Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Fundação de Serralves.

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÃ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


YTO BARRADA

YTO BARRADA: SALON MAROCAIN




CASA DE SERRALVES
R. Dom João de Castro 210
4150-417 Porto

10 JUN - 20 SET 2015

AS DUAS REALIDADES DE YTO BARRADA NA CASA DE SERRALVES

 


Evocando através da arte temas como o colonialismo e as raízes etnográficas, em paralelo com o Modernismo europeu do séc. XX e com a crise económica contemporânea, Yto Barrada questiona a sua própria identidade, ao mesmo tempo que procura as suas origens marroquinas.

Nascida em Paris em 1971, a artista cresceu em Tânger (Marrocos), adquirindo posteriormente a nacionalidade marroquina. Começou a explorar para si mesma a situação peculiar desta sua cidade e cedo apresentou publicamente as suas descobertas e conclusões, tendo já exposto na Tate Modern (Londres), no MoMA (Nova Iorque), Centre Georges Pompidou (Paris), entre outros. Chega agora a Portugal, trazendo uma realidade aqui quase desconhecida ou nada trabalhada, que precisa de ser mostrada e recebida, contada e vista.

É assim que a Casa de Serralves está agora habitada pela obra de Barrada. O edifício, situado no parque de Serralves, concebido pelo arquiteto francês Charles Siclis e desenvolvido por José Marques da Silva, apresenta-se como um exemplar da arquitetura Art Déco que remonta aos anos 30 do século XX. Hoje, a Casa é entendida como um ícone da Fundação de Serralves, ao mesmo tempo que possibilita um espaço singular de exposição, distante da lógica típica de white cube como espaço de exposição, tanto para a realização de mostras como de projetos de artistas integrados no programa do Museu de Arte Contemporânea.

É neste contexto que inaugura um novo programa anual para a Casa de Serralves, com a abertura marcada pela obra de Yto Barrada. A artista foi convidada a inscrever a sua arte ao longo das várias salas, halls e quartos dos dois pisos, compostos por paredes originais de estuque e mármore trabalhadas segundo o gosto déco. Deste modo, de 10 de Junho a 20 de Setembro, o público tem a oportunidade de percepcionar e sentir de uma forma inovadora o espaço que se assume como um museu de história moderna e etnográfico.

Na inauguração, Suzanne Cotter, diretora do Museu de Arte Contemporânea, comissária da exposição e amiga da artista, explicou como a intervenção no espaço e a sua apropriação fornecem uma nova experiência ao espetador. As obras dialogam com a arquitetura e com os jardins que estão do lado de lá de cada grande janela e, certamente, não teriam o mesmo resultado se apresentadas no Museu. Na Casa, há um contraste maior entre as realidades apresentadas, representativas de pobreza, e aqueles que constituem o ambiente, marcado pelo gosto e luxo, o que cria um maior impacto.

É importante que o público veja pelos olhos de uma mulher que encara duas realidades na sua vida, a Europeia e a Norte Africana, e compreenda o desfasamento que entre elas existe, num mesmo tempo. A crise económica contemporânea que abala profundamente a Europa, quando comparada ao habitat em Marrocos revela-se numa dimensão menor.

Através da recolha de elementos culturais, surgem pela mão da artista uma série de peças de variadas propostas visuais, desde pequenos objetos como modelos de fósseis falsos a tapeçarias que ocupam o grande hall de entrada, até à técnica do vídeo com o filme Faux Dépard (2015). Este, na única sala em que a ausência de luz esconde a arquitetura característica, apresenta a produção local, em Marrocos, de falsificações de fósseis arqueológicos, algo recorrente um pouco por todo o norte de África. Esta produção acelerada de objetos falsos é o resultado da intensa procura de fósseis e outras antiguidades para serem vendidos aos turistas, mais do que a própria terra oferece. Esta e outras, mais sérias, problemáticas do seu país não passam despercebidas a esta criadora que discursa sobre o que a move com emoção.

O gosto pelo cinema é também notório no seu papel como diretora fundadora da Cinémathèque de Tânger, desde 2006, com o objetivo de desenvolver a cultura cinematográfica do país. Contudo, para além do vídeo e da imensa variedade de processos de criação da artista expostos, há uma técnica mais recorrente, preferida da artista, que é a fotografia e que a acompanha desde que realizou um curso nessa área em Nova Iorque, na Universidade de Harvard. Aqui, as imagens fotográficas surgem como registos, como veículos de transporte para lugares e situações e, frequentemente, também como artefactos, o que é notório na série 1930s North African Toys of the quai Branly Museum (2014).

Neste conjunto de fotografias, todas alinhadas, e equilibradamente distribuídas no espaço, encontram-se brinquedos berberes das coleções de missões etnográficas do Musée du Quai Branly, em Paris. Os objetos lúdicos das crianças africanas são do interesse de Barrada por, ao contrário dos europeus, das grandes potências económicas e políticas do mundo, serem construídos com materiais pobres pelas mãos de quem não pode adquirir melhor. Estas humildes invenções improvisadas estão expostas sob um fundo azul e sobre um fundo amarelo esbatido, ou bege, coincidindo com as cores das paredes em que estão expostas na Casa. Nas imagens, os brinquedos surgem fotografados de forma simples, frontal, sem sombras e efeitos, de modo cru e puro, muito característico da obra de Barrada. Além disso, e deste modo, são apresentados como neutros, escapando às habituais e estereotipadas excentricidades dos padrões marroquinos. Esta neutralidade tem como efeito, no segundo grupo de imagens exibido, e num primeiro olhar, parecer estarem representados bonecos ocidentais, com roupas e cabelos, até que, num segundo olhar mais atento e próximo, se percebe que há algo que não conjuga com os usuais materiais e formas. Cria-se, assim, um equívoco, talvez intencional por parte da artista, que faz pensar sobre as semelhanças e divergências entre as culturas.

No andar de cima, um outro trabalho fotográficos, a preto e branco e nitidamente com um carácter mais documental, apresenta-se sobre uma parede rosa. Escapa ao expectável, com o nome de Plumber’s Assemblages, Tangier (2014), e no qual a artista marroquina exibe o registo de mais objetos improvisados. Neste caso, tratam-se de estruturas criadas a partir de canos, anilhas e torneiras reciclados por canalizadores locais, com o propósito de serem utilizadas como sinalética para os transeuntes na Praça Grand Socco, na Medina de Tânger. Os canalizadores locais pretendem, desse modo, indicar publicamente a sua situação de desemprego e apontar nas direções onde têm os seus pequenos negócios temporários, como vendas de cigarros à unidade. No evento da inauguração, Barrada explicou que, em Marrocos, as condições de trabalho são irregulares e as barreiras linguísticas apresentam-se, inúmeras vezes, como impedimento para contratações de trabalho.

A artista recolhe léxicos culturais que exibe e que fornecem uma nova vida à Casa de Serralves, sendo compreensível ter sido a escolha de Suzanne Cotter para a abertura deste novo programa. Com um extenso e variado conjunto de produções e práticas artísticas, com uma multiplicidade de meios, desde fotografias, filmes, esculturas, impressões e instalações, Yto Barrada apresenta-se como uma artista singular e diversificada, inquestionavelmente contemporânea, cruzando formas, cores, realidades, nacionalidades e etnias e expondo um trabalho surpreendente e inovador.

 

 

 



CONSTANÇA BABO