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COLETIVAapesar de tudo, nunca se sentia só ou triste, o futuro fazia-lhe companhia ou Le petit Lenormand (cartomancia e probabilidade)VERA CORTÊS - ART AGENCY Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq. 1200-868 Lisboa 18 MAI - 15 JUN 2013 A exposição que está patente na agência Vera Cortês, comissariada por Luís Silva, tem um título enigmático, repartido em dois subtítulos ou, se quisermos, em duas entradas de leitura: apesar de tudo, nunca se sentia só ou triste, o futuro fazia-lhe companhia ou Le petit Lenormand (cartomancia e probabilidade). Enquanto a primeira entrada sugere um certo estado de reconforto proporcionado pelo tempo futuro, a segunda cita o nome de um baralho de tarot inventado por Marie-Anne Lenormand, uma famosa cartomante de finais do século XVIII e inícios do século XIX, que, segundo consta, chegou a ser consultada por Marat, Robespierre e Saint-Juste, tendo previsto a ascensão e a queda do império napoleónico. Porém, esta não é uma exposição sobre futurologia ou práticas divinatórias, nem sobre uma crença ou promessa de futuro estruturadas por uma razão sustentada no cálculo, na objetividade ou na estatística. Pelo contrário, o futuro que o campo discursivo da exposição parece tratar é da ordem do acontecer, desse terreno propício à emergência de fenómenos imprevisíveis, que escapam à ordem estável do conhecimento e que, graças à sua natureza ambígua, são difíceis de nomear e classificar. Neste sentido, a exposição dá conta de uma área de investigação que tem ocupado o trabalho de alguns dos artistas mais jovens do nosso panorama, incluindo os seis artistas aqui reunidos, nascidos na década de 1980: Diogo Evangelista, Pedro Henriques, Joana Escoval, Catarina de Oliveira e Musa paradisiaca (projeto formado por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão). Refiro-me, concretamente, à procura de modelos e estratégias de resistência face aos processos de totalização e enclausuramento do sentido e, por correlação, à exploração das margens de incerteza que aí tomam lugar. Ao longo da exposição, esta questão encontra diferentes articulações, adquirindo também formas de inteligibilidade distintas. Pedro Henriques, posiciona-nos perante quatro fotografias a preto e branco da série Dripping Trees, 2012, onde o mesmo referente, troncos de árvores invertidas, é destabilizado pela presença de manchas de spray branco que escorrem pelas superfícies. Deste processo, que tira partido dos efeitos de sobreposição, do flash e dos contrastes luz/sombra para investigar os mecanismos da percepção visual, resultam imagens que buscam um sentido de estranheza determinado por uma linguagem interna ao próprio medium, entendido, é preciso notar, de forma multidisciplinar. Joana Escoval, por sua vez, apresenta duas instalações-escultóricas onde dá continuidade a um trabalho assente em formas de conhecimento que integrem uma relação com a natureza estruturada por modelos lentos de observação sobre fragmentos de vida em mutação que, depois, recolhe e reorganiza segundo novas coordenadas de espaço e tempo e combinação de materiais frágeis. Na primeira instalação, uma folha vermelha de Acer Palmatum vinda do Japão, encontra-se pendurada num suporte em cobre muito fino, preso ao chão da galeria e virado para a árvore que da rua se insinua através da janela, enquanto na segunda, um semi-aro em latão cravado na parede virtualiza, em simultâneo, a ação de um movimento fechado e incompleto. Já os trabalhos expostos de Diogo Evangelista, Catarina de Oliveira e do projeto Musa Paradisiaca assumem direções mais propositivas e de caráter performativo. Em Forgotten dreams e Forgotten dreams (driftwood), 2013, Evangelista apresenta uma fotocópia a preto e branco de um grupo de mulheres nuas deitadas, iluminada por focos de luz amarela que partem de um aglomerado de troncos de madeira, dispostos no chão. A articulação entre os dois elementos remete-nos para uma ideia de comunidade que, embora representada através da imagem, pretende atualizar-se quando os espetadores entram na sala. O dado inquietante e mais curioso da peça relaciona-se, porém, com a dificuldade extrema em determinarmos o grupo ou suposta comunidade a partir de categorias estáveis e daquela ser-nos dada a pensar através de mecanismos de desidentificação que denotam sobretudo energias libidinais e ociosas. A ação e o seu vestígio são também traços comuns aos trabalhos de Catarina de Oliveira. Para a exposição a artista desenvolveu duas performances e uma peça de vidro, onde formas geométricas, cores, objetos, corpos e texto se interferem mutuamente, construindo planos enunciativos em estado de permanente negociação. No Ensaio para Os traços do seu caráter...*, 2013, dois performers (Carlos Aragão e Diogo Belizário), desenham, através dos seus movimentos, um espaço triangular que é o espaço de ação. O espaço formado por esses três pontos imaginários é apertado e é dentro dele que os corpos e as palavras se tocam, se afastam, se procuram, se chocam, se repelam, evidenciando as estruturas de força que configuram a vida (social e individual), mas também os acasos que se interpõem, ensaiados, de resto, pelo jogo que ficou no chão. No caso das impressões fotográficas de Musa paradisiaca, pertencentes à série Batalhão de figuras, iniciada em 2012, a performatividade que lhes podemos associar diz respeito ao campo da linguagem e às suas experiências inesgotáveis. As fotografias formam uma sequência intercalada por imagens-texto a preto e branco e por imagens de figuras coloridas manualmente, sem que texto e figura se sobredeterminem ou se autoexpliquem. E enquanto as primeiras desenham corpos porvir, as segundas, corpos que são, reclamam palavras por dizer. Ao entenderem a linguagem como construção não transparente, Eduardo Guerra e Miguel Ferrão exploram as instabilidades do seu lugar e a sua possibilidade muda, ainda não totalmente dita, prestando sobretudo atenção às trocas de posição entre emissor e recetor. A exposição diagnostica assim de forma sensível, informada e certeira uma problemática que afeta as práticas artísticas mais emergentes, associando-lhe um enquadramento discursivo e um registo de temporalidade muitíssimo estimulantes. Porém, do ponto de vista curatorial, creio que beneficiaria de um posicionamento mais preciso, face à política de tempo que propõe. Afinal de contas, de que política de tempo falamos? De um acontecer circunscrito ao poder da indeterminação em si, ou de um acontecer que implica a força contingencial da indeterminação sobre a configuração do comum? >>>>> * Os traços do seu caráter, as formas da sua existência, os episódios da sua vida, ainda que de acordo com a procura pela qual ele se sente responsável até à irresponsabilidade, não pertencem a ninguém, 2013
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