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COLECTIVA10ª edição do Prémio EDP Novos ArtistasGALERIA FUNDAÇÃO EDP PORTO Rua Ofélia Digo da Costa, nº 45 (junto à Casa da Música) Porto 13 DEZ - 23 MAR 2014 NOVOS ERRANTESYou can’t swim freely when you get tangled up in roots. M. Duchamp, Interview by Jean Antoine The Art Newspaper No. 27, April 1993 Vamos retomar a resposta de Duchamp. Na sua perspetiva, a formação de raízes, o sentimento forte de pertença a um país e cultura, constrange a capacidade de observar com clareza. Foi o facto de ter vivido entre os dois lados do atlântico que lhe permitiu nadar livremente, desamarrado de influências e tradições. A exposição da 10ª edição do Prémio Novos Artistas vem corroborar esta ideia de nomadismo, revelando percursos profissionais múltiplos, dentro e fora do nosso país, e criações que traduzem a dinâmica inquieta da geração presente. Entre 567 candidaturas Filipa Oliveira, João Pinharanda e Sérgio Mah selecionaram os 9 finalistas cujos trabalhos podem ainda ser vistos na galeria da Fundação EDP e na Casa da Música no Porto. São na sua maioria produzidos especificamente para a exposição e este espaço, e desenvolvidos sob o olhar atento dos curadores. Vão do desenho à pintura, da escultura à instalação, do vídeo à performance e atravessam problemáticas tão distintas que a sua exibição coletiva evidencia mais ainda a singularidade de cada proposta. Dizem os curadores que o melhor dos novos artistas deve apresentar uma visão inesperada, idiossincrática e uma combinação entre inteligência conceptual e qualidade técnica no desempenho das obras. É certo que acaba por estar distante essa figura maior do artista, cuja disposição inicial criadora - a que alguns chamam inspiração ou talento, o daimon-, se manifesta na possibilidade de se enriquecer o mundo ou de o ir transformando. Como se torna quase pomposa a designação de “obra de arte”. Dizia Hegel que numa obra de arte, a liberdade é o maior dos conteúdos a objetivar. Nestes 9 casos, digo eu, essa liberdade define-se precisamente pelos contornos das trajetórias deambulantes e no assumir da errância. Entre os emergentes, foi consensual a escolha do júri internacional: Ana Santos. Das peças escultóricas que apresenta emana-se uma espécie de silêncio como há muito parece não querer existir na arte portuguesa contemporânea. Um impulso de divagação ativa pelo mundo leva Ana Santos a apropriar-se de materiais em bruto e objetos quotidianos: o arame, a planta artificial, o poliuretano articulado, o mármore, o pedaço de tecido… conjugam-se e são intervencionados. Trata-se do pôr-em-obra a arte no seu sentido mais originário - o da techné - a técnica do homem como manipulador de objetos. Perdidos e achados da respetiva ordem quotidiana [que poderá ser decifrada], ganham nova organização construída a partir da sua potencialidade latente. A simplicidade destes trabalhos é gritante. Obriga o observador a desarmar-se de interpretações e informações convencionais e a olhar o objeto por si mesmo, como aparição do indizível. Ana Santos está também representada na exposição 12 Contemporâneos – Estados Presentes no museu de Serralves, onde o espaço mais amplo deixa as peças respirar. Entre os escultores desta coletiva, destaque-se também João Ferro Martins. Com ele, o desvio da arrumação natural dos objetos no mundo é trabalhado como modo de reflexão crítica dos sistemas em sociedade. Objetos domésticos - o tambor da máquina de lavar roupa, o alguidar, o copo e o colchão - recompõem-se em inusitados instrumentos musicais bem executados. A relação com a música experimental e as artes plásticas é uma constante no trabalho deste artista, celebrando-a, neste contexto, através de uma estratégia de entropia e subtração. Entre a galeria e a Casa da Música, as peças Improvisação Doméstica e