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COLECTIVAPrimavera RaraCENTRO COMERCIAL PALLADIUM Av. da Liberdade, 1/7 - 2º Andar Lisboa 15 MAI - 08 JUN 2014 After a time, you train yourself that once the work is out of the studio, it’s up to somebody else how it gets shown and where it gets shown. You can’t spend all your time being responsible for how the work goes out in the world, so you do have to let go. [1] Não é o caso desta exposição, um momento raro no contexto artÃstico atual. Um espaço que foi dado a um conjunto de artistas para, numa espécie de Primavera Ãrabe Lisboeta, darem o seu grito, já que, para este projeto, lhes foi dada carta branca. Poucos quiseram gritar, mas houve vozes que, ainda assim, se conseguiram fazer ouvir. Trata-se de uma exposição que não é uma exposição, com um curador que não quer ser curador, num espaço de exposição que não é espaço de exposição, com artistas que... são artistas. Esta será talvez a forma mais clara de introduzir o não-conceito de Primavera Rara, agora em exposição no Centro Comercial Palladium, em Lisboa. João Chaves, mentor do projeto, trabalha como consultor e diretor técnico independente desde 2007 e, mais recentemente, como produtor de exposições. Faz questão de frisar que não é curador e que o seu nome surge associado à exposição pois parte de sua iniciativa e é a sua empresa de consultoria técnica nas artes visuais – Balaclava Noir - que a produz. Convidou seis artistas e incluiu duas participações de projetos de fora do circuito a apresentar trabalho ou intervir no espaço de antigas lojas do Palladium. Assim, quer em trabalhos colaborativos, quer individualmente, Tiago Alexandre, De Almeida E Silva, LuÃs Lázaro, Horácio Frutuoso, Sara & André, VÃtor Serrano, e os projetos Retina Urbana e T- RORISTA, são apresentados em espaços cuja leitura é realizada através do enquadramento das diferentes montras do mÃtico centro comercial. Uns, como é o caso de Tiago Alexandre, assumem perfeitamente o espaço e integram-no na escolha da(s) obra(s) e na forma de apresentação; outros, a maioria, por razões variadas, simplesmente apresentam ou adaptam o trabalho ao espaço, sendo o resultado, por vezes, algo conflituoso. O facto de se estar num centro comercial, literalmente, “a ver montras†é, por exemplo, bem aproveitado por VÃtor Serrano, que se autorretrata arrumado, sentado e pronto a ser levado num saco de plástico. Com sentido de humor, aproveita para se lançar ao público do Palladium com uma breve apresentação de uma temática que lhe é querida, a questão do género, do corpo, da sexualidade, em imagens que deixam escapar, aqui e ali, mais do que a Mapplethorpe, referências ao trabalho de Wolfgang Tilmans. Destaca-se o trabalho de Sara & André, que continuando a sua série “Fundação Sara & Andréâ€, convidaram CecÃlia Corujo para visitar as suas infâncias e a partir de uma série de documentos providenciados, como postais, recortes de revistas e fotografias, desenhar, pintar e criar visões do futuro, como é o caso da capa do livro da série World of Art da editora “Hudson & Thamesâ€, intitulado Works by Sara & André, já na sua 5ª edição. “We’ve seen the future and we’re not goingâ€, o tÃtulo da peça, assim como outras duas citações presentes na instalação são referências diretas à dupla McDermott & McGough e ao seu trabalho. Não é possÃvel deixar de reparar que o material usado pelo DJ na inauguração continua no seu lugar, na montra ao lado do trabalho de Sara & André. O set tocado é, assim, assumido como mais do que uma atuação de celebração da abertura da exposição, passando a ser um momento performático, que deixa os seus despojos/vestÃgios no espaço expositivo. É ainda de relevar o trabalho apresentado por Tiago Alexandre e De Almeida E Silva, que se apresentam numa montra conjunta, onde a temática do desporto os une, apesar de exibirem projetos individuais com sugestões completamente diferentes. Tiago Alexandre apresenta em primeiro plano, numa prateleira, cinco raquetes de plástico de cores diferentes intervencionadas; um desenho e uma escultura reminiscente do trabalho apresentado na última Bienal de Cerveira e depois no Carpe Diem, em Lisboa. Do outro lado da sala, as pequenas raquetes são convocadas através do som de uma bola de ténis a ser batida que é sobreposto a um loop que mostra MC Daleste, um cantor e compositor do chamado “Funk Ostentação†brasileiro, ou mais precisamente paulista, no momento em que é assassinado em palco durante uma atuação no dia 7 de julho de 2013. Já De Almeida E Silva, apresenta uma pintura de grande formato equilibrada sobre dois capacetes de Fórmula 1 feitos em gesso, criando uma espécie de área de culto. Mais próximo da montra, surge, criando um triângulo, um terceiro capacete. Este, com uma pequena bandeira com uma insÃgnia que nos remete para a pintura, faz ainda ponte com um desenho suspenso, num plano perpendicular