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FERNANDO LANHASFERNANDO LANHASGALERIA QUADRADO AZUL (PORTO) Rua Miguel Bombarda, 435 4050-382 Porto 17 SET - 24 OUT 2015
The immutable is beyond all misery and all happiness: it is equilibrium. [1]
Se alguma família houvesse, seria a de Kandinksy e Mondrian. Mas não há; não se integrará na "gestualidade demasiado expressiva e agitada" de um, nem na "racional recusa da natureza" de outro [2], respectivamente. Para Fernando Lanhas (b. 1923) a pintura nunca será um fim em si mesma, mas um caminho. Foi o artista escolhido para inaugurar o novo espaço da Galeria Quadrado Azul, no Porto, poucos metros acima do anterior e ainda na Rua Miguel Bombarda. Como o título do texto da folha de sala - "Lembrando Lanhas"- indicia, este é claramente um gesto de homenagem, por parte da galeria, com quem mantinha uma relação quase umbilical, e da curadora, Lúcia Matos, ao portuense multifacetado: arquitecto, pintor, etnólogo, arqueólogo, paleontólogo, astrónomo e poeta. Entre as ciências e as artes, Lanhas actuava em diversas áreas de actividade que se influenciaram reciprocamente e que convergiam na sua utilidade: a interrogação do Cosmos. Considerado o precursor do abstraccionismo geométrico em Portugal, assumiu-se como principal dinamizador das Exposições Independentes (1943-1950), que reuniram obras de Júlio Pomar, Nadir Afonso, Júlio Resende e outros, assumindo assim um papel central na história da arte portuguesa. No hall de entrada da galeria emanam três serigrafias, em jeito de prefácio, que nos gritam. Se as pinturas a óleo, que compõem a exposição, se vestem de cores frias e neutras, nestas serigrafias sobressai essencialmente o contraste entre preto, branco, vermelho. Mas numa coisa são peremptórias e sumárias: não veremos figurativo. Ao centro da sala principal, confrontam-se as duas obras de maior dimensão que, pelas suas diferenças, ao dialogarem frente-a-frente, nos permitem uma leitura aberta e mais completa do percurso de Lanhas. De um lado, o último óleo sobre tela (2012): um tríptico composto por formas curvilíneas - à direita, uma onda de azul envolve vários círculos - que revelam uma dinâmica flexível e que fluem para o rectângulo central. Do lado esquerdo, as formas sugerem uma arriba, para onde se dirige a onda, e os tons cinza remetem-nos para a relação de Lanhas com a natureza, com a terra. Não sendo uma paisagem, esta é uma pintura que deve menos ao abstraccionismo, ficando manifesta a ideia da passagem da vida terrena, simbolicamente representada pelo mar, mas também uma ideia de fim, de abismo. Na continuação do movimento sugerido pelos elementos, a figura que parece resvalar da arriba será também ela arrastada pela onda, convergindo num rebentamento colectivo ao centro da tela. Dada a excepção à regra, voltámo-nos. Dois triângulos repetem-se na composição, criando um ritmo, apenas regulado pela recta vertical que os separa e que atravessa o centro da tela. O binarismo tonal do azul entre fundo/forma, sem gradações, anula qualquer sensação de profundidade e evidencia o jogo entre linhas oblíquas e ortogonais, criando representação bidimensional austera. O ligeiro afunilamento, no sentido vertical, do segmento e a não-perpendicuralidade de um dos triângulos face à borda da tela são pequenos apontamentos que conferem à obra um desiquilíbrio harmonioso, tão característico em Lanhas. Este esquema composicional reflexivo, embora dissimétrico, e dualizador, repete-se em algumas outras obras de pequeno e médio formato. Através de uma construção formal de rectas e segmentos cor da terra, sob fundo clareado, Lanhas projecta um eixo de fuga, cujo vértice anguloso toca a margem direita da pintura, que, ao ser intersectado por uma vertical, distende o núcleo da composição para o cruzamento. Centralismo atenuado pela presença de linhas diagonais, uma ao cimo e outra abaixo da encruzilhada, cujas formas evadem para fora do suporte. A distribuição democrática dos elementos e a procura da simbiose através da tensão, independentemente dos elementos geométricos utilizados, constituem algumas das particularidades da pintura de Lanhas. Tal como as formas lunares presentes em algumas das obras, o dispositivo desta exposição assenta numa lógica circundante, não apenas no sentido espacial, mas também narrativo. O circuito, composto por dezasseis obras, começa e termina nos óleos do início dos anos 60, predominados pelo cinzento-azulado, "cor última, cor final, que já não está a querer ser nada (...), o equivalente do desbotado e, para Lanhas, o desbotado tem uma permanência" [3]. Desta forma, o artista intenta reverter a efemeridade dos elementos naturais de que se apropria. Ao evitar um percurso cronológico, a disposição reafirma a coerência e a intemporalidade do trabalho. Ancorada sobretudo no rigor e na depuração cromática e formal -que "são nele uma ascese" [4] -, "a pintura de Lanhas faz exclusão de tudo o que lhe aparece como superficial" [5].
Alexandra João Martins
Notas [1] MONDRIAN, Piet - The Neo-Plasticism: The General Principle of Plastic Equivalence, in Art in Theory 1900–2000: An Anthology of Changing Ideas, Charles Harrison and Paul Woods (eds.), Oxford:
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