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PEDRO BARATEIROFeitiço / SpellGALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 17 JAN - 09 MAR 2013 O trabalho de Pedro Barateiro tem revelado, desde 2005 para cá, um entendimento muito particular do medium artístico e profundamente consequente com as suas implicações discursivas. A este respeito é preciso esclarecer que para Barateiro o problema do medium não é apenas uma questão de heterogeneidade de meios, ou seja, de uso de diferentes técnicas ou géneros, mas sobretudo uma questão de deslocação sígnica que ocorre no seio dessa diversidade. Como tal, o facto do medium atuar em muitos dos seus trabalhos como estrutura em deslocação, faz com que o sentido dos mesmos se ache através de contínuos deslizes e se construa de forma fragmentada, rejeitando assim qualquer intenção autossuficiente. Na sua exposição individual mais recente, Feitiço/Spell, apresentada na Galeria Filomena Soares, Pedro Barateiro volta a explorar esta ideia de performatividade linguística inerente ao próprio medium, para interrogar, com grande subtileza, um aspeto central do nosso quotidiano: a circulação dos objetos (incluindo os artísticos em particular) e as relações que os organizam. Refiro-me não só às relações que definem os objetos enquanto mercadorias, como também às relações que, suscitadas pelos objetos dentro de um quadro de trocas, se subtraiam à lógica da reificação capitalista. Não que Barateiro deposite uma crença no valor de uso, concreto, por oposição ao valor de troca, abstrato, ou, simplesmente, o inverso. Pelo contrário, as três peças que constituem a exposição, todas de 2013, evidenciam bem que o que está em causa é um trabalho sobre como ambos os valores se afetam reciprocamente na sua coexistência e como, a partir dessa negociação, os objetos artísticos podem gerar espaços para a afirmação do desejo. Ora estas preocupações assumem aqui diversas configurações. No caso da instalação Formas de Negociação (Forms of Trading), composta por estruturas em ferro e caixas de cartão, o artista encena uma linha de montagem fabril de encaixotamento de objetos. No topo de uma das estruturas, evidencia-se uma caixa de cartão com um símbolo serigrafado a preto que nos lembra de imediato o logótipo da empresa Amazon. A chamada de atenção para um contexto de produção assente cada vez mais em processos de mediação e de consumo acelerado, no qual os objetos artísticos e culturais se implicam a par do próprio conhecimento, é clara. Porém, a estranheza causada pelos três elementos negros e imprecisos, que se juntam às estruturas em ferro e cujas formas se assemelham a livros ou folhas de papel amarrotadas, vem perturbar a lógica encadeada do ritmo do lucro que não tolera os prazeres de um tempo outro, definido pelos desvios e pelas múltiplas ramificações do desconhecido. A série de pinturas, apresentada em redor desta instalação, parece então inscrever as suas formas sob essa possibilidade de tempo desencadeado que abraça todos os movimentos desejados. Por isso mesmo, as formas pictóricas que aqui vemos, realizadas a tinta da china sobre tela de linho, também não são fixas. Antes decorrem da apropriação de signos comerciais e expositivos e da sua transformação em novos signos. Em Landscape and Smile, por exemplo, o símbolo semelhante ao da Amazon surge agora multiplicado e desenhado em linhas finas, dando lugar a uma dança solta de sorrisos que se entrelaçam livremente sob um chão negro e um fundo cru, vazio. Por sua vez, os elementos de Smile and Plinth over Landscape ficcionam uma vista de exposição, onde se insinua um sorriso apresentado sobre um suporte ambíguo que oscila entre um plinto ou uma caixa de cartão, piscando assim o olho às complexidades da esfera da arte. No entanto, é na instalação Feitiço/Spell, que Barateiro consegue levar mais longe as tensões que informam os objetos artísticos e explorar aí a dimensão desejante que os anima, sem que a mesma surja barrada a novos usos ou que se confunda com necessidade. Este trabalho consiste assim numa narrativa de filme, texto e voz, construída em dois compassos distintos. Enquanto o registo visual se desdobra em imagens a preto e branco centradas sobretudo na documentação de dois objetos icónicos do modernismo brasileiro e da cultura popular santomense, isto é, a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi e os tchilolis interpretados pelo grupo teatral Tragédia Formiguinha da Boa Morte; o registo sonoro, trabalhado a duas vozes, feminina (Lula Pena) ou masculina (Allen Halloween), desenrola-se em pequenos fragmentos em torno da nossa perceção sobre as “coisas comuns e coisas extraordinárias” que nos rodeiam. Sem relação aparente entre si, ambos os registos vão-se tocando até se interpelarem mutuamente, no exato momento em que a voz começa a atuar como pensamento/consciência dos prazeres inquietantes que habitam os objetos e nos fitam e que vão sendo, ali também, diante de nós, experimentados pelas imagens que vemos. Entre as imagens do filme que perscrutam as possibilidades utópicas dos objetos através de um novo olhar, pausado, que volta atrás, mergulhado na profundidade dos detalhes, e a voz que apela à apropriação, sempre inacabada e incompleta, desse desejo, através das operações de uma imagem ou de uma palavra, se desenha um espaço de gozo, indefinido e potencial, de nome feitiço.
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