição enquadra-se numa pesquisa onde participam geólogos, historiadores, arquitetos, músicos, artistas e teóricos da cultura – mas permite a confirmação, no seu resultado, que refletir interdisciplinarmente, em arte, exige uma checklist teórica, grupo de trabalho e instituição, com contribuições que aprofundem cada uma das vertentes que concorrem para a reflexão sobre o tema, sem contudo que a experiência da exposição pudesse igualmente ter lugar, da mesma forma, entre parlamentares e observadores não governamentais sem intencionalidade artística.

Sea currents. Migration fluxes. Biological cycle. The course of history. Information flows. Navigation flows. Cultural waves. Energy flows. Social Currents. Air Currents. Flows of thought. Like a mirage; maybe an illusory phenomenon. Seems near and yet unreachable [4], ouve-se nos dez minutos de enquadramento da ilha Lampione, a partir dum barco balançante rente à água, entre a Sicília e a Tunísia – que, juntamente com Lampedusa é um dos locais onde frequentemente refugiados da Ãfrica fazem escalas incertas. Na conferência “O Insular, sobre as estratégias de produção hipermoderna de espaçoâ€, integrada neste projeto, Elke Krasny lembra que um dos fatores de maior vantagem e desvantagem no pensamento sobre a ilha deserta reside na sua componente eminentemente física: a dificuldade logística da sua experiência. Se a questão do acesso é pertinente em alguns dos termos nos quais Deborah Ligorio o coloca para a exposição – a ausência permanente a que esse lugar está remetido, sempre sozinho consigo, também a fatalidade de ser simultaneamente afetada pelo capitalismo económico e geopolítica, enquanto resto a coloca, à sua revelia, na qualidade de espelho para a aparência do mundo: “It is difficult to imagine that any information might be able to reach this place and yet my mobile phone works. I am also reachable here†[5]. A colecção das variantes dessa fatalidade prossegue em The World of Private Islands (2012) de Fabian Brechte: uma excursão pelo comercio multimilionário de ilhas privadas.

Referindo-se à utilidade e natureza intrínseca do registo acumulativo e serial no trabalho de campo, neste caso do notebook, Michael Taussig, evoca a forma como o detective privado Clem Snide procura resolver um homicídio recostando-se numa cadeira e ouvindo, em loop, sons gravados por si mesmo na casa vazia da vítima: persianas a serem abertas, o som do duche e da descarga da sanita, louça a bater na banca, ondas da praia próxima, vento ao caminhar, música ao som da qual a vítima dançava; “Later he randomly chooses different sections of the recordings while watching Greek TV so that he listens only subconsciouslyâ€. Taussig antecipa que “the items in a collection gravitate into one’s hands by chance, a collection can be used as an instrument of divination, seeing that chance is the flip side of fate.†[6]

