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COLECTIVACONSTRUYENDO MUNDOS: FOTOGRAFIA Y ARQUITECTURA EN LA ERA MODERNAFUNDACIÓN ICO Calle de Zorrilla, 3 28014 Madrid, Espanha 03 JUN - 06 SET 2015 O ESPAÇO E OS SÃMBOLOS“Nós damos forma aos edifícios e a partir daí, eles dão-nos forma a nós”
Começar a exposição com as primeiras fotografias sobre a Nova Iorque dos anos 30, a obra desenvolvida principalmente pela fotógrafa norte americana Berenice Abbot, não podia ser um feito anedótico. A fotógrafa, que chegou a ser assistente de Man Ray e de Eugene Arget na Paris dos anos 20, começou a deslizar o seu olhar pela identidade dos espaços através das suas construcções, a arquitectura como um signo dos valores de um lugar e o seu reflexo na sociedade. A exposição “Construyendo Mundos”, que nestes dias podemos contemplar na Fundación ICO em Madrid e até 6 de Setembro, é uma das mostras referência da 18ª edição da Photoespaña. Os espaços e a mão do homem, através principalmente da evolução arquitectónica no século XX e XXI, são um reflexo do devir da ideologia e da ideia de progresso e desenvolvimento. A evolução do capitalismo a um capitalismo financeiro é outro referente, o trespasse dos eixos do poder e seus efeitos na depressão das cidades, outro espelho. Fazer um percurso pelas salas também é fazer um percurso cronológico. Os autores compilados são de uma enorme transcendência: Walter Evans, Lucien Hervé, Bren e Hilla Becher, Hiroshi Sugimoto, Thomas Struth, ou Andreas Gursky, só para nomear alguns dos eleitos nesta selecção de olhares. Nesta mostra o curador da exposição (The Barbican Center em Londres) quis reflectir a evolução do tempo moderno, a relação entre a arquitectura e os valores que a seguram, mas não apenas essa referência, também a evolução através do olhar do fotógrafo desde uma visão fascinada do objecto, como no caso de Abbot, a um olhar totalmente crítico com o objecto e as suas consequências, como é o caso do jovem fotógrafo Iwan Baan. São várias gerações de autores, em quase 100 anos de vida, que captaram as linhas heterodoxas ou ordenadas dos edifícios com um sentido que está mais além do evidente. O urbanismo coloca-nos muitas perguntas para lá da própria fachada. Slavoj Žižek, numa das suas intervenções em 2009, no The Birkbeck Institute for the Humanities em Londres, o discurso que deu sobre Arquitectura e ideologia, voltava a mostrar como o imaginário identificado por um determinado estilo respondia claramente a uma ideologia. Eram claros os exemplos do neoclassicismo hitleriano ou a própria construção classicista de Stalin, longe da mais revolucionária construtivista dos primeiros impulsos renovadores da revolução soviética. Žižek expressava em “Eles não sabem o que fazem: O sublime objeto da ideologia” (1989), a essencialidade da ideologia, que nunca mente e como que se introduz em nós consolidando a ideia de hegemonia (poder) que um grupo dominante tem frente ao resto. A ideologia, como parte essencial da construcção da hegemonia, é a forma de pensar sobre algo. Desenvolve-a desde a ideia de “point de capiton” (ponto de acolchoamento) [1] de Lacan. A ideologia, para sintetizar, responde já não a um significado claro que contém um significante (rompe desta forma o sentido fechado de Saussure), antes o significante move-se num campo aberto, não clausurado. Referenciamos muitos significantes, ou podemos desde muitos significantes, ou formas, criar um significado. Retomando as ideias de Lacan, Žižek percorre a importância das metáforas e das metonímias, ou seja, o conjunto interrelacionado de significantes (de formas diversas) que podem chegar a identificar algo (dotá-lo de um significado) não com um só nome disponível (o significante, ou forma), antes com o nome de outra coisa ou coisas. Perdeu então o seu significante primigénio para lhe somar mais formas ou significantes ao primeiro