Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Imagem 1: vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.


Imagem 2: Map (Clear), 2014. Fotografia: Constança Babo.


Imagem 3: Hot spot, 2013. Fotografia: Constança Babo.


Imagem 4: vista da exposição. Fotografia: Constança Babo.

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÃ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


MONA HATOUM

MONA HATOUM




CENTRE POMPIDOU
Place Georges Pompidou
75191 Paris

28 AGO - 28 AGO 2015

O UNIVERSO DE MONA HATOUM


A grande galeria transparente de escadas rolantes que sobe até à Galerie 1 do Centre Georges Pompidou, em Paris, é, durante dois meses, o caminho para o universo repleto de mensagens, formas e emancipações feministas de Mona Hatoum. A artista que, na década de 80, começou por realizar trabalhos de vídeo e performance centrados na intensidade do corpo, produz, desde 1990, na sua maioria, instalações de larga escala.

Independentemente da prática artística adotada, verifica-se uma inequívoca influência política consequente da sua naturalidade palestiniana. Filha de família palestiniana, Mona nasceu, em 1952, na cidade de Beirute, capital do Líbano, país situado em zona problemática com fronteira com a Síria e Israel, onde a artista assistiu a revoluções e opressões sociais até se exilar em Londres. Esta cidade serviu-lhe, ao mesmo tempo, de refúgio e de prisão quando o seu pai, em 1975, lhe pediu para não regressar ao seu país e assim escapar à Guerra civil que nele se instalava. Durante os anos seguintes, Beirute sofreu as mazelas dos agravados conflitos políticos e religiosos e, o que seria apenas uma curta visita da artista a Inglaterra, tornou-se numa estadia prolongada. Nesse tempo, Mona adquiriu nacionalidade inglesa e estudou artes, primeiramente na Byam Shaw School of Art, de 1975 a 1979, e, de seguida, na Slade School of Art até 1981.

Ao mesmo tempo, sendo o seu país maioritariamente de religião islâmica, Mona sempre se confrontou com a opressão inferida às mulheres, o que a marca imensamente e define a mulher que hoje é. Na obra escolhida para iniciar esta exposição, So much I want to say (1983), apresenta-se a si mesma num vídeo, com enquadramento aproximado ao seu rosto, boca tapada por mãos masculinas, manifestando estar a ser controlada e silenciada. Esse gesto violento reporta-se tanto à dominação do sexo feminino por parte do homem como à ação das forças políticas na sociedade. De qualquer modo, expressa a pressão que a artista sente na sua vida. A frase que dá o título à obra ecoa na sala, repetidamente, num tom de voz monótono e programado, mas forte e penetrante. A obra que se segue, produzida de 1988 a 2002, afixada em grande escala na parede, é também um auto retrato da artista, de perfil, com um pequeno boneco representativo de um soldado do exército pousado no seu nariz. Um placar de médias dimensões enuncia a letras grandes a expressão que fornece o título à obra: Over my dead body (ver img.1).

Apesar do forte carácter político e conceptual com que Mona inicia a exposição, a artista não pretende que as suas obras sejam entendidas apenas deste modo e apela também ao sentido estético dos objetos e à sua força e validade enquanto formas e materiais. Isto verifica-se, de seguida, no decorrer da área da Galerie 1, onde surgem, consecutivamente, grandes peças singulares.

Os dois primeiros grandes objetos que se apresentam coexistem precisamente, como a maioria do seu corpo de trabalho, entre a dimensão conceptual e a formal. No centro da sala encontra-se Cube de 2006 (ver img.1), uma grande grade quadrangular de ferro que evoca uma ideia de prisão com, ao seu lado direito, o primeiro dos vários mapas que Mona expõe, Present Tense (1996). Este, constituído por sabões agrupados mas não completamente unidos, mostra precisamente, pelo material utilizado e pela fragmentação das partes, a efemeridade do território palestiniano. De seguida, vão surgindo peças que são inteiramente admiradas pelo público pela forma como se instalam e ocupam o espaço. Assiste-se à fusão do vídeo com a instalação, do orgânico e do industrial, ao crescimento do cruzamento de práticas, prevalecendo, contudo, uma mesma profundidade teórica.

Alguns destes objetos que a artista, numa ação duchampiana, eleva a esculturas metálicas, são apresentados em conjunto com os registos fotográficos do seu estado original, como é o caso de Do, undo others… (1952), No way II ou No way III (1996). A fotografia surge assim como uma técnica de pesquisa processual, sendo que o resultado final é a combinação desta com a descrição das performances ou dos vídeos que foi usada para capturar. Deste modo, apresentando desde o ensaio até ao objeto final, a artista palestiniana desmistifica o seu trabalho.

Na área seguinte da galeria, surgem, sucessivamente, grandes peças que se ajustam ao espaço do Beaubourg. As primeiras, de ferro, entram em harmonia com os cabos visíveis do tecto e o segundo mapa completo da Terra (ver img.2) encontra-se particularmente bem instalado ao longo de uma área de 17m x 9,50m do chão. Map (Clear), de 2014, rodeado pelas grandes janelas da galeria do Pompidou, joga visualmente com a maravilhosa paisagem exterior da cidade parisiense. A obra, constituída por pequenos berlindes de vidro, ganha uma espécie de magia que preenche o espaço com todas as luzes, reflexos e sombras que se criam na fusão do ambiente interior com o exterior. Na medida em que apenas os contornos dos continentes se encontram presos ao chão, apresenta-se, mais uma vez, um mapa sujeito a desintegração. É, assim, sugerida ao público, a fragilidade do mundo de hoje.
Esta característica é algo que se repete na obra de Mona Hatoum através dos elementos que não estão fixos e que se alteram com o toque, com o movimento ou até mesmo com a força do ar. Por esse motivo, o cabelo é um dos seus materiais de preferência, que utiliza de mais do que um modo considerando-o um símbolo feminino. Desde 1995, com a sua obra Recollection, Mona Hatoum experimenta a inserção dos seus cabelos em espaços, transformando-os. Nesta exposição, a artista distribui, pelo chão de uma pequena sala, esferas de cabelo e, no teto, pendura fios quase invisíveis que assaltam o caminho do espetador.

Esta espécie de beleza precária, apresentada nas últimas peças, é contrariada de imediato pelo grande globo que gira sobre si mesmo. Hot spot (ver img.3), de 2013, impõe respeito e anuncia a sua presença com a luz vermelha das suas lâmpadas que desenham perfeitamente todos os continentes da Terra.

Paralelamente, uma série de pequenos espaços ocupados por instalações muito particulares tornam cada momento da visita a esta exposição cativante e memorável. Contrastes entre inocência e leveza e dor e ameaça fornecem emoções variadas e experiências estéticas sucessivas.

É também importante referir a obra Twelve Windows (2012-2013) que, especialmente prezada pela artista, se destaca no meio dos outros trabalhos pela sua singularidade. Composta por um conjunto de 12 tapetes, presos e unidos por cabos que se cruzam do chão ao tecto, cria um labirinto que, ao ser percorrido, fornece ao público novas perspetivas e a oportunidade deste assumir com um renovado olhar a descoberta de pormenores a cada passo. Os objetos que a artista utiliza na obra pertencem à Inaash - Associação para o desenvolvimento dos campos palestinianos - uma ONG libanesa criada em 1969 que concede trabalho a mulheres palestinianas. Todos os tapetes aqui apresentados são, precisamente, produzidos pelas artesãs regionais que, através deles, representam o seu ato de resistência perante o exílio sofrido.

A exposição termina memoravelmente com a obra Undercurrent (red) de 2008, ao lado de Cellules (ver img.4) concluída em 2013. A combinação da grande rede vermelha circular, que se estende pelo chão da última sala, com as jaulas de ferro que, na ala esquerda, prendem objetos representativos de células, transforma o espaço e o ambiente. A composição de fios eléctricos cobertos por tecido vermelho, termina a toda a sua volta, em cada ponta, com lâmpadas que, devagar, se acendem e apagam, criando uma envolvência hipnotizante. Quanto aos elementos situados ao lado, também de cor encarnada, são de médias dimensões e encontram-se como que comprimidos, pressionados, contra a estrutura da sua prisão.

Estas obras proporcionam múltiplas interpretações, precisamente como a artista pretende que prevaleça em todo o seu trabalho. Nessa mesma medida, a cor principal é, ela mesma, contraditória. O vermelho pode facilmente apelar ao amor e à paixão como, simultaneamente, ao sangue e à morte, dependendo assim de cada espetador a forma como esta obra atua e como a exposição termina.
É assim que Mona permanece no Centre Georges Pompidou até 28 de Setembro de 2015, 21 anos depois da sua primeira grande mostra de trabalho individual nesta mesma instituição. A artista palestiniana trabalha atualmente entre Londres e Berlim e apresenta um curriculum composto por um extenso número de exposições, sendo esta a mais completa mostra da sua obra. Propondo trabalhos datados de 1970 até hoje, a exposição garante uma viagem no percurso de multidisciplinaridade do mundo de Mona Hatoum.

 

 



CONSTANÇA BABO