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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Retrato de Bruce Nauman, 2009 Photo © Jason Schmidt


Pencil Lift/Mr.Rogers, 2013 Instalação audiovisual: 1 ecrã LED. Pencil Lift, 3’57’’, em loop © Bruce Nauman / ADAGP, Paris 2015 Photo courtesy Sperone Westwater, New York


Pencil Lift/Mr.Rogers, 2013.


Vista da exposição Bruce Nauman, Fondation Cartier pour l’art contemporain, 2015. Photo © Luc Boegly


Large Carousel, 1988. Esboço. Cortesia de Sperone Westwater, New York © Bruce Nauman / ADAGP, Paris 2015


Large Carousel, 1988 Cortesia de Sperone Westwater, New York © Bruce Nauman / ADAGP, Paris 2015


Untitled 1970/2009.


Untitled 1970/2009. Stills do filme © Bruce Nauman/ADAGP, Paris 2015

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BRUCE NAUMAN

BRUCE NAUMAN




FONDATION CARTIER POUR L’ART CONTEMPORAIN
261, Boulevard Raspail
75014 Paris

14 MAR - 21 JUN 2015


O edifício assinado por Jean Nouvel para a Fundação Cartier acolhe um conjunto de sete peças de Nauman, permitindo um diálogo único entre vários momentos do percurso do incontornável artista americano.

Não existindo um planeamento determinado da exposição, cabe ao espectador a gestão da visita composta pelos cinco espaços principais da fundação.

 

Numa primeira sala, a atenção é concentrada sobre um ecrã de quatro metros de altura por catorze metros de largura, no qual um vídeo se repete, dividindo a tela em dois espaços diferentes onde a mesma acção ocorre: o equilíbrio de um lápis aparado dos dois lados, utilizando como suportes as pontas de outros dois lápis, um em cada mão. Se no lado direito a acção é depurada através de um fundo branco, no segundo o gesto é inserido no contexto familiar de Nauman, a sua cozinha onde o seu gato passeia sobre a mesa, sendo que os dedos sujos do artista ameaçam permanentemente uma entrada em cena. Em Pencil Lift/ Mr. Rogers (2013) [nome do gato de Nauman -], a preocupação é de equilibrar o lápis através das pontas de outros lápis, perenizar um equilíbrio intrinsecamente precário, o que se torna, pela escala e relevância desmesurada dos objectos, um desafio e uma causa de ansiedade partilhada e desesperadamente repetitiva.

As mãos e as suas limitações físicas e criativas são um motivo recorrente do artista septuagenário que, retirando as consequências da lição de Duchamp, rapidamente abandonou a pintura como técnica central da sua expressividade. Ainda no rés-do-chão encontramos um segundo espaço que pensa, uma vez mais, a problemática manual. For Children / Pour les enfants (2015) consiste numa gravação, realizada propositadamente para esta exposição, na qual uma voz repete incessantemente o título, sendo que a frase, que poderia representar uma sugestão ou recomendação, se torna progressivamente uma injunção, uma palavra de ordem – tal mutação ocorre, como um automatismo, através do gesto da repetição. A gravação é acompanhada por um desenho em grafite sobre papel – For Children/For Beginners (2009), como se de um quadro de sala de aula se tratasse, sublinhando que o que está em causa é uma problematização da pedagogia, tema igualmente caro a Neuman. A complexificação deste aspecto é sublinhada quando, ao sair para o jardim da Fundação, somos confrontados a uma terceira peça: For Beginners (Instructed Piano) (2010), uma gravação musical do músico Terry Allen, que dá corpo a uma partitura musical de Béla Bartók, adaptada ao pequeno tamanho das mãos das crianças, e cujas regras de execução foram detalhadamente discutidas entre o intérprete e Nauman. As tensões inerentes aos paradoxos do gesto pedagógico são colocadas ainda mais em evidência: submissão e libertação, domesticação e mestria do corpo, aprendizagem e embrutecimento.

 

O andar inferior, privado da luz que invade os outros espaços, torna-se propício ao confronto de instalações realizadas em momentos mais recuados do percurso de Nauman.

Numa primeira sala encontramos, adjacentes, a instalação de vídeo Anthro/Socio (Rinde Facing Camera) (1991) e a máquina motorizada de aço, Carousel (1988). Três videoprojectores, seis monitores e doze colunas de som dominam o espaço com a voz e imagem de Rinde Eckert, performer e cantor lírico que declama, consoante o ecrã, as expressões: Feed Me, Eat Me, Anthropology; Help me, Hurt Me, Sociology; Feed me, Help Me, Eat Me, Hurt Me, variando as tonalidades e intensidades como se de uma composição musical se tratasse. Assim, as durações díspares dos vários vídeos, a vasta amplitude do cantor e a justaposição das várias vozes dão origem a uma melodia sempre variável, que se torna ritual pelo emprego das frases no imperativo, assemelhando-se a um insuportável cântico gregoriano, ao ponto de os supervisores da sala serem obrigados a usar aparelhos de isolamento auditivo. O único escape sonoro provém do ruído dos moldes coloridos de animais embalsamados, arrastados por quatro braços metálicos de um motor num movimento ininterrupto de Carousel (1988).

 

Com a melodia de Anthro/Socio ecoando por todo o edifício como som de maresia asfixiante, somos levados a um último espaço onde uma obra sem título, criada em 1970 para a Bienal de Tóquio e reactivada quase quarenta anos depois para a Bienal de Veneza, absorve uma vez mais todo o espaço arquitectural. Trata-se de uma dupla projecção, onde vemos, a partir de um ângulo de noventa graus, duas dançarinas que rodam sobre os próprios corpos, no sentido dos ponteiros do relógio, tendo como ponto de união as suas mãos e simulando com enorme precisão o mecanismo de medida do tempo. Trata-se de dar literalmente corpo orgânico aos objectos que registam a passagem dessa dimensão incomensurável e imparável que é, inexplicavelmente, o garante da existência. Nauman não deixa de tentar intervir nesse movimento perpétuo, no relógio que constituiu com os corpos que se movem, ao colocar em determinada altura a própria câmara num movimento constante e contrário a essa dança do tempo; assim, as dançarinas aparentam, por momentos, não se movimentar no espaço, como se a suspensão do seu movimento fosse possível, como se fosse possível parar o próprio tempo, quanto mais não seja através de uma ilusão de óptica, ou mesmo uma ilusão conceptual – e não é esse gesto de ilusão voluntária considerado, por muitos, o aspecto que permite atribuir a um gesto uma dimensão/substância artística?

 

 

 


[o autor escreve de acordo com a antiga ortografia]



Jorge Vieira Rodrigues