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PEDRO COSTA E RUI CHAFESFAMÍLIAMUSEU NACIONAL MACHADO DE CASTRO Rua António José de Almeida 208, R/C Esquerdo 3000-042 Coimbra 27 NOV - 31 JAN 2016
“Perceber no escuro do presente essa luz que procura alcançar-nos e não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo. Por isso os contemporâneos são raros.” [1]
Pedro Costa e Rui Chafes não são um dueto improvável. Aliás, o diálogo continuado, que teve como ponto de partida a primeira exposição conjunta no Museu de Serralves, em 2005, pelas mãos do João Fernandes, já foi ao Japão e voltou agora a solo nacional. Ou deverei dizer, sub-solo, já que a reunião acontece no criptopórtico romano Aeminium do Museu Nacional Machado de Castro, a propósito do Anozero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. Quem viu “Cavalo Dinheiro”, o último filme do cineasta, entrará aqui como lá. As cenas algo surrealistas de Ventura deambulando pelas masmorras, meio-morto, meio-vivo, foram rodadas neste lugar. Ali mesmo, numa das celas, se projecta agora um plano de Ventura, o próprio, agora aparição, agora fantasmagórico. Esta é uma exposição sobre a relação entre a passagem do tempo e o espaço, o revisitamento e a memória.
Por um lado, os artistas reforçam a ideia de público subjacente à antropologia do próprio espaço, trazendo para dentro dele figuras e esculturas num gesto de reocupação, ao mesmo tempo que o procuram como um lugar de reunião e de certa intimidade. O título da exposição, “Família”, ganha particular interesse se o lermos à luz dos filmes de Pedro Costa e da noção de família que estes nos propõem. Nas Fontaínhas, