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CLÁUDIA VAREJÃO

AMA-SAN




MUSEU DO ORIENTE
Largo Vitorino Damásio, 4


26 JUN - 30 AGO 2015


Quando entrei no Museu do Oriente, pensei que ia ver uma exposição da Cláudia Varejão sobre as Amas, as mergulhadoras japonesas que eu tão bem conhecia após mais de uma ano a trabalhar como directora de produção do filme. Fiquei comovida ao ver os grandes formatos, representações de uma realidade tão distante mas que me é tão próxima e que senti estarem sob o signo das ama-san. Mas essa impressão ficou aí, nas oito fotografias que ocupam as duas primeiras paredes da sala. O resto das imagens sente-se mais como um diário de viagem. De duas viagens, na realidade.

 

Cláudia Varejão fez uma primeira viagem ao Japão, com uma bolsa do Museu do Oriente em 2013, com o objectivo. A Segunda viagem foi feita já com o apoio do ICA à produção de documentários em 2014. A primeira vez que ouvi falar no projecto, nem me lembro se soube qual era o tema. Cláudia ligou-me em 2012 com umas dúvidas sobre a montagem financeira que entregaria ao concurso do ICA. Ofereci-me para lhe fazer o orçamento, que Cláudia entendeu não ser necessário, mal sabendo ambas que dois anos mais tarde seria eu a fazê-lo efectivamente.

 

Sempre achei o tema maravilhoso. Como qualquer portuguesa, o Oriente fascina-me, e porque cresci perto do mar e o gosto pelos desportos de água está inscrito no meu ADN, saber que estas mulheres mergulham em apneia num esforço que se inscreve nos seus corpos ao longo dos anos, toca-me. Lembro-me de ser miúda e ver um documentário na televisão sobre este tema. Mostravam as mergulhadoras, o seu métier, os seus perigos, nomeadamente os tubarões. Não as mostravam na sua intimidade, em casa com os filhos ou de que forma é posta a touca em linho que usam por baixo do fato de mergulho. Cláudia mostra esse espaço. O espaço familiar dos pequenos gestos.

 

Mesmo presumindo que mostrará mais no filme que irá concluir em breve, nesta exposição que as Ama nomeiam, podemos vislumbrar estes detalhes. Podemos deleitar-nos com o gato amarelo, símbolo do conforto doméstico, da flor, símbolo da beleza, observarmos prazenteiros o amuleto, os rituais captados com proximidade, as rugas dos corpos despidos. Cada imagem independentemente do formato exige tempo para ser observada. Há um tempo em cada fotografia. Quase imaginamos a acção daquele momento, o tempo de enrolar a touca e o tempo de preparar o plano.

 

Há uma narrativa que perpassa todas as fotografias. Uma narrativa que é cinematográfica, através da escala dos planos, do seu enquadramento. É a narrativa do quotidiano, a actividade diária de um mesmo grupo de pessoas que embora unidas são tão diferentes, da intimidade criada com a artista e que é óbvia nesse seu olhar. Talvez estas imagens nos digam mais sobre Cláudia Varejão do que sobre o Japão ou as Ama-San.

 

Imagens que são como os beijos roubados: surpreendentes e apaixonadas. Evidenciam o deslumbramento de uma viajante com um local habitado por seres humanos onde tudo o que nos mostra são precisamente resquícios dessa humanidade como se fossem espólios arqueológicos ou etnográficos, mas nunca esquecendo que é o olhar de uma cineasta.

 

A exposição tem três momentos que embora usando o mesmo suporte: 35mm, mas cujas dimensões nos sugerem, para além das ampliações de grande formato, polaroids e slides. Cada um deles tem os seus dispositivos de posicionamento e visionamento e a sua narrativa própria. O suporte analógico pressupõe uma metodologia que se diferencia do digital. O tempo é diferente em cada suporte e é quase como se o tempo que o processo 35mm necessita passasse para o tempo da narrativa.

 

Da exposição fica um livro. Um livro feito de forma artesanal, em que cada exemplar é único. Com formato em fole lembra os conhecidos Biombos Namban, símbolos da relação luso-japonesa e que mostram a chegada dos portugueses ao Japão. Mas neste caso o olhar é português, sobre um nicho da realidade japonesa, ao invés de ser o retrato japonês dos bárbaros do sul. No Museu do Oriente não há bárbaros, há muita humanidade, muitos despojos e muito carinho pelo objecto que se fotografa, ainda que seja uma galocha enfiada num pau. Há amor pela arte, há prazer, que o espectador apreende e incorpora na sua fruição.



BÁRBARA VALENTINA