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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Trees, 2014, vinil insuflado na Escalier d’Honneur (entrada da exposição).


Chocolate Factory, 2014, no Salon Dupré (sala 1).


Vista da Chocolate Factory. Sala 1.


Vista aérea da Chocolate Factory. Cenário de cinema em contraplacado, linóleo, pintura.


Santa, 2014. 70% chocolate carupano.


Tree, 2014. 70% chocolate carupano.


Vista da exposição. Sala 2. Projecção do vídeo Dreamscape, 2014.


Vista da exposição. Sala 5.


Vista da exposição. Sala 3.

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PAUL MCCARTHY

CHOCOLATE FACTORY




MONNAIE DE PARIS
11 Quai de Conti
75006 Paris

25 OUT - 04 JAN 2015


A Monnaie de Paris acolhe presentemente a exposição Chocolate Factory de Paul McCarthy, que durará até dia 4 de Janeiro. A mostra é, por um lado, a primeira exposição de arte contemporânea da “casa da moeda” francesa, no quadro de uma reestruturação do seu programa cultural, e por outro, a primeira vez que McCarthy expõe na capital.

O projecto Factory transforma o espaço expositivo numa fábrica de chocolate, no sentido mais literal destas palavras, mas não se circunscreve exclusivamente à mostra na Monnaie. Devem ainda ser mencionadas duas intervenções de McCarthy no espaço público: primeiramente, uma fotografia da obra Santa, um pequeno Pai Natal em chocolate envergando um sex toy, foi apresentada em centenas de MUPIs nas ruas de Paris; em segundo lugar, a já muito falada escultura insuflável Tree foi instalada na Place Vendôme, no contexto da Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC) da cidade. Tree (2014) é o resultado do cruzamento entre a árvore de Natal e o Butt Plug, ascendendo aos 23 metros de altura. A forma (para lá de) sugestiva da peça e a sua localização numa praça de grande importância histórica para a cidade são factores que incomodaram grandemente o público francês: muitas vozes se levantaram em ultraje e a obras foi vandalizada e destruída. A organização da FIAC, com acordo do artista, decidiu não repor a obra, mas McCarthy teve ainda tempo de se servir da sua própria exposição na Monnaie para responder ao público francês.

O artista californiano é já sobejamente conhecido pela apropriação irónica de ícones populares da sociedade de consumo, tais como Pinóquio, Popeye e Olívia Palito e Heidi (uma instalação de vídeo em 1992). Na exposição parisiense explora-se e multiplica-se o potencial simbólico do “Pai Natal”, cujo fácies se aproxima do de McCarthy, do pinheiro, representado como objecto fálico, e do chocolate, usado na época natalícia como prenda, é aqui o subproduto de uma linha de montagem sem alma, substância suja, impura, quase comparável ao excremento.

Não é também a primeira vez que McCarthy se debruça sobre a produção de chocolate. A ideia data da Expo 2000 em Hanôver, em que o californiano expõe o gigante Chocolate Blockhead, escultura insuflável de 35 metros de altura de um Pinóquio em chocolate. No entanto a premissa inicial do projecto, perceptível nos primeiros estudos feitos pelo artista, era a criação de uma chocolate factory para a feira internacional [1]. Antes de ser realizada em Paris, a factory ganha pela primeira vez corpo em Nova Iorque, na galeria Maccarone, em Novembro e Dezembro 2007 [2]. A proposta apresentada pela Monnaie expande em muitas direcções o conceito nova-iorquino.

A entrada na exposição faz-se pela escadaria principal da Monnaie. No vazio da escalier d’honneur, enquanto subimos para o piso superior, somos surpreendidos pela floresta de Trees e Plugs que parecem suspensos do tecto. As estruturas fálicas, cujas alturas variam entre os 4 e os 8 metros, contrastam com a decoração neoclássica do interior do edifício. Esta oposição acompanha-nos ao longo de toda a mostra: o universo critico e tenebroso e McCarthy não poderia ser mais antitético da elegância e leveza da arquitectura de finais de século XVIII de Jacques Denis-Antoine.

A verdadeira fábrica acolhe o visitante na primeira sala expositiva. Ao penetrarmos no espaço os nossos sentido são despertados: ruídos de motores, chiar de máquinas e o odor a chocolate, a única nota de doçura que é oferta a visitante. A arquitectura que acolhe a factory, de contraplacado e aço, é um cenário de estúdio de cinema, desalojado por McCarthy. No interior, vários performers, vestidos de vermelho e cobertos de perucas louras, cumprem as directivas do encenador: mexem chocolate derretido, colocam-no nos moldes, armazenam o resultado final, arrumam, limpam. Todas estas acções são levadas a cabo de forma a sublinhar o carácter mecânico e repetitivo da produção fabril. Não é permitido ao público entrar na factory. Podemos apenas circular em torno dela e espreitar pelas aberturas cénicas nas paredes de madeira, que nos deixam vislumbrar os actores e as máquinas, mas nunca ter uma total percepção do espaço. Esta barreira visual destabiliza. O sentido através do qual reunimos mais informações é de facto a audição.

Saindo o salão principal, o percurso do visitante está traçado, numa sucessão de sete salas, que somos obrigados a seguir. Estes espaços são a continuação da fábrica: linhas de montagem e espaços de armazenamento. O barulho intenso e o cheiro a chocolate mantêm-se e acompanham-nos até à saída do espaço expositivo, fronteira com a realidade quotidiana.

Em todas as salas encontramos escaparates que armazenam o chocolate produzido diariamente pelos performers. As esculturas comestíveis podem também ser compradas pelo visitante à saída, incluindo-o assim na performance, fazendo dele o último interveniente neste sistema de produção encenado, o consumidor.

Os pequenos Santa-Claus et Trees multiplicam-se nas prateleiras. O chocolate já solidificado parece escorrer para o chão. Há baldes e alguidares abadonados pelos performers no chão, prontos para a qualquer momento serem de novo parte activa do processo de produção.

Apesar desta mise en scène, o elemento definidor da segunda parte expositiva é a vídeo-instalação que passa em loop em todas as divisões. A peça hoje exposta não fazia parte do projecto inicial da exposição: Chocolate Factory previa originalmente uma vídeo instalação, de nome Dreamscape, que exploraria a noção de inconsciente, lugar de perda do “eu”, como contra-ponto ao ritmo desenfreado e desumano da fábrica [3]. No seguimento da vandalização da escultura Tree na Place Vendome, Paul McCarthy toma a decisão de alterar o vídeo, substituindo o previsto por um outro, respondendo assim directamente aos recentes acontecimentos [4].

Podemos então ver a mão de McCarthy que escreve freneticamente em folhas de papel branco. O artista repete as palavras e lê-as enquanto o faz. Ele arrasta a voz, entre grunhidos e gemidos, claramente citando as acusações que lhe haviam sido dirigidas previamente pelos detractores de Tree: “stupid american”, “fucking american” e “Are you the artist?”. As folhas sobre as quais são escritas estas palavras no vídeo estão expostas em todas as salas, coladas às paredes por fita-cola castanha.

Se a temática do vídeo não se prende exclusivamente com os temas abordados em Chocolate Factory, o carácter repetitivos das acções foi mantido, articulando-se assim com o restante material exposto.
O vídeo é projectado nas paredes e nos tectos. As janelas foram cobertas de espelhos, de forma a reflectirem também a projecção. A imagem e o som são de extrema violência: a velocidade da escrita, a agressividade implícita no comportamento animalesco do artista e o carácter sexual dos sons produzidos são aqui um discurso dirigido directamente ao público francês. McCarthy parece dizer: continuar a provocar, desafiar e testar limites do socialmente aceitável enquanto a recepção da sua obra e a censura sobre a mesma assim o justificarem.

Chocolate Factory situa-se entre a exposição e a instalação. Se por um lado verificamos a exposição de diferentes obras, elas são dispostas de forma a criar uma realidade paralela em que nos submergimos. Esta mostra estimula os sentidos, sente-se experimenta-se.

Uma vez mais McCarthy utiliza as referências que nos são mais confortáveis, nomeadamente a época natalícia, subvertendo-as e mostrando-as sob a luz da ironia e da farsa. A experiência é intensa e pretende pôr à prova preconceitos e medir o pulso aos mais sensíveis. À saída deste universo fabril criado pelo artista, deixando para trás o barulho ensurdecedor e a violência implícita, o alívio abate-se sobre nós.

 

 

Margarida Mafra

Licenciada em História da Arte pela FCSH e mestre em Museologia e História da Arte Contemporânea pela École du Louvre, Paris.

 


:::

Notas

[1] Block Head and Daddies Bighead, Paul McCarthy at Tate Modern, Tate Modern, Londres: 2003.
[2] http://www.wmagazine.com/culture/art-and-design/2007/11/paul_mccarthy/ [consultado a 09/11/2014]
[3] Folheto da exposição.
[4] Informação cedida pelos mediadores em sala.



Margarida Mafra