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CHRISTIAN MARCLAYTHE CLOCKMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 05 MAR - 19 ABR 2015 O que distingue uma obra cinematográfica de uma instalação vídeo? Não é o suporte, nem a utilização de material de arquivo, tão comum em documentários; será a duração? Se este factor não é por si suficiente para fazer essa distinção, é sem dúvida um elemento a ter em conta. Jacques Aumont [1] considera (baseando-se em outros autores) que o cinema tem dispositivos formais próprios que permitem ao espectador concluir que está a ver um filme; nomeadamente os pontos de vista da câmara ou a narrativa. O que dizer então de uma obra que têm inúmeros registos de diferentes pontos de vista ou reune variadas narrativas? The Clock (2010) tem a duração de 24 horas em tempo real e a sua exibição em sala de cinema comercial é, se não impossível, de uma complexidade tão grande que dificilmente um distribuidor teria tamanha ousadia. Mesmo a sua apresentação em galerias de arte ou museus, sempre mais permissivos com os limites dos objectos artísticos que exibem, não é de todo fácil. Esta obra tem uma componente informática que lhe permite estar sempre certa com as horas reais da cidade onde está a ser exposta (tem cinco cópias em distribuição de um total de seis, cada uma estará certa com o seu local de exibição). Todo o filme é como se fosse um relógio em si mesmo: estamos sempre a vê-los dar horas ou personagens a observá-los sejam de parede ou de pulso ou até de bolso. O trabalho de montagem é exímio e cria continuidade através dos diferentes filmes, jogando com a nossa “suspension of disbelief”, mesmo se sabemos o que estamos a ver. As imagens não são manipuladas, mas o som é. A montagem sonora cria uma linha narrativa contínua, subvertendo o som do material original e alterando muitas vezes o sentido do excerto que estamos a ver, num processo de apropriação cheio de humor e ironia. Os excertos têm frequentemente pouca resolução, mas tal como nos abstraímos dos relógios e da contagem obsessiva do tempo, também nos abstraímos da qualidade física da imagem. Num texto publicado no Público de 6 de Março, dá-se conta de todo o processo: a recolha de material foi efectuada através da internet; Marclay acredita que não é necessário pedir os direitos de autor das imagens, pois os detentores desses direitos só se insurgem se a obra onde são incluídas as imagens for de alguma forma ofensiva e não tiver qualidade. Falta mencionar que a ser feito o pedido de direitos, o eventual pagamento pela cedência de tamanha quantidade de imagens certamente impossibilitaria a existência da obra (mesmo que houvesse lugar a cedências gratuitas e a imagens já no domínio público). Claro que é mais fácil e menos oneroso retirar as obras da internet, mesmo com pouco resolução do que pagar os direitos e passar por todos os trâmites burocráticos. Afinal, na era do HD e da hiper definição, que charme tem uma imagem com grão. Os excertos dos filmes contidos em The Clock são de variadas origens e com diferentes durações, e voltamos ao mesmo filme sempre que o artista o entende. Há sequências temáticas em diferentes fragmentos como por exemplo por volta das 16h30 vários filmes mostram personagens femininas a retocar a maquilhagem e a pôr perfume, seguido de uma sucessão de filmes de guerra. Existe em toda a obra um aumento da tensão ao aproximar da hora certa e uma descompressão imediatamente após, o que cria picos que guiam emocionalmente o espectador, jogando com o desfecho, que dificilmente veremos, mas pelo qual ansiamos. Aqui Marclay maneja muito bem as questões que já Jauss levanta na sua obra “Literatura como Provocação à Teoria Literária” [2] e que seria a obra base da estética da recepção: de que o espectador leva para a sua interpretação da obra (ou o seu visionamento neste caso) o seu horizonte histórico de expectativas. Também Aumont foca esta questão chamando-lhe sistema de expectativas. Ora aqui o nosso horizonte de expectativas não é o conhecimento do mundo, mas sim o conhecimento efectivo que temos de determinadas obras com que Marclay nos confronta e com cujos reenquadramentos narrativos nos espanta ou frustra. Sente-se aliás algumas agitações entre os expectadores durante este ou aquele trecho, indicando as diferentes afinidades de cada um. Marclay assume as diferenças entre filmes como apenas um apontamento transversal ao processos de montagem cinematográfico. Segundo Gilles Deleuze [3], é a montagem que transforma a imagem-movimento em imagem-tempo. É à montagem que incumbe determinar a duração. Ela dá uma imagem indirecta do tempo. É a determinação do Todo, da Ideia. The Clock é uma homenagem ao processo de montagem e por isso ao cinema. Não porque seja uma obra erudita na sua assumpção de cinematografia, mas sim porque replica um dos trabalhos mais emocionantes de um filme, a sua última escrita, a montagem. O trabalho de Marclay é como um puzzle, montando as peças, experimentando a ver se encaixam. Casablanca pode estar a seguir ao Regresso ao Futuro, porque para Marclay mais do que filmes, são matéria. São como papéis que ele recorta e cola como lhe apraz. Como diz Helmut Lang na Artforum de Janeiro “There is no reason to be blocked by material.”
::: Notas [1] Aumont, Jacques, A Imagem. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2011, 3ª Edição, pag.71
[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]
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