OMER FAST
LE PRÉSENT CONTINU / PRÉSENT CONTINUONS

JEU DE PAUME (CONCORDE)
1, place de la Concorde
75008 Paris
20 OUT - 24 JAN 2016

Omer Fast, a construção ética do presente

A exposição monográfica “Le Présent Continu” / “Present Continuous”, do artista israelita Omer Fast, está a decorrer no Museu do Jeu de Paume, em Paris, de 20 de Outubro de 2015 a 24 de Janeiro de 2016. Co-produzida pelo Jeu de Paume e pelo Baltic Centre for Contemporary Art de Gateshead, a mostra foi comissionada pelo artista, Laurence Sillars (Baltic Centre for Contemporary Art), Stinna Toft (KUNSTEN - Museum of Modern Art, Aalborg) e Marina Vinyes Albes (Jeu de Paume). Fast apresenta quatro instalações: CNN Concatenated (2002); A Tank Translated (2002); 5.000 Feet is the Best (2011); Continuity (Dyptich) [2012-2015], concebida especialmente para a exposição a partir da obra homónima produzida em 2012, cuja estrutura narrativa foi complexificada através da introdução de novas sequências.
Para Reinhart Koselleck, a experiência é um “passado presente” [gegenwärtige Vergangenheit] [1] que resulta da incorporação e da recordação dos acontecimentos. Representar o tempo como um fluxo de sucessões e de simultaneidades, articulando o passado, o presente e o futuro num espaço contínuo - o espaço museológico como lugar de experiência -, tal é a proposta expositiva de Fast. Trata-se, fundamentalmente, de espacializar a dimensão temporal da história e de segmentar a sua suposta linearidade através da exploração da fenomenologia da imagem em movimento, indagando a percepção descontínua do tempo que lhe é própria.
Entre a unidade e a multiplicidade, a obra de Fast é marcada inteiramente pela tentativa de construção de nexos possíveis entre a experiência e a linguagem. As suas instalações assentam num princípio de desterritorialização que assume diferentes facetas. O artista estabelece um sistema de comunicações transversais e de correspondências narrativas entre acontecimentos, espaços e tempos separados (a Shoah e a geopolítica actual do Médio Oriente, por exemplo), apelando a um espectador activo e crítico. A obra de Fast apresenta-se como uma ecologia sígnica assente na sobreposição complexa de histórias, percepções e memórias e na indeterminação dialéctica entre os sistemas de representação da ficção e do documentário, nomeadamente através da constância das formas da reconstituição [reenactment]. A sua força política reside na afirmação de uma geografia do pensamento, de uma deslocação cognitiva e epistemológica percebida como necessária para a compreensão alargada da história e do presente. Estruturada pelo problema da construção e da organização do ponto de vista (seja ele humano ou maquínico, como no caso do drone de 5.000 Feet is the Best), a obra de Fast propõe uma reflexão sofisticada sobre o medium cinematográfico e a mediatização da experiência pelos dispositivos de representação. Estes aspectos assumem uma dimensão propriamente formal na prática do artista residente em Berlim. Fast desestrutura sistematicamente um conjunto de procedimentos estéticos e narrativos com o objectivo de examinar os limites da representação audiovisual.
Em CNN Concatenated, vídeo monocanal de dezoito minutos exibido na ante-câmara da exposição, Fast interessa-se pelos processos de apropriação e de ressignificação de arquivos televisivos. Dialogando com outros artistas e cineastas que, como Richard Serra (Television Delivers People, 1973) ou Harun Farocki e Andrei Ujica (Videogramme einer Revolution, 1992), cotejaram o dispositivo cinematográfico e o dispositivo televisivo, Fast ressemantiza registos de transmissões da CNN do período entre Setembro de 2001 e 2002. A partir de uma base de dados de dez mil palavras, o autor concatena, através da montagem, novas sequências lógicas entre os fragmentos discursivos. Fast viveu em Nova Iorque desde a adolescência até Setembro de 2001. A produção deste vídeo, uma das primeiras obras do artista, inscreve-se no contexto pós-11 de Setembro. O questionamento da possibilidade de transmissão da experiência encontra-se aqui com uma reflexão crítica sobre a homogeneização do sentido. Trata-se de pensar em sons e imagens o debate, tão central então como hoje, em torno da aparente dicotomia entre liberdade e segurança.
Os quatro canais da instalação A Tank Translated encontram-se dispersos ao longo do espaço expositivo. Fast entrevista separadamente quatro ex-membros da tripulação de um tanque de guerra israelita. A interrogação da forma testemunhal é constante na obra do artista, que apresenta o seu trabalho como “uma ritualização das técnicas de memória” [2]. Giorgio Agamben define o acto testemunhal como “o sistema de relações entre o dentro e o fora da língua, entre o dizível e o indizível… entre a possibilidade e a impossibilidade de dizer” [3]. É na medida em que a testemunha viveu e sobreviveu a uma experiência que é capaz de “relatá-la a outros”[4]. Testemunhar acontece, logo, enquanto “poder em acto” [5] de um corpo-palavra que confirma “agora” a experiência de um facto passado presente na memória. Paul Ricœur sublinha a “estrutura fiduciária” [6] do acto testemunhal, fundado na crença e na confiança do ouvinte. Fast ataca precisamente a estrutura fiduciária dos testemunhos dos ex-militares. A sua veracidade e a sua concordância são afectadas pela dispersão em quatro écrans. O artista manipula ainda a tradução dos discursos, suprimindo e modificando certas palavras nas legendas com o intuito de produzir novos sentidos.