Composição Conjugal – Coda podiam ser uma bateria e um piano. Ao contrário do que acontece com o trabalho de Ana Santos, há uma ruptura preemente que também transmite (in)evitável passividade. Por isso o urso gigante que tem ocupado os lugares da sala Suggia denuncia um espetador surdo e mudo. Já João Mouro e Lázaro Matos exploram a arquitetura e o design para adaptarem novos modos de habitar e inventar a casa-mundo. João Mouro retoma as dicotomias precário/precioso, pequeno/monumental para construir cadeiras impossíveis e casas erradas que dialogam com o dentro e o fora dos edifícos envolventes. Luís Lázaro Matos deriva no universo exótico e solarengo de Papua Nova Guiné que se ramifica nos interessantes desenhos de um bairro imaginado e uma inesperada cadeira-pássaro. O lado fantástico destes desenhos vem contrastar com a crueza das esculturas dos Musa Paradisíaca, que acentuam o realismo poético de objetos e víveres. O vídeo está também presente na criação desta dupla, e é o suporte único e priveligiado de Mariana Caló e Francisco Queimadela, apreendendo um olhar demorado sobre a natureza e os símbolos da cultura portuguesa. O projeto contínuo Gradações de Tempo sobre um Plano apresenta também agora um conjunto de vídeos no palácio do Carpe Diem em Lisboa. A instalação de Pedro Henriques – Posturas e Espasmos – ocupa um recanto do piso inferior da galeria e surge numa lógica mais introspetiva. Em torno de materiais fabricados e pré-existentes, há possibilidades de cor múltiplas dos negros, brancos e cinzas que se compõem num jogo sóbrio e depurado entre mostrar e esconder. Sandro Ferreira, à semelhança de outros artistas portugueses, recupera a viagem à memória e passado coletivos num sentido documental, assim como o único pintor, Tiago Baptista, através do realismo de cenários e figuras simbólicos. Todos, cada um a seu modo, enunciam um movimento nómada no interior da lógica dos seus projetos. Há decerto deriva na acepção que vem dos situacionistas, reconhecendo a realidade que os envolve ao mesmo tempo como um fora de si, um distanciamento densenraizado que facilita a produção e análise no e do tempo atual. Se pensarmos com Bourriaud, são projetos que não mostram uma estrutura radical mas radicante, isto é, não se formam da raíz única, mas antes se assemelham a plantas com raízes que crescem e se desenvolvem em vários sentidos da sua extensão. Como as heras. Nesta estética das migrações, a precariedade dos materiais, as modalidades artísticas abertas e comunicantes, a instabilidade identitária são pontos-chave dos 9 artistas. A multiplicidade é também uma boa aposta na escolha dos curadores, embora a exposição merecesse muito melhor espaço e melhor arrumação. Duchamp, na mesma entrevista, desacredita da crítica de arte como forma de acompanhar os trabalhos do seu tempo, afirmando a legitimação institucionalizada pelos museus, as galerias e este género de prémios que a sua obra quis ironizar. Mesmo que existam por aí uns quantos talentos desperdiçados, não reconhecidos, o que importa, sobretudo, é continuar a fazer e continuar a pensar. Para isso é preciso que haja muito mais estímulos como este, que a Fundação EDP nesta bienal proporciona aos novos artistas. Até porque os nossos planos - os dos mais jovens -, são inevitavelmente a curtíssimo prazo. A médio e longo prazo só mesmo a vertigem e o risco de errar na contingência dos tempos. :::::: 10ª Edição do PRÉMIO NOVOS ARTISTAS - FUNDAÇÃO EDP Comissários: Filipa Oliveira, João Pinharanda e Sérgio Mah. Artistas: Ana Santos, João Ferro Martins, João Mouro, Luís Lázaro Matos, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Musa paradisiaca, Pedro Henriques, Sandro Miguel Ferreira e Tiago Baptista. Galeria da Fundação EDP e Casa da Música www.fundacaoedp.pt
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