Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Catarina Oliveira, Ensaio para Os traços do seu caráter...*, 2013


Catarina Oliveira, Performance Os traços do seu caráter...*, 2013


Joana Escoval, Sem título (Folha de Acer Palmatum), 2013


Pedro Henriques, Dripping Trees, 2012


Musa paradisiaca, da série Batalhão de figuras, 2012


Diogo Evangelista, Forgotten dreams (driftwood) e Forgotten dreams, 2013

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


COLETIVA

apesar de tudo, nunca se sentia só ou triste, o futuro fazia-lhe companhia ou Le petit Lenormand (cartomancia e probabilidade)




VERA CORTÊS - ART AGENCY
Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq.
1200-868 Lisboa

18 MAI - 15 JUN 2013


A exposição que está patente na agência Vera Cortês, comissariada por Luís Silva, tem um título enigmático, repartido em dois subtítulos ou, se quisermos, em duas entradas de leitura: apesar de tudo, nunca se sentia só ou triste, o futuro fazia-lhe companhia ou Le petit Lenormand (cartomancia e probabilidade). Enquanto a primeira entrada sugere um certo estado de reconforto proporcionado pelo tempo futuro, a segunda cita o nome de um baralho de tarot inventado por Marie-Anne Lenormand, uma famosa cartomante de finais do século XVIII e inícios do século XIX, que, segundo consta, chegou a ser consultada por Marat, Robespierre e Saint-Juste, tendo previsto a ascensão e a queda do império napoleónico.

Porém, esta não é uma exposição sobre futurologia ou práticas divinatórias, nem sobre uma crença ou promessa de futuro estruturadas por uma razão sustentada no cálculo, na objetividade ou na estatística. Pelo contrário, o futuro que o campo discursivo da exposição parece tratar é da ordem do acontecer, desse terreno propício à emergência de fenómenos imprevisíveis, que escapam à ordem estável do conhecimento e que, graças à sua natureza ambígua, são difíceis de nomear e classificar. Neste sentido, a exposição dá conta de uma área de investigação que tem ocupado o trabalho de alguns dos artistas mais jovens do nosso panorama, incluindo os seis artistas aqui reunidos, nascidos na década de 1980: Diogo Evangelista, Pedro Henriques, Joana Escoval, Catarina de Oliveira e Musa paradisiaca (projeto formado por Eduardo Guerra e Miguel Ferrão). Refiro-me, concretamente, à procura de modelos e estratégias de resistência face aos processos de totalização e enclausuramento do sentido e, por correlação, à exploração das margens de incerteza que aí tomam lugar.

Ao longo da exposição, esta questão encontra diferentes articulações, adquirindo também formas de inteligibilidade distintas. Pedro Henriques, posiciona-nos perante quatro fotografias a preto e branco da série Dripping Trees, 2012, onde o mesmo referente, troncos de árvores invertidas, é destabilizado pela presença de manchas de spray branco que escorrem pelas superfícies. Deste processo, que tira partido dos efeitos de sobreposição, do flash e dos contrastes luz/sombra para investigar os mecanismos da percepção visual, resultam imagens que buscam um sentido de estranheza determinado por uma linguagem interna ao próprio medium, entendido, é preciso notar, de forma multidisciplinar.

Joana Escoval, por sua vez, apresenta duas instalações-escultóricas onde dá continuidade a um trabalho assente em formas de conhecimento que integrem uma relação com a natureza estruturada por modelos lentos de observação sobre fragmentos de vida em mutação que, depois, recolhe e reorganiza segundo novas coordenadas de espaço e tempo e combinação de materiais frágeis. Na primeira instalação, uma folha vermelha de Acer Palmatum vinda do Japão, encontra-se pendurada num suporte em cobre muito fino, preso ao chão da galeria e virado para a árvore que da rua se insinua através da janela, enquanto na segunda, um semi-aro em latão cravado na parede virtualiza, em simultâneo, a ação de um movimento fechado e incompleto.

Já os trabalhos expostos de Diogo Evangelista, Catarina de Oliveira e do projeto Musa Paradisiaca assumem direções mais propositivas e de caráter performativo. Em Forgotten dreams e Forgotten dreams (driftwood), 2013, Evangelista apresenta uma fotocópia a preto e branco de um grupo de mulheres nuas deitadas, iluminada por focos de luz amarela que partem de um aglomerado de troncos de madeira, dispostos no chão. A articulação entre os dois elementos remete-nos para uma ideia de comunidade que, embora representada através da imagem, pretende atualizar-se quando os espetadores entram na sala. O dado inquietante e mais curioso da peça relaciona-se, porém, com a dificuldade extrema em determinarmos o grupo ou suposta comunidade a partir de categorias estáveis e daquela ser-nos dada a pensar através de mecanismos de desidentificação que denotam sobretudo energias libidinais e ociosas.

A ação e o seu vestígio são também traços comuns aos trabalhos de Catarina de Oliveira. Para a exposição a artista desenvolveu duas performances e uma peça de vidro, onde formas geométricas, cores, objetos, corpos e texto se interferem mutuamente, construindo planos enunciativos em estado de permanente negociação. No Ensaio para Os traços do seu caráter...*, 2013, dois performers (Carlos Aragão e Diogo Belizário), desenham, através dos seus movimentos, um espaço triangular que é o espaço de ação. O espaço formado por esses três pontos imaginários é apertado e é dentro dele que os corpos e as palavras se tocam, se afastam, se procuram, se chocam, se repelam, evidenciando as estruturas de força que configuram a vida (social e individual), mas também os acasos que se interpõem, ensaiados, de resto, pelo jogo que ficou no chão.

No caso das impressões fotográficas de Musa paradisiaca, pertencentes à série Batalhão de figuras, iniciada em 2012, a performatividade que lhes podemos associar diz respeito ao campo da linguagem e às suas experiências inesgotáveis. As fotografias formam uma sequência intercalada por imagens-texto a preto e branco e por imagens de figuras coloridas manualmente, sem que texto e figura se sobredeterminem ou se autoexpliquem. E enquanto as primeiras desenham corpos porvir, as segundas, corpos que são, reclamam palavras por dizer. Ao entenderem a linguagem como construção não transparente, Eduardo Guerra e Miguel Ferrão exploram as instabilidades do seu lugar e a sua possibilidade muda, ainda não totalmente dita, prestando sobretudo atenção às trocas de posição entre emissor e recetor.

A exposição diagnostica assim de forma sensível, informada e certeira uma problemática que afeta as práticas artísticas mais emergentes, associando-lhe um enquadramento discursivo e um registo de temporalidade muitíssimo estimulantes. Porém, do ponto de vista curatorial, creio que beneficiaria de um posicionamento mais preciso, face à política de tempo que propõe. Afinal de contas, de que política de tempo falamos? De um acontecer circunscrito ao poder da indeterminação em si, ou de um acontecer que implica a força contingencial da indeterminação sobre a configuração do comum?



>>>>>

* Os traços do seu caráter, as formas da sua existência, os episódios da sua vida, ainda que de acordo com a procura pela qual ele se sente responsável até à irresponsabilidade, não pertencem a ninguém, 2013


Sofia Nunes