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GERARD BYRNEImagens ou SombrasCAM - CENTRO DE ARTE MODERNA Rua Dr. Nicolau de Bettencourt 1050-078 Lisboa 21 SET - 06 JAN 2013 Três ecrãs. Vinte fotografias. Uma citação gravada em vinil num painel negro. É de forma duplamente tripartida que somos recebidos na mostra do irlandês Gerard Byrne (n. 1969), que o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian apresenta na galeria de exposições temporárias e na sala polivalente até ao próximo dia 6 de janeiro. Imagens ou sombras – um périplo que teve inÃcio no Irish Museum of Modern Art, em Dublin, e que terá como sucedâneo e terminal destino a Whitechapel Gallery, em Londres – sumariza a transversalidade temática e disciplinar que distingue o trabalho de Byrne, para quem o texto dialoga com a fotografia, a fotografia com o vÃdeo, o vÃdeo com o teatro, o teatro com a performance e a performance com a televisão. Os três ecrãs e as 20 fotografias que ocupam parte do hall do CAM compõem 1984 and beyond (2005-07), uma combinação de jogos visuais que questiona as nossas categorias de futuro, passado e perceção histórica. Na instalação vÃdeo de três LCDs, deparamo-nos com a reposição desfasada e em loop da mesma peça: numa sequência de 12 capÃtulos filmada nos cenários minimalistas do Provinciehuis e do Kröller-Müller Museum, na Holanda, um grupo de escritores de ficção cientÃfica discute o progresso geral da humanidade, a evolução das práticas sociais e os limites da ciência. Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury ou Robert Heinlein são apenas alguns dos intelectuais cujos pareceres ouvimos ressoar nos dois espaços de traços retilÃneos, polidos e futuristas pelos quais vão circulando. Neste primeiro momento, cruzamo-nos desde logo com o exercÃcio mais recorrente de Byrne – pegar na matéria prima do texto para a reconstruir em vÃdeo. Baseada num painel de entrevistas que a Playboy publicou em 1963, a instalação 1984 and beyond não é uma mera mise-en-scène de citações, mas sobretudo uma reinterpretação do discurso visionário que lhe serve de fundamento. A pose teatralizada dos atores (a evocar o imaginário da série britânica) revela que já não faz sentido pensar este beyond senão em espelho, em imagem, em exposição, e Byrne oferece-nos essa constatação numa experiência fragmentada, que confunde, distrai e obriga a negociar “o que verâ€, “quando verâ€. As duas dezenas de fotografias a preto e branco que em conjunto com os referidos filmes integram 1984 and beyond devolvem-nos igual inquietação. Entre a legenda que lemos e a imagem que vemos há novo desfasamento. Letreiros luminosos, paisagens urbanas, o 345 Park Avenue como pano de fundo dos contrastes sociais são quadros que nos remetem automaticamente para o universo iconográfico norte-americano dos anos 60, tão próximo, por exemplo do de Walker Evans. Outro momento de dissimulação visual, histórica e temporal que exemplifica aquele que parece ser um dos primordiais núcleos da prática estética e ontológica de Byrne: “to peel out and perform ‘time inside time’†[1]. Em A thing is a hole in a thing it is not (2010) e Homme à femmes (Michel Debrane) (2004), o discurso é novamente fonte de inspiração. O primeiro trabalho recupera no tÃtulo uma citação do criador minimalista Carl Andre e parte de um debate entre Bruce Glaser, Frank Stella, Donald Judd e Dan Flavin organizado por uma estação de rádio em 1964. “New nihilism or new art?â€, em torno do minimalismo, é a questão que norteia a conversa recriada com o áudio original e explorada por Byrne nos cinco painéis de vÃdeo da instalação; em todos eles, esmiúça a emergência da arte minimal e a tipologia das relações que o espetador estabelece com ela. Um vÃdeo rodado no Van Abbemuseum, em Eindhoven – palco onde visitantes, seguranças e empregadas de limpeza se confrontam com as mais complexas peças –, partilha o enegrecido espaço com uma projeção da perfomance Column, de Robert Morris, um filme baseado na viagem de Tony Smith pela New Jersey Turnpike e a já mencionada reencenação do programa de rádio. Byrne volta a testar os limites do texto e da temporalidade, ao confrontar, desta vez, o minimalismo com as suas próprias mitologias. Todavia é também com as nossas fronteiras percetivas que joga, visto que entramos na instalação para ser completamente envolvidos por ela. Desassossegados pela intermitência das imagens e das narrativas, desdobramo-nos na tentativa de captar a unidade das partes e dos fossos deste todo. Não obstante, é quando chegamos a Homme à femmes (Michel Debrane) que nos vemos perante o mais desconcertante dos artifÃcios imagéticos aqui erguidos por Byrne. Em vÃdeo, dramatiza-se uma entrevista de Catherine Chaine a Jean-Paul Sartre originalmente publicada em 1977 no Le Nouvel Observateur. Vemos apenas o filósofo francês, mas a sua figura em nada se assemelha à quela que lhe conhecemos. Comenta a sua relação com as mulheres (em especial com Simone de Beauvoir) e partilha confidências, como se Byrne nos apresentasse um documentário sobre os primigénios fascÃnios de Sartre. É, com efeito, no universo dos fascÃnios, dos mitos e das imagens que se sustenta o projeto mais amplo desta mostra, Case study: Loch Ness (some possibilities and problems). Em curso desde 2001, debruça-se sobre o imaginário do lendário monstro do Loch Ness, Nessie, e patenteia numa série de suportes – filme, fotografia, gravação áudio, instalação – o mapa simbólico desta narrativa popular. Num desenho a lápis na parede, com texto em vinil (A serpent with a horses head), expressões lapidares resumem as ficções de uma comunidade: “a head and long neck of swan-like appearanceâ€, “not a man-made object, but a real living creatureâ€,… Em paralelo, um tronco de uma árvore comunica com o desenho na parede exposto, impondo a sua presença no espaço que por tradição nos pertence. Byrne interrompe recursivamente o nosso trajeto, não nos permitindo, uma vez que seja, a neutralidade. Se o seu jogo é muito o da verosimilhança, é com ela que, em certa medida, nos ludibria e interroga em todo este circuito. É precisamente por isso que não nos é possÃvel ser passivos, olhar sem demorar, deixar de questionar o que Byrne (re)produz: “imagens ou sombrasâ€? Connecting shapes (Three part analogy) e Three connected sites são duas sequências de fotografias analógicas integradas em Case study: Loch Ness (some possibilities and problems) que desvendam um pouco mais da capacidade lúdica de Byrne. Estas imagens, em gelatina e sais de prata, remetem-nos por semelhança para outras, como entidades substitutas de uma coisa ausente, de uma presença distante – a corda ou o ramo de árvore contorcidos reenviam-nos para essoutra contorcida e maleável forma do pescoço de Nessie. Tanto à entrada como à saÃda, a citação gravada em vinil num painel negro. São palavras de Perry Miller referentes à s considerações metafÃsicas de Jonathan Edwards (compiladas no seu canónico livro de aforismos Images or shadows of divine things) e que parecem traduzir esse processo de recriação narrativa e imagética do mundo tão sobriamente levado a cabo por Byrne: “’it is certain with me that the world exists anew every moment; that the existence of things every moment ceases and is every moment renewed’â€. NOTAS [1] Bettina Funcke, “You see? Gerard Byrne’s reconstructionsâ€, in: Images or shadows. Dublin: Irish Museum of Modern Art, 2011, p. 126
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