à pintura. D.A.E.S. faz uma alusão aos desportos motorizados de elite no que parece ser uma metáfora que os pretende cruzar com o contexto artÃstico atual e com o processo criativo do artista, numa corrida em busca da glória. Por último, destacam-se os projetos T-Rorista e Retina Urbana, que apresentam trabalhos que ilustram mais explicitamente o que o tÃtulo da exposição pressupõe: um movimento revolucionário, uma manifestação, uma palavra de ordem capaz de mover multidões. T-Rorista apresenta oito t-shirts que juntas em grupos de quatro completam a imagem dos regicidas Alfredo Costa e Manuel Buiça. Quer sejam entendidos como assassinos ou como uma espécie de mártires, são figuras incontornáveis quando se fala do inÃcio do fim da monarquia em Portugal e da implantação da República. Numa outra perspetiva, o projeto Retina Urbana (visÃvel na sua totalidade em retinaurbana.blogspot.com), realizado entre maio e junho de 2008, é recuperado e apresentado através de uma seleção de três pequenos vÃdeos que mostram o olhar do que poderia ser um flâneur do séc. XXI na cidade de Lisboa. Apenas a indicação do nome do artista separa as montras de Primavera Rara das montras das lojas em funcionamento. As obras são apresentadas sem tabela e a exposição não tem um manifesto. Esta estratégia de apresentação montada no Palladium é curiosa porque parece pretender dar voz exclusiva aos artistas partindo da velha máxima que defende que uma imagem vale mil palavras. Aqui, não se pretende fazer uma leitura centralizadora e convergente das peças através de um denominador comum ou de uma multiplicidade de perspetivas sobre o mesmo objeto. Aqui, não é proposto um diálogo, mas sim, uma série de monólogos. E é aqui, que pode surgir a pergunta: onde está o curador? E essa é a questão: não há curador. Essa é a ideia. Ponto. Se os artistas querem vender, precisam de feiras de arte. Não de conceitos. A figura do curador tem sido, ciclicamente, posta em causa no mundo da arte e as mudanças que o sector cultural, nomeadamente, os museus e galerias, têm tido, sobretudo nas duas últimas décadas, tornaram esta figura, em tempos mais discreta, numa figura cada vez mais debatida, também porque se tornou, mais visÃvel, democrática e cada vez mais abrangente. Assim como se fala de uma democratização do papel do artista e da arte, podemos assumir uma situação similar em relação ao papel do curador. Com a crescente participação de museus e galerias no mundo digital e nas redes sociais, onde o público já não é um mero receptor, mas, mais do que nunca, um participante que joga de igual para igual, o espaço de exposição também se vai (lentamente) alterando. A curadoria, no sentido mais tradicional parece, cada vez mais, perder terreno. O curador tem de pensar não só na exposição, nas obras e no contexto em que as mostra, mas também na forma como ela vai ser recebida, na experiência que quer criar e que tipo de mecanismos considera mais eficazes para chegar mais perto do visitante. Com a crise financeira que se atravessa internacionalmente, a questão dos números (refiro-me não aos orçamentos que são obviamente afetados, mas ao número de visitantes) é imperativa. O primeiro dado usado para justificar o que se gasta a produzir uma exposição, é o número de visitantes, por isso, o curador tem obrigatoriamente de se coordenar com o departamento de públicos (ou serviço educativo), para além dos outros departamentos com os quais já trabalha tradicionalmente. Hoje, no Brooklyn Museum, por exemplo, o curador da exposição interage com os visitantes “diretamente†perguntando-lhes se concordam com determinadas escolhas que possam ser mais polémicas, através de dispositivos que permitem uma participação em tempo real e partilhada, promovendo um debate aberto com o público. Será que o curador está a morrer ou está a evoluir? O papel do curador é agora descentralizar o poder, colaborar e sobretudo inovar, acompanhando as novas tecnologias e o mundo digital. Até porque hoje, em certa medida, todos somos curadores; há quem defenda que basta ter uma conta no facebook para se ter a experiência do que é ser curador, um editor, um selecionador de momentos e um criador de experiências. Primavera Rara assume-se como uma mostra de artistas, um conjunto de momentos, sem mediação, sem curadoria, num espaço de exposição que não pretende continuar a ser espaço de exposição: o Centro Comercial Palladium, em Lisboa, onde no próximo dia 6 de junho entre as 18h e as 20h está marcado o último encontro no espaço, antes do final da exposição. PatrÃcia Trindade Curadora Independente Programadora Dig Dig:Exposições Underground de Lisboa ::: Notas [1] Bruce Nauman, interview with Tony Oursler, Please Pay Attention Please: Bruce Nauman’s Words, Janet Kraynak (ed.), 2002,The MIT Press / Cambridge, MA / London, England, 2003 p. 381.
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