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FRANCISCO TROPAPROTÓTIPOSGALERIA QUADRADO AZUL (NOVO ESPAÇO EM LISBOA) Rua Reinaldo Ferreira, nº 20-A, em Alvalade. 1700-323 Lisboa 13 FEV - 18 ABR 2015
“Protótipos” dá nome à exposição que Francisco Tropa apresenta na galeria Quadrado Azul, em Lisboa, com curadoria de Simone Menegoi. A exposição reúne uma diversidade de obras do artista, realizadas entre 1991 e 2015, desvelando uma ideia que de imediato compreendemos como ponto convergente do seu percurso. O objecto enquanto jogo, o objecto que falha a sua funcionalidade, o objecto enquanto presença partilhada com a nossa. Talvez estejamos perante a busca por uma fórmula, no entanto, o que importa aqui é a existência pueril desses objectos antes do nosso entendimento as resgatar e lhes impor uma ordem demasiado humana para os deixar intactos. A relação do Homem com os objectos foi sempre ditada pela imposição de uma métrica ou de uma funcionalidade tendencialmente aperfeiçoada. No entanto, ao evidenciar a falha – ou a inutilidade – dessa categorização, Tropa não incorre numa crítica mas sim num desvio que culmina na ligação primordial e derradeira que estabelecemos com o mundo e com os seus objectos: a contemplação. Algumas das obras de “Protótipos” parecem questionar a própria funcionalidade do objecto, não ao averiguar se esta é falhada ou bem-sucedida, mas construindo uma caricatura do próprio uso que damos a esse mesmo objecto. “Placas Solares” (1992), “Filtro” (1991) e “Pó Doméstico” (1991) são exemplos desse questionamento, ao abrigar a falha ou a inutilidade como parte integrante do mecanismo desses objectos. O milenar problema da mimesis marca também a sua presença, numa abordagem que torna manifesto o eco de Marcel Duchamp no percurso artístico de Tropa. “Tomada” (2015), “Interruptor” (2015) e “Enxada” (2007) são réplicas desses objectos, primariamente ligados a gestos repetidos no quotidiano ou ao labor, e cuja natureza estética parece ser aqui sublinhada – não sem uma certa ironia – pela escolha do bronze como matéria para lhes dar forma. “Na Natureza nada é inútil, nem mesmo a inutilidade.” É Montaigne que o afirma, mas a mesma ideia está contida em cada uma das peças de Tropa. A exploração das diversas relações que podemos estabelecer com um objecto parece anunciar já a puramente estética como o único modo de estar entre esses objectos. “Não há nem imitação nem figuração na natureza, pois a natureza é – como nos mostra a arte – figurativa e abstracta ao mesmo tempo” [2]. Só a contemplação abriga o erro, o desvio, o disfuncional, a desmesura que falha a qualquer tentativa de medição ou quantificação. “Protótipos” apresenta-nos “um conjunto de instrumentos-obras que condizem com o que Vladimir Nabokov apontava como a suprema ambição do escritor: a de combinar “a precisão do poeta com a imaginação do cientista”.” [3] Em “Templo das Alegorias” (2004), observamos uma lata de salsichas suspensa no centro de uma estrutura metálica triangular; é-nos indicado que, para que o “instrumento de comunicação” funcione, o relógio de um familiar falecido deve ser colocado na lata. Um misticismo poético que, aliado ao rigor do inventor de laboratório, parece servir um propósito um tanto obscuro: o de encontrar as respostas erradas para as perguntas que nos ensinaram a calar. Falhando a equação, a fertilidade do equívoco – e o espanto que com ele nos assola – torna-se alicerce de toda a criação.
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