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PILAR ALBARRACÍN“… Y no estaba muerta, no, no, que estaba en la cocina”GALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 22 JUN - 29 JUL 2006 O conceito de mito desenvolve-se em torno de histórias organizadas dentro de um sistema coerente e transmitidas oralmente. Estas narrativas articulam-se com as concepções tradicionais da vida de uma comunidade, servindo para fortalecer a sua organização social e justificar as convenções culturais estabelecidas dentro de esse mesmo grupo. Será tomando como ponto de partida esta definição de mito que se torna interessante conhecer e analisar o trabalho da artista andaluza Pilar Albarracín, nascida em Sevilha em 1968 e que apresenta a exposição “…Y no estaba muerta, no, no, que estaba en la cocina” na Galeria Filomena Soares. Pilar Albarracín utiliza preferencialmente a instalação, a performance e o vídeo para criar discursos e reflexões em torno da identidade cultural associada à visão tradicional e estereotipada da cultura hispânica, que foi sobretudo divulgada e apregoada durante o regime franquista que, tal como os demais regimes totalitários, utilizou elementos pitorescos e supostamente genuínos para criar uma identificação com os ideais de Estado e de valorização patriótica, um quase mito da “hispanicidade original”. As criações de Albarracín movem-se dentro do próprio universo da sua crítica, criando a artista situações extremas em que, mais do que a exaltação de uma estética e de uma vivencia típicas, é o próprio absurdo das convenções que vem ao de cima. É o caso do uso repetido das vestes de sevilhana: característicos vestidos coloridos com folhos, que a artista utiliza frequentemente, algo que é notório na instalação “techo de oferendas” (2004), em que pendura centenas de vestidos nas Reais Atarazanas de Sevilha e visível no vídeo “She-wolf” (2006) que Albarracín apresenta nesta exposição. Neste trabalho vê-se uma ligação directa à performace de Beuys “I love America and America Loves me” (1974): a artista, envolvida não num feltro mas num exuberante casaco de peles, fecha-se numa sala com um lobo e com ele divide uns pedaços de carne crua. Estranhamente, o lobo surge como a figura subordinada ao domínio exercido pela artista, e aqui surge outras das coordenadas do seu trabalho: a reflexão sobre a figura feminina e o seu poder. Para além do vídeo, ha também uma série de 4 fotografias realizadas durante a acção. As referências ao pitoresco e simultaneamente ao mundo feminino continuam, tanto na instalação principal, “Martimes Enragée”, 2006, em que uma série de panelas de pressão produzem ruídos desagradáveis que ecoam uma versão destorcida da Internacional, como nas facas de cozinha bordadas, da série “Dialogos impossibles” (2006) e na “¿Que se cuece aqui?” (2006), que volta a aludir a objectos de cozinha, neste caso uma enorme panela com pequenos e animados grãos que parecem sofrer pela acção do lume. O trabalho de Pilar Albarracín poderia facilmente ser remetido para o gender ou para o político, campos tão exaustivamente explorados. Contudo, é pela sua sensibilidade, pela sua delicadeza e inteligência e sobretudo pelo sentido de humor com que aborda semelhantes temáticas, que a sua obra se assume como uma efectiva alternativa ao(s) conceptualismo(s) tão em voga apesar da sua evidente exaustão e a afirma como uma das mais interessantes artistas espanholas do momento.
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