As questões que esta exposição coloca formam-se elevando-se exatamente a partir dos intervalos da passagem acelerada destes milhares de imagens, acima das quais ficam suspensas no seu timing sempre atrasado. A primeira chance, conforme Taussig formula, onde os sintomas do mundo são encontrados é no atributo deserto da ilha ela mesma, que também é parte dos motivos pelos quais ela pode constituir uma topographical amnesia “overlooked by navigation courses, half-forgotten by geopolitics, lacking in interest of history, considered voids in the middle of the sea that require no coverage, no report†[7]. Válido, no entanto, apenas na oposição ao resto do mundo que a define pela exceção. Porquanto, metaforizando a partir das duas origens que os geógrafos encontram para a sua formação topográfica e geográfica, conforme reclamadas por Gilles Deleuze no texto “Desert Islandsâ€, publicado em 2004 pela Semiotext(e) e que inspirou este projeto, os dois tipos de ilhas – originárias e continentais – “dão testemunho de uma oposição profunda entre o oceano e a terraâ€. Essa oposição participa também das principais oposições e dualismos articulados no núcleo do resto do mundo ele mesmo, conforme testemunhado na literatura ficcional sobre a ilha deserta: os patamares nos quais a sobrevivência humana pode ser pensada. Alargando-se a partir da complexificação da diferença entre perdição e salvação. O resto do mundo é necessariamente o mundo conforme ele sobreviveu aos tempos. A bizarria dum dealer de ilhas privadas a publicitar “a sunset costume designed for youâ€, para o que “basta ir à internet†ao passo que “há quinhentos anos era necessário conquistá-las de barco†no trabalho The World of Private Islands (2012), de Fabian Brechtel. A desigualdade do capitalismo global a prosseguir na Ilha Militar. O mundo panóptico milimetricamente vigiado. Guardas costeiros a patrulharem o azul da água e do céu no qual quase nada pode ser avistado – exceto no monitor dum radar, o ponto sofisticado no qual ser tornam eventuais emigrantes e refugiados africanos quando intercetados. Com isto, as contradições que aterram sobre o conceito de fronteira num mundo económica, financeira, culturalmente pós-nação. A ambiguidade heterotópica do espaço posterior ao Spacial Turn, acidentalmente teatralizada em Land (2006, vídeo) de Stefanos Tsivopoulos, no qual três indivíduos se acham na situação absurda de não encontrarem resposta para as perguntas que colocam sobre o local no qual se encontram, como se fosse, ele mesmo, animado, a dificultar esse conhecimento. Um último sintoma, que não esgota todos os da exposição, é o fim da biodiversidade em autogestão, na tipologia Natural Park Islands, do trabalho The Desert Islands of The Mediterranean.

Ainda no plano de oposição ao resto do mundo, a ilha deserta pode ser uma estufa para sob observação criar um elemento da ordem ou desordem do mundo. Para aprofundar um dos seus aspetos quando se pretende verificar as suas potencialidades sem contágios ou mesmo escapando ao controle das suas leis. Também o modelo de ilha elucida sobre como pode ser trabalhada a exceção: no transporte do seu modelo para uma geografia continua, isolando artificialmente algumas das suas variantes para que passem a funcionar numa nova grelha de valores. Como se verifica em todo o tipo de exceção na qual a ordem política, económica, moral ou social dos territórios adjacentes é interrompida, suspensa, ou abolida. Disso são exemplo cidades estado que garantem uma cidadania exclusiva, paraísos fiscais, enclaves religiosos como igrejas, mosteiros; estruturas temporárias como enclaves militares, humanitários; ou zonas sem lei, como favelas ou corredores de tráfico de droga.

É sobretudo nessa somatização e articulação da ilha deserta na oposição com o exterior que a reflexão sobre uma infraestrutura física de geografia fechada faz sentido. Num tempo de primazia de processos caracterizados pelo movimento e virtualidade. Cada vez menos local e fixo. No capital humano e também na tendência desterritorializada do exercício do poder.



NOTAS

[1] DESERTMED é um colectivo interdisciplinar italiano (artistas, teóricos, arquitetos, geógrafos, fotógrafos) fundado em 2005 com o objectivo de investigar e catalogar ilhas desertas no mar mediterrâneo; do seu núcleo fazem parte Giulia Di Lenarda, Giuseppe Ielasi, Armin Linke, Amedeo Martegani, Renato Renaldi e Giovanna Silva.

[2] David Summers (2003), Real Spaces: World Art History and the Rise of Western Modernism. Londres, Nova Iorque: Phaidon Press.

[3] Marina Sorbello e Antje Weitzel no catálogo da exposição.

[4] Texto em voz off da peça Flussi (2007) de Deborah Ligorio.

[5] Idem

[6] Michael Taussig (2011), Fieldwork Notebooks. Kassel: Documenta e Hatje Cantz.

[7] Giulia Di Lenarda in Marina Sorbello e Antje Weitzel (2012), DESERTMED. Berlim: NGBK.


Paula Januário