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LOURDES CASTRO E MANUEL ZIMBROÀ Distância, Linha de HorizonteCHIADO 8 ARTE CONTEMPORÂNEA Largo do Chiado, n.º8 1249-125 Lisboa 24 MAI - 26 JUL 2013 Lourdes Castro é uma das mais singulares e importantes artistas portuguesas. Iniciou o seu Teatro de Sombras por volta de 1966, primeiro com a colaboração de René Bertholo (com quem fundou o grupo KWY) e depois com Manuel Zimbro entre 1973 e 1986. Todo o seu trabalho reside numa necessidade de depuração, na noção muito exata do essencial. É nesse sentido que nascem as suas sombras. É também, se pensarmos em termos semióticos (Bruno Marchand aprofunda esta problemática no catálogo), um signo do objeto que se representa: “a sign becomes a sign only through an act of interpretation envisaging it as a referring to some entity than itself”. [1] Mas este signo não é um substituto do objecto, antes, tal como um ícone, reproduz qualidades que são próprias do objecto. Neste caso poderíamos acrescentar que Lourdes Castro fornece a estes signos e ícones qualidades próprias que os emancipam do seu referente inicial. Esta exposição tem a qualidade com que a Chiado 8 e a curadoria de Bruno Marchand nos têm brindado. Exposição intimista tão de acordo com o carácter da artista. Aqui se mostra um diaporama de Catarina Mourão (realizadora de, entre outros filmes, um documentário sobre Lourdes Castro - Pelas Sombras, 2010), resultado da relação entre as artistas após a produção do documentário. Este diaporama foi realizado a partir do registo fotográfico feito por Claire Turyn num dos espetáculos em 1985, às quais se juntam a banda sonora original, composta por música – peças de Stravinsky ou Keith Jarrett – e por bruitage – sons ambiente correspondentes às imagens que vemos. Também podemos ver alguns elementos relacionados com o Teatro de Sombras: um desenho e os cartazes dos diferentes espetáculos em várias cidades e países. Os Teatros de Sombras são ações do quotidiano e neste diaporama é isso que vemos: uma série de acontecimentos quotidianos que identificamos perfeitamente. Os sons ajudam-nos a identificar as cenas criando uma narrativa que apela à memória. Quando vemos a sombra de uma mulher (a própria artista) a entrar no mar, o som que ouvimos remete-nos para a memória que temos do barulho das ondas que chegam e se vão embora. É o barulho da praia que recordamos, mesmo se o que vemos é apenas mar azul, céu branco e uma escada. O diaporama de Catarina Mourão é feito a partir do registo de uma performance teatral, mas está muito mais próximo da linguagem cinematográfica. Há um fluir imagético, mesmo não estando a ver as 24 imagens por segundo que vemos num filme. Neste diaporama estão incluídas e diluídas várias vertentes da atividade artística: a cinematográfica, a teatral, a performática (uma certa narrativa aproxima-se do teatro, enquanto a atitude artística aproxima-se da performance), até a escultórica porque sem dúvida que a manipulação dos objetos remete para esta manifestação e por último a pintura porque o que vemos é profundamente pictórico. Quando a linha do horizonte se verticaliza para passar a definir uma parede que vai mudando de cor, esta linha passa a delimitar zonas de experiência cromática. Cor que é utilizada, como sempre em Lourdes Castro, a cheio, uniforme. Atravessamos então uma sala vazia que nos irá levar à segunda peça. Esta sala parece ter sido construída de propósito para albergar o desenho Linha de Horizonte (1978-1986), que foi feita ao longo destes oito anos e dos vários espetáculos de Teatro de Sombras que Lourdes Castro e Manuel Zimbro foram fazendo. Este desenho onde vemos traços e uma pequena mancha, convoca toda a depuração e fragilidade do trabalho de Lourdes. É um desenho tão volúvel como uma sombra. Há aliás neste trabalho, como em todos os da artista uma necessidade de confronto que aqui se traduz em positivo/negativo ou translúcido/opaco (as sombras) ou vertical/horizontal (a linha), que resume uma necessidade que é tão óbvia nas suas obras sobre tela, pano ou plexiglas: o cheio ou o vazio que o contorno define, a superfície: “A linha do desenho designa a superfície e assim, a determina, na medida em que a linha chama a si, como seu fundo, a superfície. Inversamente, uma linha desenhada também só existe sobre este fundo, de modo que, por exemplo, se um desenho cobrisse o seu fundo inteiramente, deixaria de o ser.” [2] NOTAS [1] Potts, Alex, Sign in Critical Terms for Art History (ed. Robert S. Nelson and Richard Shiff). Chicago and London: The University of Chicago Press, 1996, second edition, p. 21. [2] Molder, Maria Filomena, Matérias Sensíveis. Lisboa: Relógio D’Água, 1999, p. 14.
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