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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Gerard Byrne, 1984 and beyond, 2005-07. Instalação constituída por três filmes e 20 fotografias. Encomendado em 2005 por: If I can’t dance, I don’t want to be part of your revolution.


Gerard Byrne, 1984 and beyond, 2005-07. Instalação constituída por três filmes e 20 fotografias. Encomendado em 2005 por: If I can’t dance, I don’t want to be part of your revolution.


Gerard Byrne, A thing is a hole in a thing it is not, 2010. Instalação de 5 vídeos. Duração: 2 a 30 minutos.


Gerard Byrne, A thing is a hole in a thing it is not, 2010. Instalação de 5 vídeos. Duração: 2 a 30 minutos.


Gerard Byrne, Homme à femmes (Michel Debrane), 2004.


Gerard Byrne, Case Study: Loch Ness (some possibilities and problems), 2001- contínuo.

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ARQUIVO:


GERARD BYRNE

Imagens ou Sombras




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

21 SET - 06 JAN 2013


Três ecrãs. Vinte fotografias. Uma citação gravada em vinil num painel negro. É de forma duplamente tripartida que somos recebidos na mostra do irlandês Gerard Byrne (n. 1969), que o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian apresenta na galeria de exposições temporárias e na sala polivalente até ao próximo dia 6 de janeiro. Imagens ou sombras – um périplo que teve início no Irish Museum of Modern Art, em Dublin, e que terá como sucedâneo e terminal destino a Whitechapel Gallery, em Londres – sumariza a transversalidade temática e disciplinar que distingue o trabalho de Byrne, para quem o texto dialoga com a fotografia, a fotografia com o vídeo, o vídeo com o teatro, o teatro com a performance e a performance com a televisão.

Os três ecrãs e as 20 fotografias que ocupam parte do hall do CAM compõem 1984 and beyond (2005-07), uma combinação de jogos visuais que questiona as nossas categorias de futuro, passado e perceção histórica. Na instalação vídeo de três LCDs, deparamo-nos com a reposição desfasada e em loop da mesma peça: numa sequência de 12 capítulos filmada nos cenários minimalistas do Provinciehuis e do Kröller-Müller Museum, na Holanda, um grupo de escritores de ficção científica discute o progresso geral da humanidade, a evolução das práticas sociais e os limites da ciência. Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury ou Robert Heinlein são apenas alguns dos intelectuais cujos pareceres ouvimos ressoar nos dois espaços de traços retilíneos, polidos e futuristas pelos quais vão circulando.

Neste primeiro momento, cruzamo-nos desde logo com o exercício mais recorrente de Byrne – pegar na matéria prima do texto para a reconstruir em vídeo. Baseada num painel de entrevistas que a Playboy publicou em 1963, a instalação 1984 and beyond não é uma mera mise-en-scène de citações, mas sobretudo uma reinterpretação do discurso visionário que lhe serve de fundamento. A pose teatralizada dos atores (a evocar o imaginário da série britânica) revela que já não faz sentido pensar este beyond senão em espelho, em imagem, em exposição, e Byrne oferece-nos essa constatação numa experiência fragmentada, que confunde, distrai e obriga a negociar “o que verâ€, “quando verâ€.

As duas dezenas de fotografias a preto e branco que em conjunto com os referidos filmes integram 1984 and beyond devolvem-nos igual inquietação. Entre a legenda que lemos e a imagem que vemos há novo desfasamento. Letreiros luminosos, paisagens urbanas, o 345 Park Avenue como pano de fundo dos contrastes sociais são quadros que nos remetem automaticamente para o universo iconográfico norte-americano dos anos 60, tão próximo, por exemplo do de Walker Evans. Outro momento de dissimulação visual, histórica e temporal que exemplifica aquele que parece ser um dos primordiais núcleos da prática estética e ontológica de Byrne: “to peel out and perform ‘time inside time’†[1].

