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NÁDIA DUVALLVISGRAATGALERIA ANTÓNIO PRATES Rua Alexandre Herculano, 39A 1250-009 Lisboa 11 ABR - 08 ABR 2015
A performance tem uma longa história que antecede o seu reconhecimento nos anos 70 como um meio de expressão artística legítimo. Na sua origem está a necessidade de revolucionar o meio artístico rompendo com os cânones de representação nas diferentes épocas em que foi sendo utilizada: “A história da performance no século XX é a história de um meio de expressão maleável e indeterminado, com infinitas variáveis, praticado por artistas insatisfeitos com as limitações das formas mais estabelecidas e decididos a pôr a sua arte em contacto com o Público. Por esse motivo, sempre teve uma base anárquica.”[1] Esta foi também a atitude de todos os movimentos das vanguardas. Claro que nos nossos dias qualquer museu que se preze tem um departamento dedicado à arte da performance, mesmo se em tempos antigos eram eles os grandes visados deste tipo de arte.
São raros os artistas portugueses que trabalham no domínio da performance. Mas de vez em quando aparece um jovem artista que quebra algumas barreiras com o seu trabalho inovador. Não é muito comum e principalmente não é muito visível. Os compradores de arte não estão interessados em comprar obras que não são rentáveis à partida e que nem sequer são fáceis ou agradáveis para ter em casa.
Todo o trabalho de Nádia Duvall, desde os desenhos de diferentes formatos ou sobre diferentes suportes, passando pela sua obra escultórica, é resultado da performance. Não só do ponto de vista conceptual como do ponto de vista da execução.
Visgraat, a sua exposição patente na Galeria António Prates, confirma mais uma vez este processo de trabalho e mostra não só as obras resultantes como toda a metodologia a elas inerente. Podemos ver as obras propriamente ditas, uma delas logo na entrada que pretende desvendar o processo, e podemos ainda observar as ferramentas com que Nádia manipula os materiais, para além de um vídeo que mostra a performance que as originou.
Temos tudo ao nosso alcance para perceber a metodologia da artista, desde o momento em que, dentro de uma piscina, Nádia fabrica as películas de tinta a que chama peles e usa o própria corpo como ferramenta de manipulação e criação de textura, até à obra final em que Nádia simula com um tubo um espécie de coluna vertebral onde estende a pele, numa recriação orgânica do seu próprio corpo sob a película, como se fosse uma memória do processo. Este tubos que vislumbramos por baixo das peles remetem-nos ainda para as escarificações e implantes subcutâneos originários de tribos africanas e asiáticas, o que reforça ainda mais a ideia de um todo de obra profundamente orgânico e visceral.
Em Visgraat, Nádia vai ainda mais longe e na sua pulsão artística usa cortes nesse tubo que nos lembram as telas de Lucio Fontana em que o rasgo simula a acção da mão escultórica no imaculado suporte da pintura. Também as esculturas de Nádia estão penduradas na parede, tendo por base uma placa de acrílico que funciona como substituto da tela.
Nesses rasgos vislumbramos uma mancha de cor, símbolo da acção pictórica. Mas esta mancha não é de uma cor qualquer. É em azul Klein, homenageando um artista (Yves Klein) cujas pinturas eram também resultado de performances e do uso do corpo humano como ferramenta de construção.
Todo o trabalho de Nádia respira inconformismo. Mostra-nos que a artista não se prende a convenções de géneros artísticos ou mediuns preferenciais. As suas ferramentas para manipulação das peles são objectos tão expressivos como as próprias peças e merecem estar expostos não só por mostrarem a técnica utilizada pela artista como pelo valor que têm em si mesmos. Podiam por si só, ser objecto de exposição. A artista mostra carinho quando fala destes seus ajudantes.
Há uma espécie de negritude orgânica no trabalho de Nádia Duvall. Algo que é profundamente visceral e íntimo na forma como a artista aborda os materiais: Visgraat significa em Holandês, espinha de peixe. Uma espinha que se crava na carne e que vem da água. Assim é o trabalho de Nádia Duvall: matéria que se crava na garganta.
Notas
[1] Goldberg, RoseLee, A Arte da Performance: do Futurismo ao Presente. Lisboa: Orfeu Negro, 2012, 2ª Edição, p. 10.
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