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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Marina Abramović, 2014. Fotografia: © Marco Anelli


Marina Abramović, 2014. Fotografia: © Marco Anelli


Marina Abramović, 2014. Fotografia: © Marco Anelli


Marina in front of a window, color photo, natural look – Marina Abramovic, 2013, Brasil. Fotografia: © Marco Anelli


Portrait of Marina Abramović, 2012. Fotografia: © 24 ORE Cultura S.r.l. and © Laura Ferrari Courtesia The Marina Abramović Archives.


Black and white photo, Marina conducting rehearsal for Bolero – Portrait of Marina Abramović, 2013, Paris. Fotografia: © Rahi Rezvani,

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MARINA ABRAMOVIC

512 Hours




SERPENTINE GALLERY
Kensington Gardens
London W2 3XA

21 JUL - 21 JUL 2014


Antes de entrarmos na Serpentine Gallery para ver a performance de Marina Abramovic, temos de deixar numa zona de cacifos tudo o que nos situa e preenche: relógios, smartphones ou computadores, e aceder despojados ao espaço da performance. Segundo explica Marina num vídeo no site da galeria, entramos sem nada e algo pode ou não acontecer. A artista pode ter sucesso ou pode falhar em proporcionar-nos esta viagem. Podemos ficar o tempo que quisermos e podemos sair e voltar depois de passarmos novamente pela fila (que não é tão comprida como seria de esperar).

O site da Serpentine chama-lhe “New Durational Performance by Marina Abramovicâ€, estratégia de comunicação que nos remete para a capacidade de Marina repetir o acto performático durante dias e semanas, como aconteceu recentemente na retrospectiva sobre a sua obra “The Artist is Present†(2010) no MoMA, onde esteve diariamente e a tempo inteiro durante três meses, naquela que foi a sua mais longa performance a solo.

Marina Abramovic é uma pioneira da arte performativa, tendo iniciado a sua carreira no início dos anos 70, trabalhando sempre com o seu companheiro Ulay de 1975 até à sua separação em 1988 após a travessia da muralha da China em “The Great Wall Walkâ€. Pelo meio criou obras tão impressionantes como “Rhythm 0†(1974) na qual se expôs junto a uma mesa com armas e objectos de tortura ou prazer e autorizou os visitantes a usar os instrumentos no seu corpo como bem entendessem. A performance terminou com uma luta entre os torturadores depois de lhe terem arrancado as roupas e apontado uma arma de fogo à cabeça.

Podemos considerar que 512 Hours se insere neste tipo de performances de estada , onde durante bastante tempo Marina vive praticamente num espaço semipúblico e se entrega a uma espécie de partilha com o público. Por outro lado, há muito tempo que deixou de trabalhar em limites tão arriscados, física e psicologicamente, para o seu próprio corpo. “As obras de (…) Abramovic demonstram que a performance ao vivo possui o poder de veicular camadas múltiplas de sentido e história, provocando simultaneamente respostas intensas e viscerais.†[1]

Nesta apresentação Marina deixou de trabalhar sobre os limites do seu próprio corpo. Se pensarmos na quantidade de cirurgias plásticas a que se submeteu e na vaidade de que tem sido vítima, podemos até pensar que há muito tempo que Marina não trabalha sobre esses limites, mas antes sobre uma imagem que ela criou com a ajuda dos media. Mas aqui, a artista substituiu o seu corpo pelo do outro. Somos nós, espectadores, a matéria da sua obra. São os nossos limites e resistência emocional aquilo que ela experimenta: a resistência ao desconhecido e o medo de nos desligarmos do real e do palpável.

Podemos dizer que a Performance de Marina tem como princípio metodológico a meditação. A meditação que nos permite entrar em contacto connosco próprios e que nos obriga a parar nem que seja por um momento o terrível fluxo da vida urbana. Naquele espaço estamos num colectivo, mas um colectivo silencioso. Em três salas, Marina explora diferentes abordagens ao método meditativo e à capacidade que temos de nos abandonar no espaço e no tempo. Na primeira sala deparamos com uma estrutura de madeira (palco) em formato de cruz. Nas extremidades dessa cruz, existem cadeiras com auscultadores. O público tem dois tipos de fruição possível, sentar-se nas cadeiras ou ser levado para o centro do palco por uma espécie de acólitos da artista a quem ela se dirige antes de eles escolherem uma pessoa. Quando saem, dizem ao espectador agora tornado actor, para se concentrar na respiração e usufruir o momento de nada fazer. Podemos ficar o tempo que quisermos.

Na sala da esquerda, emprestam-nos vendas para que experimentemos andar pela sala percorrer o espaço de olhos vendados. Há quem se cole às paredes e quem vagueie pelo centro da sala. Na sala da direita há cadeiras com auscultadores e panos grandes para nos embrulharmos. Nos auscultadores, que abafam o ruído exterior, temos silêncio. Subitamente ouvimos bichanar no nosso ouvido esquerdo e somos tomados pela sensação de estarmos a ser sugestionados por toda uma experiência pseudo-metafísica, pois os auscultadores nem sequer têm fios. Ao mesmo tempo, a insistência do sussurro faz-nos pensar no fascínio do efeito que causa O bichanar pára, abrimos os olhos e olhamos para o lado e Marina está a falar ao ouvido de um visitante com auscultadores postos.

Marina Abramovic perdeu o discurso feminista e violento característico do seu trabalho, e que partilhava com artistas como Gina Pane, e que Craig Owens [2] considera típico do pós-modernismo que tende a permitir discursos anteriormente reprimidos, como o discurso artístico feminista (e feminino): agora, as obras de Abramovic reflectem principalmente o efeito que a artista tem ou quer ter sobre os espectadores. Estão mais próximas de uma performance teatral do que das performances violentas, críticas e efectivamente pós-modernistas das décadas anteriores. Ela é ainda assim uma artista capaz de nos infligir desconforto e de nos obrigar a pensar um pouco mais além.




Bárbara Valentina



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Notas

[1] Goldberg, RoseLee, A Arte da Performance: do Futurismo ao Presente. Lisboa: Orfeu Negro, 2012, 2ª Edição, p. 292


[2] Foster, Hal, The Anti-Aesthetic, Essays on Postmodern Culture. Nova Iorque , The New Press, 1998




Bárbara Valentina