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JULIO LE PARCLe Parc Lumière - Obras cinéticas de Julio Le ParcCASA DAROS Rua General Severiano n.º 159, Botafogo 22290 040 Rio de Janeiro - RJ 12 OUT - 23 FEV 2014 Julio Le Parc: À procura da belezaNa abertura da mostra Le Parc Lumière - Obras cinéticas de Julio Le Parc, na Casa Daros - Rio de Janeiro, o próprio Le Parc, aos 85 anos, comovia-se com as suas criações à medida que o circuito de salas era percorrido. Diante dos objetos móveis e luminosos, o artista, o ícone da optical art, com uma pequena câmara, fotografava e exclamava por vezes: “bonito, muito bonito!”, não se contendo em elogiar as suas próprias obras que ganharam uma mostra ocupando toda a extensão do belo edifício da Casa Daros. Julio Le Parc, argentino radicado em Paris desde a década de 60, foi um dos fundadores do G.R.A.V. (Groupe de recherche d’art visuel), grupo responsável por escrever uma série de manifestos contra o caráter elitista da arte contemporânea e em favor de uma maior democratização do acesso à arte por parte do público, dentro dos quais podemos destacar dois da autoria de Le Parc: “Eliminar a palavra arte”, escrito em 1960, e “Estado geral das artes plásticas”, sobre o contexto cultural da América Latina, de 1986. É sabido que a recepção de uma arte gerada a partir de novos critérios e pressupostos foi, ao longo do século XX, uma questão teórica relevante para diversos artistas, cujo temor de um divórcio entre o espectador e os objetos singulares da arte contemporânea gerava pesquisas plásticas e abriam caminho para a criação de movimentos que mudariam radicalmente o cenário artístico. A partir disso, podemos destacar tanto o surgimento da pop art, que ressignificou ironicamente os conteúdos da cultura de massa e os incorporou numa arte dita erudita, e a arte cinética, movimento do qual Julio Le Parc é um dos principais expoentes. O franco-argentino, vencedor da Bienal de Veneza em 1966, sempre defendeu que o elemento capaz de conectar as obras de arte contemporâneas e o espectador comum é o caráter arrebatador da beleza. Para o artista, tanto os conteúdos quanto as características formais devem ser imediatamente − isto é, sem mediações − comunicados ao espectador. Assim, o elo capaz de costurar estas duas instâncias seria o caráter belo da obra. A obra de arte é politicamente bela porque abre a possibilidade de comunicação direta entre o público e a arte, reduzindo opiniões diferenciadas − abismo existente entre uma elite intelectual e o espectador genérico − a um conceito universal com respeito à obra, forjando um espaço político no qual todos teriam acesso a uma dada compreensão. De facto, a experiência que muitos de nós vivenciamos no museu de arte contemporânea tem a ver com a sensação de perda dos referenciais que até à modernidade nos localizava na experiência artística. A partir do século XX, o que aconteceu no campo das artes foi uma desapropriação dos conteúdos que nós reconhecíamos como pertencentes ao domínio da arte. Com o passar do tempo, as obras e a experiência artística − tanto para artistas quanto para espectadores − saltou de um lugar pacífico e reconfortante para ser lançado no angustiante abismo do nada. Ao artista que se erguia como um Deus frente à sua criação, a obra de arte passou a ser objeto de profunda inquietação. Ao espectador que encontrava na obra seu olhar familiar desdobrado, o sujeito contemporâneo passou a responder com uma progressiva estranheza frente aos novos objetos. Numa direção oposta a este cenário, podemos destacar a obra de Julio Le Parc. Situado no seio das grandes manifestações artísticas do século XX, o artista soube equilibrar as tendências plásticas mais afins com o período contemporâneo − fazendo da sua matéria-prima a luz e o movimento − sem se distanciar dos conceitos teóricos da modernidade, sobretudo no que diz respeito à pacífica relação do espectador e do artista com a obra de arte, fundando como mediação entre estes três elementos a empatia advinda da experiência da beleza. Ao exclamar de alegria diante dos 30 objetos expostos na Casa Daros, restaurados pela própria fundação suíça depois de serem encontrados num profundo estado de degradação no armazém do atelier do artista em Paris, Le Parc está a responder a uma questão pertinente do seu próprio século, marcado por uma série de impasses estéticos no que diz respeito à complexa máquina artista-obra-espectador. E o público poderá conferir o seu trabalho em dois estados brasileiros. Além da grande mostra na cidade, o artista conta ainda com duas exposições simultâneas em São Paulo, uma na galeria Carbono e outra na Galeria Nora Roesler. A exposição no Rio é a maior dedicada ao artista no período e fica em cartaz na cidade até fevereiro de 2014. Além de recuperar o funcionamento das obras de Le Parc, projeto executado pela curadora técnica Käthe Walser, a Casa Daros também foi responsável por adquirir para o seu acervo cerca de 40 obras de Le Parc, tendo realizado uma exposição dedicada a ele em Zurique em 2005, semelhante a que chegou ao Rio no dia 12 de outubro. No Rio, a curadoria optou por ocupar cada sala com apenas uma ou, no máximo, duas ou três obras, dependendo do tamanho do espaço. São móbiles, instalações e projeções, como Continuel-lumière avec 49 cylindres vitesse lente e Continuel-lumière Mobile; e objetos que são marcados pela interação com o público, como Rubans au vent e 4 doubles miroirs; além de um labirinto de vidro, através do qual o visitante passeia durante a mostra. Ao percorrer a Casa Daros imersa na escuridão, o espectador tem a sensação de que o rigor da pesquisa na construção das obras contempla uma única função, já mencionada anteriormente, de comunicação direta com o público, através de uma crítica mordaz ao mercado da arte, no qual, segundo Le Parc, “o dinheiro decide”. Embora se possa pensar que a protagonista dos trabalhos de Le Parc seja a luz, fonte de fascínio que traz consigo uma fundamentação filosófica desde a invenção do fogo, é tanto mais o resultado do modo como Le Parc a operou que salta aos olhos do visitante. De modo que estamos ali porque somos hipnotizados pela beleza. Ao avançar no escuro e atravessar pouco a pouco as salas da Casa Daros, o espectador é tragado por aquilo que ele vê de forma imediata, de onde não brota nenhuma indagação ou questionamento sobre a obra de arte. O que se vê é exatamente aquilo que a obra traz : o belo que oferece prazer e pode ser apreciado por todos. Não o belo da modernidade das Belas-Artes, mas sim a beleza do nosso tempo, forjada a partir dos recursos mais caros às artes visuais de meados do século XX: os experimentos com a luz e o movimento no processo artístico. Como mencionado numa entrevista gravada pelo artista em 1967, às vezes é preciso aceitar o facto de que manchas de tinta numa tela são apenas manchas de tinta numa tela. Contra a cisão que separa o crítico especializado e o espectador comum, Le Parc propõe um lugar compartilhado, no qual venha à tona a via única de interpretação das obras. Ao destruir a posição privilegiada de uma certa elite, o artista critica os padrões dominantes que se desdobram na esfera da arte, ao lembrar a todos que o sentido original da experiência artística, por meio da qual o homem fundava a sua própria existência, pode ser recuperado e trazido à luz.
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