A instalação monocanal de trinta minutos 5.000 Feet is the Best nasce do encontro de Fast e de um ex-operador do Programa Predator, cujo anonimato é conservado, no Deserto do Nevada em Setembro de 2010. Obra de construção narrativa complexa, 5.000 Feet is the Best problematiza a fenomenologia e a ética da guerra à distância, feita com drones. A montagem dos registos sonoros do encontro entre o artista e o ex-piloto é entrecruzada com a a dramatização, codificada segundo as convenções da linguagem audiovisual clássica, dessa entrevista num quarto de hotel de Las Vegas. Os procedimentos de distanciamento brechtiano e de dissociação entre o som e a imagem são constantes na obra de Fast. Porém, tal como em The Casting (2007), o artista não se limita a encenar o acto testemunhal de modo anti-ilusionista e auto-reflexivo. Fast encena também as situações descritas no testemunho. Estas, vão além de uma mise en scène da memória. Trata-se de figurar igualmente a perspectiva aérea de um drone e o ponto de vista computadorizado de um piloto, mesclando-se assim, uma vez mais na linha de Farocki (Bilder der Welt und Inschrift des Krieges, 1988; War at Distance, 2003, Serious Games, 2009…) - e também de Trevor Paglen (Drone Vision, 2010) -, as fronteiras entre a percepção humana e a percepção maquínica autónoma. A ecologia sígnica, entre o “real” e a representação, o documentário e a ficção, aparece aqui como uma geografia perceptivo-cognitiva fundada num movimento de rotação do olhar. O ex-piloto descreve detalhadamente as diferentes alturas de voo de um drone durante as operações de vigilância, identificação do alvo e ataque. As descrições são ilustradas com planos aéreos dos subúrbios de Las Vegas. Um adolescente de bicicleta, registo documental da nossa aparente banalidade, representa o alvo a abater. A operação de rotação do olhar, colocado sobre “nós”, é um gesto carregado de força política.
Continuity (Dyptich), instalação de setenta e sete minutos de duração, é o trabalho mais inovador da exposição quer do ponto de vista formal, quer do ponto de vista narrativo. A instalação radicaliza o princípio de entrelaçamento de duas linhas narrativas afastadas temporal e espacialmente já ensaiado em obras anteriores do artista. Debruçando-se sobre o quotidiano obsessivo de um casal de meia-idade alemão que perdeu o filho em consequência de uma das guerras punitivas dos últimos quinze anos, esta “obra aberta” [7] explora múltiplas possibilidades narrativas através de um princípio de diferença, repetição (repetição de variações e variação de repetições) e circularidade, bem como de continuidade espácio-temporal (Alemanha e Afeganistão; passado e presente). Atravessada pelas figuras do Döppelganger e do retorno, Continuity (Dyptich) explora a natureza fragmentária da experiência e o modo como a percepção condiciona a representação do mundo. Servindo-se das normas cinematográficas dominantes para subvertê-las narrativamente, seguindo também um princípio anti-naturalista, nesta instalação culmina a operação de rotação do olhar que anima toda a obra de Fast. Em 1961, no prefácio a Les Damnés de la terre, de Frantz Fanon, escrevia Jean-Paul Sartre a propósito da descolonização do colonizador: Olhemos para nós mesmos, se tivermos coragem, e vejamos o que é feito de nós [8]. Através da representação da vida obstinadamente “normal” de uma família burguesa alemã, Fast leva a cabo essa mesma operação de rotação do olhar, condição essencial para a construção ética do presente. O movimento de rotação adquire expressão formal na concepção cenográfica da instalação, uma preocupação constante no trabalho do artista diaspórico. Tal como em The Casting, Continuity (Dyptich) apresenta um reverso. Todavia, o reverso não contém uma representação diferenciada, mas repetida. Díptico que explora interna e centripetamente, ainda que não estruturalmente, a diferença e a incompletude, Continuity (Dyptich) oferece ao espectador uma pluralidade de interpretações dentro de um espaço contínuo, chamando-o a unir as pontas soltas do passado e do presente e convidando-o a uma reconstrução incessante do sentido, aspectos tanto ou mais importantes num período de retorno do “colonial abissal” [9] e do seu sistema de distinções visíveis e invisíveis.
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Raquel Schefer
Doutora em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris 3, Raquel Schefer é investigadora, realizadora, programadora e professora.
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NOTAS
[1] Koselleck, Reinhart. 1989. Vergangene Zukunft. Zur Semantik geschichtlicher Zeiten. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, tradução da autora.
[2] Hidleston, Ana. 2008. “Dossiers d’artistes”. In Yael Bartana. Omer Fast. Rabih Mroué. Ahlam Shibli. Akram Zaatari. Les Inquiets. Cinq artistes sous la pression de la guerre. The Anxious. Five artists under the pressure of war. 2008. Paris: Centre Pompidou, p. 39, tradução da autora.
[3] Agamben, Giorgio. 1999. Ce qui reste d’Auschwitz. Paris: Éditions Payot & Rivages, p. 189, tradução da autora.
[4] Id., p. 197, tradução da autora.
[5] Id., p. 189, tradução da autora.
[6] Ricœur, Paul. 2000. “Histoire et mémoire: l’écriture de l’histoire et la représentation du passé”. Annales. Histoire, Sciences Sociales, 55:737, tradução da autora.
[7] Eco, Umberto. 2005. Obra Aberta: Forma e Indeterminação nas Poéticas Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva.
[8] Sartre, Jean-Paul. 2002. “Préface à l’édition de 1961 des Damnés de la terre”. Fanon, Frantz. In Les damnés de la terre. Paris: La Découverte & Syros, p. 33, tradução da autora.
[9] Sousa Santos, Boaventura de. 2009. “Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes”. Epistemologias do Sul, editado por Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses. Coimbra: Edições Almedina, p.27-31.
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[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]

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