Em A thing is a hole in a thing it is not (2010) e Homme à femmes (Michel Debrane) (2004), o discurso é novamente fonte de inspiração. O primeiro trabalho recupera no título uma citação do criador minimalista Carl Andre e parte de um debate entre Bruce Glaser, Frank Stella, Donald Judd e Dan Flavin organizado por uma estação de rádio em 1964. “New nihilism or new art?â€, em torno do minimalismo, é a questão que norteia a conversa recriada com o áudio original e explorada por Byrne nos cinco painéis de vídeo da instalação; em todos eles, esmiúça a emergência da arte minimal e a tipologia das relações que o espetador estabelece com ela. Um vídeo rodado no Van Abbemuseum, em Eindhoven – palco onde visitantes, seguranças e empregadas de limpeza se confrontam com as mais complexas peças –, partilha o enegrecido espaço com uma projeção da perfomance Column, de Robert Morris, um filme baseado na viagem de Tony Smith pela New Jersey Turnpike e a já mencionada reencenação do programa de rádio. Byrne volta a testar os limites do texto e da temporalidade, ao confrontar, desta vez, o minimalismo com as suas próprias mitologias. Todavia é também com as nossas fronteiras percetivas que joga, visto que entramos na instalação para ser completamente envolvidos por ela. Desassossegados pela intermitência das imagens e das narrativas, desdobramo-nos na tentativa de captar a unidade das partes e dos fossos deste todo.

Não obstante, é quando chegamos a Homme à femmes (Michel Debrane) que nos vemos perante o mais desconcertante dos artifícios imagéticos aqui erguidos por Byrne. Em vídeo, dramatiza-se uma entrevista de Catherine Chaine a Jean-Paul Sartre originalmente publicada em 1977 no Le Nouvel Observateur. Vemos apenas o filósofo francês, mas a sua figura em nada se assemelha àquela que lhe conhecemos. Comenta a sua relação com as mulheres (em especial com Simone de Beauvoir) e partilha confidências, como se Byrne nos apresentasse um documentário sobre os primigénios fascínios de Sartre.

É, com efeito, no universo dos fascínios, dos mitos e das imagens que se sustenta o projeto mais amplo desta mostra, Case study: Loch Ness (some possibilities and problems). Em curso desde 2001, debruça-se sobre o imaginário do lendário monstro do Loch Ness, Nessie, e patenteia numa série de suportes – filme, fotografia, gravação áudio, instalação – o mapa simbólico desta narrativa popular. Num desenho a lápis na parede, com texto em vinil (A serpent with a horses head), expressões lapidares resumem as ficções de uma comunidade: “a head and long neck of swan-like appearanceâ€, “not a man-made object, but a real living creatureâ€,… Em paralelo, um tronco de uma árvore comunica com o desenho na parede exposto, impondo a sua presença no espaço que por tradição nos pertence. Byrne interrompe recursivamente o nosso trajeto, não nos permitindo, uma vez que seja, a neutralidade.

Se o seu jogo é muito o da verosimilhança, é com ela que, em certa medida, nos ludibria e interroga em todo este circuito. É precisamente por isso que não nos é possível ser passivos, olhar sem demorar, deixar de questionar o que Byrne (re)produz: “imagens ou sombras� Connecting shapes (Three part analogy) e Three connected sites são duas sequências de fotografias analógicas integradas em Case study: Loch Ness (some possibilities and problems) que desvendam um pouco mais da capacidade lúdica de Byrne. Estas imagens, em gelatina e sais de prata, remetem-nos por semelhança para outras, como entidades substitutas de uma coisa ausente, de uma presença distante – a corda ou o ramo de árvore contorcidos reenviam-nos para essoutra contorcida e maleável forma do pescoço de Nessie.

Tanto à entrada como à saída, a citação gravada em vinil num painel negro. São palavras de Perry Miller referentes às considerações metafísicas de Jonathan Edwards (compiladas no seu canónico livro de aforismos Images or shadows of divine things) e que parecem traduzir esse processo de recriação narrativa e imagética do mundo tão sobriamente levado a cabo por Byrne: “’it is certain with me that the world exists anew every moment; that the existence of things every moment ceases and is every moment renewed’â€.



NOTAS

[1] Bettina Funcke, “You see? Gerard Byrne’s reconstructionsâ€, in: Images or shadows. Dublin: Irish Museum of Modern Art, 2011, p. 126


Maria João Guerreiro