significante. Michel Foucault desenvolve o seu pensamento sobre os pilares de poder e hegemonia, e sob a ideia da multipolaridade a partir de onde se exerce esse poder, dota de enorme importância um dos polos desse campo multipolar: o espaço [2]. Os espaços também são lugares de onde se expressa o poder. Claro que a urbe, a arquitectura ou as artes são contextos onde a hegemonia se expressa, de forma provavelmente não tão evidente, mas por essa mesma razão, mais eficaz. Os arranha-céus ou as grandes torres de vidro, ou os grandes centros comerciais e de congressos, hotéis, costumam localizar-se em centros económicos ou em espaços onde a transacção económica (o valor do capital) está mais visível. Não é inocente encontrar interessantes ou chamativas propostas arquitectónicas em espaços que se identificam com o progresso material, como aeroportos ou estações ferroviárias de alta velocidade. Dotar, portanto, de significado uma forma, ou melhor, aplicar-lhe uma ideologia (um campo de ideias preestabelecidas) que se identifica com um poder hegemónico, não tem que ter um letreiro clarificante para que possamos entender (sob uma percepção metafórica, ou metonímica) que é a expressão de um tipo de progresso que funciona, “o capitalista”. A relação do significante e o significado, como vemos, não é conclusiva, é um contexto de relações que nos predeterminam de alguma maneira a identificar a ordem económica imperante como “positiva” através de um ou mais dos polos. A exposição mostra isso, mas também e mais interessante, o sem fim de ramificações que o significante (o espaço) gera nos nossos sentidos e as contradições do “progresso” ou “desenvolvimento” que se reflectem nessas formas. Também, como reage o ser humano perante essa ordem, ou perante as mudanças, na relação com espaços arquitectónicos que supuseram, em muitos casos, uma contradição à tese antes mencionada, a lógica do progresso. É destacável o trabalho do fotógrafo sul africano Guy Tillim e as suas fotografias de edifícios que constituíram na sua época um exemplo de hegemonia e progresso (os exemplos de desenvolvimento africanista na nova arquitectura dos anos 70 em Moçambique) e actualmente de crise e caos humano. Nessas contraposições racional-orgânico / elites-cidadania / cidade antiga-cidade nova / bonança-crise, a exposição move-se para percorrer o que o signo (redução do símbolo tanto para a semiótica como para a sociologia), neste caso a arquitectura, supunha e a sua evolução no tempo, em relação às mudanças sociais e também com a sua relação com a acção humana. Fotógrafos: Berenice Abbott, Walker Evans, Julius Shulman, Lucien Hervé, Ed Ruscha, Bernd y Hilla Becher, Stephen Shore, Thomas Struth, Luigi Ghirri, Hélène Binet, Hiroshi Sugimoto, Luisa Lambri, Andreas Gursky, Guy Tillim, Simon Norfolk, Bas Princen, Nadav Kander e Iwan Baan.
Alberto Moreno
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Notas [1] “point de capiton” (ponto de acolchoamento): segundo Lacan, a construção do signo, um significante que transporta um significado, não é conclusivo como o definia Saussure, existe um amplo leque de significantes que podem, abertos (Lacan dá importância essencialmente à metáfora e à metonímia como exemplos de significantes não conclusivos) trazer no seu conjunto um significado. Podíamos falar de um entorno de significantes para um significado. Para compactar todos esses significantes, existe um significante nodal, o ponto central (o significante que aglutina a todos os outros). Žižek identifica-o como ponto de acolchoamento ou ponto nodal de coesão de todos esses significantes. [2] “Há uma história que permanece sem escrever, a dos espaços – que é ao mesmo tempo a dos poderes/saberes. Desde as grandes estratégias da geopolítica até à pequenas tácticas do habitat”. The eye of power, 1980, Michael Foucault
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