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EDUARDO SOUTO MOURAEsquissos de Uma VidaGALERIA JOÃO ESTEVES DE OLIVEIRA Rua Ivens, 38 1200-224 Lisboa 22 NOV - 18 JAN 2013 Nos últimos anos tem-se assistido a um retorno à pintura, ao desenho, à representação do corpo e à paisagem. “A arte das vanguardas do século XX passa setenta anos, cem anos, ou mais, a opor-se, a desconstruir a paisagem, a desconstruir a relação com uma unidade do espaço e do tempo, a desconstruir a representação do corpo, a relação mimética, a desconstruir a relação da arte com a instituição (...)†[1]. No século XXI a arte reconcilia-se com o corpo e o espaço, e por último com a instituição. A galeria João Esteves Oliveira tomou uma opção de risco e só expõe papel. Uma opção ainda mais corajosa é a de mostrar desenhos de trabalho de arquitetos: “o esboço é, em princÃpio, um ‘estado’ da obra anterior ao acabamento, e sobretudo à execução dos pormenores†[2]. Não só a galeria ousa mostrar desenhos em papel, como ainda expõe obras que, supostamente, se limitam a representar ainda em ideia as verdadeiras obras que são os edifÃcios acabados. Mas não é a primeira vez que o faz e é no seguimento da exposição dos desenhos de Siza Vieira (de quem Souto Moura foi colaborador em inÃcio de carreira) que revela agora os deste arquiteto. Assim, os trabalhos que podemos ver em Esquissos de Uma Vida não foram feitos com o intuito de serem obra de arte per se, mas sim como auxiliares na criação de objetos arquitetónicos, esses sim considerados obras de arte. No entanto, sempre se considerou como parte da obra de arte os desenhos que a ela deram origem, como no caso da pintura renascentista. Porque não fazer o mesmo com a arquitetura? Já em 2009 o Museu Berardo nos tinha dado a honra de ver os desenhos (não só os estudos preparativos mas também os esquissos dos desenhos técnicos) feitos por Pancho Guedes para os seus edifÃcios, entre outras obras suas. Tendo em conta que hoje em dia, com as ferramentas digitais, quase se pode projetar uma cidade sem fazer um único desenho à mão levantada, podemos observar as perspetivas de um arquiteto e assistir a todo o seu processo criativo. O que é uma experiência extraordinária. Neste caso, estamos perante os pequenos esboços que Souto Moura teve a coragem de rasgar dos seus cadernos de estudo para que pudessem ser expostos. Podemos observar aqui algumas das suas obras emblemáticas, mas também projetos futuros como o “City Life†que será erigido em Milão perto de uma obra desse nome incontornável da arquitetura contemporânea que é Zaha Hadid (tal como Souto Moura, também ela premiada com um Pritzker), ou que não se chegaram a construir. É curioso verificarmos que estes desenhos, ao contrário da sua arquitetura limpa e clara, são bastante riscados e ruidosos. Muito disso se deve à sua preocupação com a envolvente onde se inserem as suas obras. São as árvores, a vegetação circundante, que ele risca com vigor e determinação. O desenho desta envolvente permite-nos ter alguma noção de escala (não vislumbramos figura humana), que de outra forma perderÃamos nestas pequenas folhas A5. São também texturas que adivinhamos. Para alguns, pode ser difÃcil apreciar um esboço de arquitetura, mas há um certo maravilhamento em descortinar num emaranhado de linhas e “rabiscos†um edifÃcio que é exatamente igual ao que foi construÃdo posteriormente. Nem todos os esboços têm a mesma expressão. Alguns são mais limpos e estruturados, como por exemplo os de A Casa do Cinema “Manoel de Oliveira†(1998) ou os do “Mercado Municipal de Braga†(2011); outros são um emaranhado de linhas e movimentos rápidos da mão, como por exemplo os da “Reconversão do Mercado de Braga†ou os do “Burgo – Porto†(2004). Esta exposição permite-nos voltar a olhar para o trabalho da mão, para as indecisões, para os enganos reais ou imaginários que essa mão proporciona. Traz o trabalho do arquiteto para mais próximo do de um pintor ou escultor. Há um sentir da obra mais humano, mais emocional; sente-se o devir criativo. NOTAS [1] Gil, José e Godinho, Ana (2011), O Humor e a Lógica dos Objetos de Duchamp. Lisboa: Relógio D’Ãgua, p.132. [2] Malraux, André ([1947] 2011), O Museu Imaginário. Lisboa: Edições 70, p. 58.
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