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COLETIVAFilmSOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÃTICA Solar de S. Roque Rua do Lidador Vila do Conde 29 JUN - 01 SET 2013 A Solar – Galeria de Arte Cinemática e o 21º Curtas Vila do Conde e escolheram como tema a pelÃcula, no que consideram ser os momentos finais da sua utilização como suporte comum e a sua passagem para um meio de utilização pontual por artistas e cineastas. No fundo este programa que engloba não apenas a exposição no Solar e no Teatro Municipal de Vila do Conde (que tem acolhido o Festival) mas também sessões de cinema, uma masterclass e uma performance é tanto uma despedida como uma celebração da pelÃcula como elemento exclusivo e intencional. Ou seja, na ótica dos programadores, a pelÃcula deixará de ser vista (e a inexistência, neste momento, em Portugal de um laboratório que trate a pelÃcula confirma-o) como um suporte de utilização corrente (o que até já deixou de ser), para passar a ser utilizado apenas por quem quer efetivamente trabalhar com ela e tem alguma autonomia económica. Não seria difÃcil imaginar que todas as obras expostas são em pelÃcula, mas não são. Considera-se que a pelÃcula está expressa na memória do cinema e algumas obras recorrem a imagens de arquivo, essas sim filmadas nesse suporte. É o caso de Daniel Barroca que confirma no seu texto de apresentação: “(…) a possibilidade que a imagem analógica do filme oferece de ser tocada, ou seja, fisicamente intervencionada é em certos momentos determinante para o meu processo de trabalho.†Uma Paisagem Confusa e Indistinta (2009) é uma espécie de sinfonia visual em quatro ecrãs. Barroca recorre a um documentário de propaganda nazi e, remontando as imagens, destrói-lhe o sentido ideológico, sem contudo anular o seu ambiente como conjunto de imagens de guerra. O ambiente frio e húmido da cave da galeria é perfeito e funciona como um todo para este trabalho. João Louro vai ainda mais longe e nem sequer utiliza a pelÃcula ou o digital para a sua obra, mas a luz. Para ele a homenagem é feita sob a forma de diálogos do clássico The Hussler (A Vida é um Jogo, 1961) de Robert Rossen, invocando o poder da linguagem como parte integrante de um filme, de tal forma que apenas a sua presença é suficiente para invocar a sua memória. Um dos artistas expostos e que é homenageado na rubrica In Focus do Festival é Bill Morrison. Conhecido pelo seu longo trabalho dedicado ao found footage, é uma figura incontornável do cinema experimental. Também ele, como Daniel Barroca, trabalha sobre o objeto pelÃcula e não só sobre as imagens. Morrison debruça-se sobre o tempo utilizando imagens degradadas. Nos seus filmes, a sucessão de imagens é não apenas um dado fÃlmico mas também um testemunho da passagem do tempo. Um tempo histórico − humano e um tempo de declÃnio da matéria (de que a pelÃcula é uma vital testemunha). Numa altura em que se discute a pertinência do digital (e dos discos externos) como arquivos válidos ou não de filmes (porque se estragam), Bill Morrison, mostra-nos a perecibilidade da pelÃcula, como contraponto à questão da cópia fÃsica por definição. Podemos assim, ver quatro obras de Morrison na Solar (para além das exibidas no âmbito do In Focus). Destacamos Light Is Calling (2004), uma montagem que nos mostra os tais efeitos da degradação do negativo que ,com a composição de Michael Gordon, constitui uma espécie de partitura onde se sente a música como uma presença por vezes impositiva sobre as imagens; Release (2010) mostra-nos a multidão aglomerada à porta da prisão no dia em que era suposto Al Capone ser libertado (tinha-o sido na noite anterior) num ecrã dividido e convergente, com música de Vijay Iver, um loop que se transforma numa vertigem; vertiginoso é também Outerborough (2005) em que Morrison duplica a imagem de uma viagem de trolley na ponte de Brooklyn no inÃcio do século e vai progressivamente acelerando esta imagem até ao ponto de tornar a paisagem abstrata − transforma-se num túnel de ferro que nos engole − numa experiência fenomenológica. O conjunto das obras de Bill Morrison também serve para uma reflexão sobre a duração de filmes em galeria ou quando é que se torna pertinente serem exibidos em sala. Neste caso, e porque existe uma secção do festival onde há lugar para Bill Morrison, essa divisão é evidente. Podemos ainda ver um conjunto de obras de João Maria Gusmão e Pedro Paiva que são, como sempre, perturbadoras. De um lado da sala que não tem, tal como as obras da dupla, uma configuração óbvia, Solar, o cego a comer uma papaia (2011) um ato aparentemente inocente transforma-se pela montagem e pela lassidão temporal num ato aparentemente canibalista; do outro lado da sala uma projeção mais pequena mostra-nos sucessivos episódios de atos quotidianos (e não só) que os artistas chamam “experiências pseudo-cientÃficas†que produzem uma reflexão sobre a imponderabilidade da matéria e do tempo. É interessante verificar que a obras extremamente codificadas, os artistas apõem tÃtulos tão explÃcitos que embora não descodifiquem as suas intenções permitem-nos entender as ações que mostram. Mais haveria a dizer sobre os outros artistas presentes, mas mais do que uma coerência estética ou formal, há em Film uma coerência temática e uma reflexão que importa fazer sobre a perecibilidade da matéria no contexto artÃstico (poderÃamos facilmente estender esta inquietação à s artes plásticas) e sobre a sua possibilidade de reprodução técnica. E voltamos, como sempre nestes assuntos a Walter Benjamin: “A autenticidade de uma coisa é a essência de tudo o que ela comporta de transmissÃvel desde a sua origem, da duração material à sua qualidade de testemunho histórico. Como esta se baseia naquela, também o testemunho histórico é posto em causa na reprodução, em que a duração material escapou ao homem.†Neste momento, com a pelÃcula, a cópia (suporte) passa a fazer parte do caráter único da obra de arte e logo contribui para o seu valor aurático [1]. Nota [1] Benjamin, Walter, “A Obra de Arte Na Era da Sua Possibilidade de Reprodução Técnica†in A Modernidade. Lisboa: AssÃrio & Alvim, 2006, p. 211.
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