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RODRIGO AMADOUn Certain MalaiseMUSEU DA ELECTRICIDADE Avenida de BrasÃlia, Central Tejo 1300-598 Lisboa 30 NOV - 10 FEV 2013 Na sala Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade, as vinte fotografias que se encontram expostas apresentam-nos um olhar de viajante solitário. São imagens de lugares perdidos, repletas de melancolia, e intactas à reconhecida visceralidade criativa que Rodrigo Amado amiúde celebra no seu jazz de expressão livre. Os lugares de Amado são essencialmente quatro: quatro cidades do norte da Europa – Berlim, Moscovo, Varsóvia e Copenhaga – configuram cenários de uma absoluta deterioração e abandono, em que a ausência de vida cede espaço a uma devastadora solidão. O fio narrativo destas fotografias, encontramo-lo pela mão do próprio artista, que ancora na obra de Herberto Helder, Os passos em volta, o substrato dos seus tableaux. Livro imbuÃdo de igual “certain malaiseâ€, desassossego, inquietação e generalizado mal-estar, dialoga com os corredores isolados, sofás desabitados e criaturas errantes que Rodrigo Amado imortaliza nesta série. Assim que nos deparamos com os anónimos que vagueiam pelas enregeladas paisagens do inverno nórdico, somos tocados por um sentimento de vulnerabilidade. De costas e semi-curvados, sem que jamais nos seja permitido ver os seus rostos, remetem-nos irremediavelmente para um desespero existencial, ao caminharem sem rumo pelos cenários naturais cobertos de neve (Untitled #12, Berlin, 2010) ou pelas ruas da cidade quais seres angelicais (Untitled #7, Berlin, 2010). Deambulantes como aquele que fotografa, estão destinados “à inteira perdiçãoâ€, “perdendo o nome pelo paÃs adianteâ€. Entre a resignação e a fatalidade tecida nestes quadros visuais ressoa um pedido de auxÃlio – roga-se “piedade para a solidão demonÃacaâ€. Em Untitled #2, Berlin, 2009, um homem, feito escrivão à maneira de Bartleby, permanece imóvel numa sala sombria e praticamente vazia, virado de costas, defronte a uma máquina de escrever. Inevitavelmente, antevemos um fim semelhante ao do herói de Melville, tal como Gonçalo M. Tavares pressagia algo misterioso para esta figura de Amado: “Vem aÃ, está a chegar, algo que tem um selo trágico. E pode ser para ti, quem sabeâ€. Aquilo que Rodrigo Amado nos dá a ver é fundamentalmente um território de abissal silêncio. Por um lado, as suas personagens carecem do dom e direito da nomeação; por outro, os espaços em volta são serenos desertos habitados por vestÃgios de uma passagem há muito esquecida. Quer na interioridade da casa, quer na exterioridade da paisagem natural, confrontamo-nos com a cristalização de um radical despojamento. Untitled #1, Berlin, 2009 parece fixar a primeira, evocando uma remota ideia de recolhimento: em grande plano, dois telefones ocupam a totalidade da imagem fotográfica, sobressaindo do fundo iluminado das janelas e desdobrando-se por reflexo na mesa onde se encontram geometricamente dispostos. Na estufa dos Jardins Reais de Copenhaga (Untitled #10, Copenhagen, 2010), Amado joga com essa bipolaridade do interior-exterior, fechamento-abertura. A claridade proveniente de uma claraboia alumia um espaço enferrujado, dominado pelos cinzas, os castanhos e os verdes secos. Os catos, os bonsais e os troncos abandonados coexistem com outros resquÃcios deixados por uma presença humana, como uma canalização envelhecida, uma mesa, um conjunto de caixas ou ainda um quadro (quase) imaculadamente branco que aà intenta resistir à ruÃna. Impregnadas de devastação, as imagens de Rodrigo Amado projetam uma carga tensional à qual é impossÃvel esquivar-nos. Trate-se de degradação material, natural ou subjetiva, todas as obras emanam uma melancolia da desistência, que se concentra mais na beleza da dilaceração das coisas do que no seu próprio caráter efémero. Ora nos automóveis perdidos de Moscovo, ora nos descampados dos arredores de Berlim, cruzamo-nos com o danificado e o abandonado. São de género variegado os lugares desaparecidos em que Amado aporta, aonde nada mais resta senão o gelo, a neve, a lama, as árvores despidas e outra série desses habituais objetos de refugo, como pneus, tábuas e mobiliário gasto. Das raras vezes em que vemos movimento, o nosso olhar é imediatamente redirecionado para aquilo que de inerte ou estático existe no cenário captado. Untitled #18, Moscow, 2008 e Untitled #6, Moscow, 2008 são disso exemplo, pois que atentamos sobretudo na tecnologia, na arquitetura, no espaço urbanÃstico, e não tanto nas formas humanas. Em ambas as fotografias, surgem-nos aliás como figuras escurecidas, por contraponto aos restantes elementos que se revelam com uma sorumbática brancura. Numa praça, um avião, um foguetão e alguns edifÃcios destacam-se em relação aos transeuntes, da mesma maneira que no subsolo é a concavidade de um túnel que está iluminada, por oposição aos passageiros fantasmáticos que circulam pelas suas escadas rolantes. Espécie de apocalipse dos desencontros e da vanidade de todas ações humanas, as fotografias escolhidas por Rodrigo Amado para celebrar os trinta anos do seu trabalho artÃstico levam-nos por esses lugares melancolicamente sós tomados pelo frio – os recantos das ruas, os subúrbios, os vãos de escada, ou tão somente a nossa própria solidão – onde a fragilidade de qualquer viajante se desvela. Sobre essa melancolia, o que sabemos é apenas aquilo que estas imagens suscitam, pois, “nós, os desta nação, mal podemos imaginar as alegrias e dores do homem estrangeiro, ao frio e à névoa, na grande solidão dessa rua circular que talvez não exista em Antuérpia nem noutra cidade qualquer do mundoâ€. NOTAS [1] Herberto Helder, “O polÃcia†in Os passos em volta. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 2001, 8.ª edição, p. 29. [2] Herberto Helder, “Holanda†in Os passos em volta. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 2001, 8.ª edição, p. 15. [3] Herberto Helder, “Holanda†in Os passos em volta. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 2001, 8.ª edição, p. 16. [4] Gonçalo M. Tavares in Rodrigo Amado, Un certain malaise, com texto de Gonçalo M. Tavares, Lisboa: Documenta, 2012, p. 10. [5] Herberto Helder, “Descobrimento†in Os passos em volta. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 2001, 8.ª edição, p. 89.
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