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COLETIVAA IlhaLIVRARIA Sà DA COSTA Rua Garrett n.º 100 (Chiado) 20 ABR - 18 MAI 2013 Miguel Bonneville é o mentor da exposição que podemos ver na Livraria Sá da Costa e a sua intenção segundo a folha de sala foi chamar a atenção para o livro A Ilha de Aldous Huxley que considera de leitura essencial. Foi assim que contactou Cláudia Varejão, Sofia Arriscado, Edvinas Grin, Bárbara Assis Pacheco, Vicky Sabourin, Lara Torres & Diogo Melo, Joana Linda, José Miguel Vitorino, Frauke Frech, Sara Pazos e Sónia Baptista. Tal como na sua obra mais conhecida O Admirável Mundo Novo, em A Ilha Huxley retrata uma civilização ideal e feliz (embora não de forma futurista como na obra anterior). Conhecendo um pouco a biografia de Aldous Huxley é curioso, que todos os artistas expostos tenham optado por se debruçarem sobre o tema do livro, a felicidade, o mundo ideal e principalmente a natureza, sem que nenhum tenha abordado um contexto mais biográfico do autor que o terá levado a idealizar estes mundos: as suas experiências com drogas alucinogéneas e o seu interesse por religiões orientais e outros modos de vida mais espirituais. A Ilha é uma coletiva que reúne artistas nascidos nos anos 80 ou finais de 70. Este grupo de artistas de diferentes áreas, optou por utilizar suportes diversos, nalguns casos até distanciados do tipo de meios em que estamos habituados a vê-los trabalhar, uma caracterÃstica dos artistas desta geração, mais ecléticos e menos complexados no uso dos meios artÃsticos disponÃveis. Alguns surpreendem até pelo meio escolhido como Cláudia Varejão, Lara Torres ou até mesmo Joana Linda. Cláudia mais conhecida pela sua obra cinematográfica, optou por apresentar um painel monocromático composto por fotogramas de vultos de pássaros de diferentes tipos e em diferentes poses. Este painel remete-nos, em jeito de William Morris, para os papéis de parede dos anos 70, não tanto pelos motivos mas pelo tipo de efeito e de repetição. Repetição é também o mote de Sara Pazos para os seus desenhos Sem TÃtulo em que a ilha é um pedaço de terra tÃpico do nosso imaginário e nos lembra os desenhos de Moebius. Ambas as obras utilizam a repetição como forma de distinguir o indivÃduo e de salientar a diferença. Lara Torres junta-se a Diogo Melo como quem já trabalhou em obras de Sónia Baptista (uma delas no último Temps d’Image, Tempus Fugit também com Cláudia Varejão) para mostrar uma peça sonora, que está muito longe do trabalho a que nos habituou como designer de moda, embora os seus trabalhos habitualmente sejam mais intervenções artÃsticas que vestuário. Batimentos Binaurais é uma captação de som na Praia da Luz e transporta-nos para a sonoridade idealizada de uma ilha. Também José Miguel Vitorino se debruça sobre a sonoridade, com um vÃdeo Moske Orgulje onde nos mostra o fenómeno do órgão do mar na Croácia, uma obra arquitectónica de Nicola Basic, em que o mar ao entrar em tubos situados por baixo de degraus cria um som aleatório mas harmónico. Ouve-se em fundo as vozes também aleatórias de visitantes deste local turÃstico. Joana Linda e Sofia Arriscado têm porventura as obras mais inquietantes desta exposição. Joana, numa sala com estantes de onde foram retirados todos os livros, projeta um vÃdeo na única estante com livros que servem assim de fundo ao seu filme. Em Karuna, sendo esta uma palavra em sânscrito que significa ação compassiva ou compaixão, mostra-nos um casal nu num local, que pela envolvente nos remete para um lugar paradisÃaco, a ser morto a tiro por um outro casal com uma atitude militar. Sobre este vÃdeo, uma voz off fala sobre o olhar de um homem perante a beleza da mulher. Esta obra remete para o Adão e Eva, para os primeiros humanos, para uma forma ideal de vida, pura, feliz e bela, que a civilização mata. Há o conforto dos sofás onde nos sentamos para ver este casal contemplativo e pacificador e há a surpresa e perturbação que sentimos quando são mortos sem apelo nem agravo. Sofia Arriscado em Ou Topos mostra-nos um vÃdeo em que faz um paralelo sobre a situação espacial de uma ilha e o nosso cérebro, remetendo-nos para uma ligação à terra e à mãe, aos locais primevos da existência e da felicidade. Imagens do mar e de horizontes e espaços abertos na natureza alinhados com imagens de uma mulher a esvoaçar como um pássaro dentro de um quarto fechado, entrecortados por intertÃtulos com excertos do livro, estabelecendo um paralelo entre a solidão, a prisão urbana e a liberdade da natureza. Todos somos pássaros presos num quarto. Este seu trabalho é claramente uma obra de montador. “mas a unidade numérica do movimento é o batimento de asas, o intervalo entre dois movimentos ou duas ações que cada vez se torna mais pequeno.†diz Gilles Deleuze sobre a montagem. [1] Miguel Bonneville, o mentor deste projeto, encontra-se na última sala deste edifÃcio maravilhoso e labirÃntico e apresenta-nos dois conjuntos de autorretratos Estudo para Ilha e Every Paradise is Artificial. Este último mostra-nos o próprio artista como personificação de animais selvagens numa associação ao tÃtulo. Uma alusão aos demónios interiores de cada um. O artista como falso paraÃso? Algumas obras são mais cinematográficas outras mais plásticas. Algumas remetem-nos de forma mais óbvia para a ilha, seja a de Aldous Huxley seja uma qualquer que idealizemos, apanágio de liberdade e felicidade para uns ou de solidão e isolamento para outros. São as ilhas de cada um, mais do que a da obra literária. Miguel Bonneville queria pôr toda a gente a ler o livro e esse objectivo é alcançado: a curiosidade acende-se com a exposição. Nota: [1] Deleuze, Gilles, A Imagem Movimento, Cinema I. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 1983, 2ª edição, p. 57
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