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MONIKA SOSNOWSKAMONIKA SOSNOWSKA: ARCHITECTONISATIONMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 09 MAR - 09 MAR 2015 A Arquitectonização segundo Monika Sosnowska
Suzanne Cotter, Directora do Museu de Serralves, in Jornal de Serralves (27 de Fevereiro de 2015)
O Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves acolhe a primeira exposição em Portugal de Monika Sosnowska, nascida em 1972 na Polónia e que vive e trabalha actualmente na cidade de Varsóvia. “Arquitectonização” (o título alude às experiências espaciais criadas pelo pintor Wladyslaw Strzemiski e pelo escultor Katarzyna Kobro, principais referências do chamado modernismo utópico na Polónia, que contribuíram para a formulação deste termo em 1931) dialoga com a arquitectura de Álvaro Siza projectada para este espaço e pretende fundir a linguagem da arquitectura com a gramática da escultura enquanto formas expressivas, elaborando “(…) estruturas em aço retorcidas e comprimidas e móveis outrora funcionais dobrados numa tensão burlesca (…)”, obras monumentais inspiradas em formas de edifícios, mas também propostas espaciais em menor escala, valorizando o detalhe e a singularidade, que no seu conjunto visam, por um lado, reflectir sobre a matéria do tempo e da memória com base na noção de colapso e fragmento, e por outro, a partir dos seus múltiplos corredores e geografias labirínticas, inscrever soluções visuais alternativas, entre o real e o ilusório.
No átrio encontramos Façade (Fachada), escultura realizada em 2013, que sublinha o contraste entre a fragilidade suspensa e a dureza intrínseca. Fundamentando-se nas fachadas dos modernos edifícios polacos dos anos 60 e na própria arquitectura modernista dos inícios do século XX, este trabalho de Sosnowska convoca o passado de uma perspectiva arquitectónica e, simultaneamente, prenuncia o seu desaparecimento gradual. Diga-se, a título de exemplo, que a arquitectura na actual Polónia tem investido na construção de edifícios contemporâneos que rompem com o modelo modernista e com seu legado comunista.
Já no interior do museu, na primeira galeria, Stairway (Escadas), criada em 2010 para o Museu de Arte Contemporânea de Herzliya, em Israel, aquando de uma visita da autora a Telavive na qual fotografou, no Museu da História, uma escada de emergência, com as suas linhas deformadas e oscilantes, confronta-nos com a sua enormidade e autoridade física, estando os seus elementos torcidos e amolecidos, no fundo a representação de uma escada em caracol, afastada do seu contexto original e, portanto, desfuncionalizada, cujos degraus servem para ligar a Terra ao Céu, ou se quisermos, o chão ao tecto.
Hole (Buraco) apresenta-se na segunda galeria do museu como uma peça que invoca a ruína, a deterioração e a passagem do tempo como temas omnipresentes. Uma fenda abre-se no tecto e o respectivo entulho espalha-se no pavimento, traduzindo a ideia de desgaste e de ferimento aberto. Esta intervenção escultórica pode igualmente ter uma leitura política, a de derrocada ou colapso de um regime que urge ser transformado num sistema renovado e livre. A metáfora da transição é pois determinante para se pensar não só este trabalho, mas toda a obra de Monika Sosnowska.
Na terceira galeria observamos Market (Mercado), conjunto de oito esculturas em aço pintado recriadas com base no mercado Jarmark Europa, localizado em Varsóvia, construído por uma pequena comunidade vietnamita que, nos anos 90, após a implosão dos regimes comunistas europeus, se estabeleceram no perímetro do Estádio Nacional de Varsóvia, edificado durante o período socialista. Em 2010, já perto da realização do EURO 2012, o estádio acaba por ser demolido, sendo substituído por um novo recinto, o que implica a deslocação de muitos comerciantes para zonas periféricas da cidade. As estruturas do mercado surgem distorcidas e deformadas (à imagem de outras peças), como se tivessem sido redesenhadas, sugerindo a possibilidade de abandono, fuga ou dispersão.
Finalmente, faço menção à Entrance (Entrada) instalada na sétima galeria, um pequeno mas quase alucinatório corredor separado por um conjunto de seis portas duplas com a capacidade para acolher uma só pessoa destinada a experimentar uma sensação de reclusão e não-progressão, ilógica e kafkiana, influenciada pela arquitectura praticada na Polónia na segunda metade do século XX, mas que também dialogam com a decoração tipicamente portuguesa dos anos 70.
A exposição Monika Sosnowska: Arquitectonização, está patente até ao dia 31 de Maio no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. A curadoria está a cargo de Suzanne Cotter.
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