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SIMON MARTINUR FEELINGCAMDEN ARTS CENTRE Arkwright Road London NW3 6DG 10 ABR - 21 JUN 2015
A obra de Simon Martin revela um intenso fascínio pelo magnetismo dos objectos e da sua relação com a cultura. Este fascínio tem tido diversas manifestações, às quais correspondem diferentes abordagens, sensibilidades, provocações. O trabalho que tem vindo a desenvolver na área da imagem em movimento, é uma das trajetórias em que o seu interesse em explorar as tensões subterrâneas provocadas pela circulação de artefactos culturais questiona de forma mais clara a função “totémica” que alguns objectos assumem na cultura contemporânea.
Estas investigações sobre a natureza das coisas de superfície são centrais na trilogia de trabalhos em vídeo que “UR Feeling” vem agora completar. Em “Carlton” (2006) o fascínio manifestava-se numa estante desenhada pelo grupo Memphis, o grupo fundado em 1981 por Ettore Sottsass e que teve um papel importante na propagação de sensibilidades pós-modernas no design industrial. Tendo como ponto de partida formal uma célebre fotografia da estante, Simon recriou a perspectiva desse momento fundador, para a partir daí esboçar à sua volta um movimento de 360º graus, num elegante tracking shot. A presença da estante multicolorida, que se lança sobre o espaço como as imagens circulam pela memória, sugere uma ligação entre as suas características e as estruturas de sentimento da pós-modernidade, intensificada pelo dispositivo fílmico. “Louis Ghost Chair” (2012) propõe um olhar na direcção de um conjunto variado de objectos, procurando estabelecer um trajeto entre as histórias, ideologias e memórias evocadas pelos seus materiais de construção. A peça central da obra, que dá o título ao vídeo, é uma cadeira produzida em massa por Philippe Starck, uma réplica de uma cadeira de Louis XV fabricada em policarbonato. Em ambas as obras a abordagem à imagem em movimento transcende a lógica da documentação, revelando antes uma acentuada preocupação em investigar a relação do objecto com a sua própria reprodução.
Para a exposição “UR Feeling”, o artista apresenta uma instalação vídeo e um poster. Há um marcado contraste em relação às anteriores obras da trilogia, que nos dá a ver a imensidão do horizonte temático do seu trabalho. Em vez de centrar a sua atenção em objectos, o veículo privilegiado para a transmissão de sensações, afetos e ideias é o corpo de dois performers. Estruturado em torno de 5 segmentos conceptuais – Rising, Falling, River, Corner, Portrait – “Ur Feeling” assenta numa vincada encenação dramática. O corredor que antecede a projecção vídeo, pintado num cinzento-escuro que tinge o ambiente com uma atmosfera espessa e plúmbea, envolve o espectador numa experiência imersiva. Mais à frente, a presença monolítica da projecção domina o espaço expositivo, jogando com a própria natureza arquitetónica da sala em função do uso expressivo de um preto e branco em alta definição. O jogo de luz e sombra que daí resulta sugere uma relação entre o espaço diegético e o lugar do espectador – se no trabalho anterior o que estava em causa era também a dimensão afetiva dos objetos, aqui é o corpo e a sua relação com o mundo sensível que permitem a Martin esboçar os contornos de uma complexa cartografia emocional. Na folha de sala Simon declara que “What I’m after is an emotional, affective landscape. Something as subtle and strong as the weather”. O contraste entre os gestos de cada performer, que variam entre o rígido e angular (masculino), e o ondulante e espontâneo (feminino), assinala a oscilação dessa plasticidade emocional. Não está em causa a ilustração das possibilidades de uma paisagem afetiva, antes o encarnar de ideias, tornando Outra a matéria viva: eis o corpo enquanto objecto.
Nissa Nishikawa e Martin Tomlinson, os dois performers do vídeo, desenvolvem uma coreografia segundo instruções dadas por Simon, que se encontra fora de campo. Butoh, a escola de dança fundada por Hijikata Tatsumi e Kazuo Ohno que tem no corpo sem órgãos de Artaud uma das suas referências conceptuais mais pronunciadas, é aqui a grande alusão - mais do que fazer disso um tema, é a partir da matriz gestual do Butoh que os performers inscrevem o pensamento conceptual que anima a performance. Simon colhe inspiração numa passagem proferida pelo arquiteto Peter Eisenman: “They will feel in the alleyways something, but it’s not quite medieval and it’s not quite modern. It’s something else. In other words, my whole idea of affect is that you experience something, you feel something, you see something, but you can’t quite explain it. It has an Ur-dimension to it… something between understanding and not, let’s say.” Eisenman refere-se aqui a espaços como a área próxima da Catedral de São Paulo, em Londres, que ao longo dos tempos têm sido alterados uma e outra vez, transportando consigo “memórias” e “sensações” de outras épocas. Ur faz ainda referência à antiga cidade da Mesopotâmia com o mesmo nome, onde foi encontrado junto a uma escavação arqueológica aquele que se pensa ser o mais antigo instrumento musical de cordas: a lira de Ur. O som é outra das peças fundamentais para aquele esboço de uma “paisagem afetiva” a que Simon alude. O artista manipula uma gravação do som da lira (reconstruída pelo musicólogo Richard Dumbrill), adornando-a com samples de outras origens, acrescentando-lhe texturas lentas e pesadas que caem sobre as imagens como um manto negro. Em causa, está o circuito subterrâneo de circulação de artefactos fundamentais na caracterização dos seus contextos originais. Às sucessivas mutações e alterações provocadas pelo seu uso, correspondem mudanças mais ou menos radicais na paisagem cultural: da madeira ao policarbonato, da gravação do som de uma reconstrução de um instrumento musical pré-moderno à sua manipulação com ferramentas digitais e contemporâneas.
Na inversão do motivo de investigação que animava a obra anterior, e ao deslocar a sua atenção para o corpo, “UR feeling” constitui uma variação radical capaz de iluminar aquilo que há de comum entre corpo, matéria e sensação.
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