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CIA. EXCESSOS(TRA)VESTIR UM FA(C)TOESPAÇO MIRA Rua de Miraflor n.º 159 4300-334, Campanhã, Porto 23 MAI - 13 JUN 2015 CIA. EXCESSOS: À DOR, UM EXTRAORDINÃRIO AMOR.
Estrondos de tapas ardidos, sons de beijos incendiados, de gozos excitados, explicitando prazeres intensos, acesos, impetuosos. Ruídos de carros, burburinho de gente, agitação urbana, confusão, muita confusão. Esta é primeira sensação de quem adentra o Espaço MIRA para imergir na cacofonia sonora de (Tra)vestir um Fa(c)to, exposição da Cia. Excessos, de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey.
A tal cacofonia sonora amontoa toda a série de trabalhos de vídeos autônomos que se conectam e formam um único áudio a preencher todo o espaço, algo que as documentações fotográficas e imagens em movimento também fazem, assim como as vidas dos artistas que ali estão expostas em cada uma das suas obras amparadas principalmente pela performance e body art. Tudo está harmonicamente interligado, seja através destes recursos oriundos dos dispositivos apresentados ou pela própria temática proporcionada, os materiais que representam os dois corpos dos artistas e suas subjetividades estão perfeitamente enlaçados, mesclando arte e vida, combinando humor e tragédia, amor e dor.
O enlace matrimonial deste duo, que forma a Cia. Excessos, está profundamente presente na obra que dá título à exposição e que é capaz de bem traduzir a forma como as identidades não são estruturas rígidas e não podem ser definitivas nunca, pois estão em persistente estruturação e nunca são absolutas em uma forma. José Maia – curador que escolheu esta obra como elemento chave da exposição – evidencia terminantemente a sua completa atenção a todo conjunto que ali é oferecido ao público; podemos relacionar cada um dos trabalhos da sala a esta mesma obra de vídeo.
Do primeiro dia, vários espelhos que primeiramente transportavam a função de objeto principal para que acontecesse a performance Reciprocidade Desalmada (2010/2015), agora servem como elemento para que a(o) visitante desta exposição reafirme-se em sua compostura já centrada em padrões ou que aniquile cada uma delas após encontrar iconografias como a série El Minotauro, em que vemos a masculinidade latente de um dos artistas, ou ainda, com o código da feminilidade em forma de indumento sobreposto a um corpo biologicamente masculino munido de pelos, barbas, etc. Os seis espelhos com manchas das bocas que os beijaram durante os incessantes 60 minutos na inauguração da exposição agora servem como objetos para reafirmarmos certos códigos comportamentais ou para repensarmos se os mesmos são simplesmente introjetados mediante a cultura que nos rodeia.
Amparada pelas políticas que circundam a cultura Queer, (Tra)vestir um Fa(c)to é um desejo incorruptível de resistir às imposições culturais dominantes, é uma doce guerra declarada à afeminofobia, à homofobia, à transfobia. É uma guerra que renega armas e balas, é uma guerra que atira desejos e não lança bombas, dedica beijos e não exclui vidas. É uma guerra declarada à uma cultura de condenação das diferenças, a mesma cultura que, patologicamente, dita padrões comportamentais.
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