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PAUL MCCARTHYCHOCOLATE FACTORYMONNAIE DE PARIS 11 Quai de Conti 75006 Paris 25 OUT - 04 JAN 2015 A Monnaie de Paris acolhe presentemente a exposição Chocolate Factory de Paul McCarthy, que durará até dia 4 de Janeiro. A mostra é, por um lado, a primeira exposição de arte contemporânea da “casa da moeda” francesa, no quadro de uma reestruturação do seu programa cultural, e por outro, a primeira vez que McCarthy expõe na capital. O projecto Factory transforma o espaço expositivo numa fábrica de chocolate, no sentido mais literal destas palavras, mas não se circunscreve exclusivamente à mostra na Monnaie. Devem ainda ser mencionadas duas intervenções de McCarthy no espaço público: primeiramente, uma fotografia da obra Santa, um pequeno Pai Natal em chocolate envergando um sex toy, foi apresentada em centenas de MUPIs nas ruas de Paris; em segundo lugar, a já muito falada escultura insuflável Tree foi instalada na Place Vendôme, no contexto da Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC) da cidade. Tree (2014) é o resultado do cruzamento entre a árvore de Natal e o Butt Plug, ascendendo aos 23 metros de altura. A forma (para lá de) sugestiva da peça e a sua localização numa praça de grande importância histórica para a cidade são factores que incomodaram grandemente o público francês: muitas vozes se levantaram em ultraje e a obras foi vandalizada e destruída. A organização da FIAC, com acordo do artista, decidiu não repor a obra, mas McCarthy teve ainda tempo de se servir da sua própria exposição na Monnaie para responder ao público francês. Não é também a primeira vez que McCarthy se debruça sobre a produção de chocolate. A ideia data da Expo 2000 em Hanôver, em que o californiano expõe o gigante Chocolate Blockhead, escultura insuflável de 35 metros de altura de um Pinóquio em chocolate. No entanto a premissa inicial do projecto, perceptível nos primeiros estudos feitos pelo artista, era a criação de uma chocolate factory para a feira internacional [1]. Antes de ser realizada em Paris, a factory ganha pela primeira vez corpo em Nova Iorque, na galeria Maccarone, em Novembro e Dezembro 2007 [2]. A proposta apresentada pela Monnaie expande em muitas direcções o conceito nova-iorquino. A entrada na exposição faz-se pela escadaria principal da Monnaie. No vazio da escalier d’honneur, enquanto subimos para o piso superior, somos surpreendidos pela floresta de Trees e Plugs que parecem suspensos do tecto. As estruturas fálicas, cujas alturas variam entre os 4 e os 8 metros, contrastam com a decoração neoclássica do interior do edifício. Esta oposição acompanha-nos ao longo de toda a mostra: o universo critico e tenebroso e McCarthy não poderia ser mais antitético da elegância e leveza da arquitectura de finais de século XVIII de Jacques Denis-Antoine. A verdadeira fábrica acolhe o visitante na primeira sala expositiva. Ao penetrarmos no espaço os nossos sentido são despertados: ruídos de motores, chiar de máquinas e o odor a chocolate, a única nota de doçura que é oferta a visitante. A arquitectura que acolhe a factory, de contraplacado e aço, é um cenário de estúdio de cinema, desalojado por McCarthy. No interior, vários performers, vestidos de vermelho e cobertos de perucas louras, cumprem as directivas do encenador: mexem chocolate derretido, colocam-no nos moldes, armazenam o resultado final, arrumam, limpam. Todas estas acções são levadas a cabo de forma a sublinhar o carácter mecânico e repetitivo da produção fabril. Não é permitido ao público entrar na factory. Podemos apenas circular em torno dela e espreitar pelas aberturas cénicas nas paredes de madeira, que nos deixam vislumbrar os actores e as máquinas, mas nunca ter uma total percepção do espaço. Esta barreira visual destabiliza. O sentido através do qual reunimos mais informações é de facto a audição. Em todas as salas encontramos escaparates que armazenam o chocolate produzido diariamente pelos performers. As esculturas comestíveis podem também ser compradas pelo visitante à saída, incluindo-o assim na performance, fazendo dele o último interveniente neste sistema de produção encenado, o consumidor. Apesar desta mise en scène, o elemento definidor da segunda parte expositiva é a vídeo-instalação que passa em loop em todas as divisões. A peça hoje exposta não fazia parte do projecto inicial da exposição: Chocolate Factory previa originalmente uma vídeo instalação, de nome Dreamscape, que exploraria a noção de inconsciente, lugar de perda do “eu”, como contra-ponto ao ritmo desenfreado e desumano da fábrica [3]. No seguimento da vandalização da escultura Tree na Place Vendome, Paul McCarthy toma a decisão de alterar o vídeo, substituindo o previsto por um outro, respondendo assim directamente aos recentes acontecimentos [4]. Podemos então ver a mão de McCarthy que escreve freneticamente em folhas de papel branco. O artista repete as palavras e lê-as enquanto o faz. Ele arrasta a voz, entre grunhidos e gemidos, claramente citando as acusações que lhe haviam sido dirigidas previamente pelos detractores de Tree: “stupid american”, “fucking american” e “Are you the artist?”. As folhas sobre as quais são escritas estas palavras no vídeo estão expostas em todas as salas, coladas às paredes por fita-cola castanha. Se a temática do vídeo não se prende exclusivamente com os temas abordados em Chocolate Factory, o carácter repetitivos das acções foi mantido, articulando-se assim com o restante material exposto. Chocolate Factory situa-se entre a exposição e a instalação. Se por um lado verificamos a exposição de diferentes obras, elas são dispostas de forma a criar uma realidade paralela em que nos submergimos. Esta mostra estimula os sentidos, sente-se experimenta-se. Uma vez mais McCarthy utiliza as referências que nos são mais confortáveis, nomeadamente a época natalícia, subvertendo-as e mostrando-as sob a luz da ironia e da farsa. A experiência é intensa e pretende pôr à prova preconceitos e medir o pulso aos mais sensíveis. À saída deste universo fabril criado pelo artista, deixando para trás o barulho ensurdecedor e a violência implícita, o alívio abate-se sobre nós.
Margarida Mafra Licenciada em História da Arte pela FCSH e mestre em Museologia e História da Arte Contemporânea pela École du Louvre, Paris.
Notas [1] Block Head and Daddies Bighead, Paul McCarthy at Tate Modern, Tate Modern, Londres: 2003.
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