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PAULIANA VALENTE PIMENTELJovens de AtenasGALERIAS MUNICIPAIS - GALERIA DA BOAVISTA Rua da Boavista, 50 1200-066 Lisboa 26 SET - 26 OUT 2013 Há algo de Barroco na fotografia de Pauliana Valente Pimentel. A mise-en-scène, a preocupação quase pictórica com a composição, quer a nÃvel espacial quer ao nÃvel cromático. Há ainda uma preocupação com a construção. A contrução do cenário, de um carácter comum a todas as obras da exposição e iremos mais longe em dizer que esta construção, esta noção tão lúcida de encenação e cenografia, é algo que atravessa todos os seus trabalhos e que é uma das caracterÃsticas formais que a definem como artista. Em Jovens de Atenas há uma espécie de “homenagem†da pessoa comum ao mesmo tempo que se mostra os ambientes dessas personagens de forma quase documental. São estes ambientes pessoais que Pauliana retrata de forma magistral. O feio e desarrumado transforma-se, através do gesto fotográfico, num cenário para uma personagem que é tão comum como nós mas que Pauliana dota de qualidades únicas que dialogam connosco através da câmara. Uma espécie de glorificação do comum, no caso de Jovens de Atenas, do quotidiano. Há um trabalho de infiltração em comunidades “párias†que lhe vem do fotojornalismo, mas que ela usa de forma sábia para chegar perto das pessoas. Porque não nos iludamos, o que ela retira das pessoas é de alguém que se aproxima, que não tem medo do contacto ou da intimidade. Só assim ela nos consegue dar essa “verdadeâ€. A intimidade que as personagens demonstram, trespassa da fotógrafa para nós. É como se fôssemos Ãntimos delas, sem as conhecermos “As fotografias são marcas fantasmáticas que permitem a presença simbólica dos parentes dispersos†[1]. Mas não é um engano, é a artista que consegue ser um veÃculo transparente entre os retratados e nós, o espectador que as admira. Olhando para os retratos de Pauliana não podemos deixar de pensar em Nan Goldin, não como uma inspiração para a fotógrafa, mas sim como uma artista com quem partilha afinidades estéticas e capacidades humanas. Menos transgressiva, é certo, mas com uma capacidade semelhante de retratar o comum, dotando-o de poder aurático. Em Jovens de Atenas podemos ver um vÃdeo que traduz as preocupações polÃticas da artista e a sua ligação à s pessoas, mas onde podemos perceber melhor o tipo de trabalho que faz com os seus modelos, essa procura de autenticidade. Pauliana trabalha sempre entre o documental e a ficção. O documental, é efectivamente, o que retrata, mas a comunicação connosco é feita no domÃnio da ficção, pois são personagens o que ela cria com aquelas pessoas. São histórias o que imaginamos, é a tal sensação de familiaridade que sentimos. Não são só retratos que compõem a exposição. Algumas fotografias de paisagens ou de espaços arquitectónicos, vistas de janelas tendem para a abstração, lembrando mais texturas do que a realidade que mostram, novamente num encosto à ficção. Contudo é impossÃvel não destacar os retratos de entre o conjunto da sua obra. Há um enquadramento polÃtico que é dado tanto pelo vÃdeo como pelo textos da curadora Ana Matos e de Manuel Maria Carrilho, mas este enquadramento não é necessariamente uma mais-valia para as obras, porque as fotografias transportam-nos para outros mundos e o enquadramento polÃtico cinge-nos a imaginação. Mas não podemos ignorar o que Pauliana quer transmitir, porque é esse também o trabalho do artista, dirigir-nos o olhar e a mente, para aquilo que nos quer dizer “Ao decidirem como deverá ser uma imagem, ao optarem por uma determinada exposição, os fotógrafos impõem sempre normas aos temas que fotografam†[2]. E se tivermos em conta que toda a arte é polÃtica e reflexo da sociedade que a rodeia, no seguimento das teorias marxistas e brechtianas, então faz ainda mais sentido este enquadramento. Se há alguns anos falar em Grécia era pensar em cânones estéticos e civilização modeladora do ocidente, neste momento pensamos sempre em crise polÃtica e económica. Mas não pensamos nisso quando olhamos para aquelas pessoas que Pauliana nos mostra. Vemos as mesmas aspirações, desejos ou angústias que todos nós temos mais ou menos estampado na cara. Talvez sejamos só nós povos do sul da Europa a sentir as coisas da mesma forma, ou talvez seja algo que é transversal a todos os povos deste inÃcio de milénio “A apropriação pelo homem da sua própria natureza é de igual modo o apoderar-se do desenvolvimento do universo.†[3]. NOTAS [1] Sontag, Susan, Ensaios sobre a Fotografia. Lisboa: Quetzal, 2012, p.17. [2] Sontag, Susan, Ensaios sobre a Fotografia. Lisboa: Quetzal, 2012, p.15. [3] Debord, Guy, A Sociedade do Espectáculo. Lisboa: AntÃgona, 2012, p.81.
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