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COLECTIVAAÚN NO. SOBRE LA REINVENCIÓN DEL DOCUMENTAL Y LA CRÍTICA DE LA MODERNIDADMUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÍA Santa Isabel 52 28012 Madrid 11 FEV - 13 JUL 2015 A IMAGEM COMO ARMA POLÍTICA DO QUOTIDIANO
Os objectos que dialogam são imagens, fotografias, imprensa escrita e uma selecção de alguns documentos audiovisuais. Emerge de entre todos, os filmes do cineasta francês Chris Marker, como principal referente do artista documental que soube reinvestir a imagem social dos acontecimentos quotidianos, e sobretudo a luta de classes no cinema político a partir dos anos 70. Filmes como Le Fond de l’air est rouge (1977), que percorre os acontecimentos de uma década, a recuperação da luta de classes persistente em pontos distintos do planeta, sob o espírito da figura do cineasta soviético Alexander Medevkin (figura que emerge numa das salas da exposição no filme L’Ultimo Bolchevik, 1992). Portanto, o documento fílmico ou fotográfico e o activismo social vão lado a lado, sobretudo o valor que a fotografia e o cinema têm nesses anos ao reconstruírem-se como descodificadores da realidade, pedra angular desta exposição. O título é uma dupla referência aos artistas contemporâneos Martha Rosler e Allan Sekula. O “Aún no” [“ainda não”] de Rosler no final do seu ensaio In, Around and Afterthoughts (1981) era uma forma de mostrar a condição incompleta do projecto histórico do documentário, uma arte que acompanha as lutas sociais e que portanto de nenhuma maneira se finda, é uma linha constante no tempo.
Sekulla e Rosler começaram a escrever artigos de arte na revista Artforum durante a década de 70, criando debates sobre o trabalho do documento gráfico, da crónica ou informativo ao activismo político e social. O ensaio de Allan Sekula Dismantling Modernism, Reinventing Documentary (1978) foi uma declaração fundacional do novo documentário, uma releitura do documento como activismo e uma crítica da modernidade dirigida às fotografias hipercodificadas, despolitizadas e institucionais que a comunicação global aplicava. Sekulla pretendia uma reinvenção do documentário através do anti-naturalismo crítico de Bertold Brecht dirigida à sua época através do cinema moderno de Jean-Luc Godard, Chris Marker e Jean Marie Straub e Danielle Huillet. Nesses anos são vários os colectivos que dirigem o seu olhar em direcção a uma nova codificação do documento, recuperando a visão crítica e dialéctica da História, como fez em seu momento a fotografia norte americana nos anos 20 e 30. Sob a aura de 68 nasceu o colectivo Dziga Vertov, cujo principal guia foi Jean-Luc Godard, ou o grupo Medevkin com Marker. No outro lado do Atlântico constitui-se o movimento Newreel, onde cineastas como Robert Drew, Richard Leacock, D. A. Pennebaker, Frederik Wiseman ou Robert Krammer, que sob o estilo do cinema directo percorrem as mobilizações sociais e o activismo político na rua.
Esta análise de Sekulla podia ler-se como uma resposta crítica à fotografia moderna num duplo sentido. Por um lado, o documentário devolvia à fotografia a sua dimensão de prática social. A inclusão de um uso directo da fotografia, questionava a independência desta como arte autónoma e particularmente questionava o museu... (Há um distanciamento da ferramenta como arte e como uso político). Recuperava assim a capacidade da fotografia documental como arquivística e em certo modo mostrava-se anti-artística, mas indissociável como ferramenta de transformação política. Por outro lado, ainda assumindo esta capacidade, havia a necessidade de relê-la. Até então tinha-se reproduzido um modelo burguês liberal, ou baseado na democracia liberal, que se traduzia num modelo de representação, simplesmente representativo, dos estados da exploração ou do sofrimento do povo trabalhador como parte funcional do sistema. Realmente, reforçava todo o pensamento que criticava, pois não saía da lógica da exploração burguesa-capitalista. Um tipo de justiça social paternalista, que respondia mais a uma leitura superficial. Frente a isto, havia que projectar um novo documentário (uma nova imagem) onde as relações entre objecto e sujeito da representação fossem repensadas, ou seja, explicitadas e renegociadas. O objecto da representação não seria um ser passivo, do mesmo modo que o sujeito não deveria ser o que imporia um ponto de vista. É assim que a imagem do operário se reivindica e o povo se mostra, este está não omitido mas sim explícito – é assim que ocorre visualmente na própria exposição, rostos, caras, trabalhadores com as suas ferramentas, ou na fábrica ou nos serviços públicos; o povo na rua, caminhando, correndo, actuando ou sendo golpeado, em todo o caso existindo – O documento dirigia-se assim a dois focos: o realizador (fotógrafo) e o que era filmado (fotografado) dentro de um contexto: a realidade. Este último polo, a realidade e a sua descodificação, teve na figura do filósofo Henri Lefebvre, um ponto de ancoragem poderoso para a nova imagem: a crítica da vida quotidiana.
A exposição mostra-nos uma revisão da potencialidade do documento gráfico nos acontecimentos passados e presentes. É predominante aqui ressalvar a capacidade dos distintos colectivos que por todo o mundo, e em particular em Espanha (depois da crise económica de 2008) com o 15M, nutriram as redes sociais com imagens independentes da comunicação institucional, reivindicando o activismo na leitura da luta de classes dentro da dialéctica histórica. Esta exposição repensa de forma geral a capacidade do documento e da arte, a sua função. Recuperar o sentido de memória que têm os acontecimentos (dentro do devir histórico) face às correntes, burguesas e conservadoras, que apagam a profundidade desses mesmos acontecimentos no quotidiano (o consumo capitalista) a favor do interesse de uma classe dominante.
Notas
[1] Euwmarkt, foi o espaço ocupado pelos colectivos sociais em Amesterdão durante o ano de 1975. Espaço gérmen do movimento okupa europeu e escola do activismo social e comunicativo. Folhetos, cartazes, pasquins, performance, act street... Uma nova forma de comunicação e activismo social na rua.
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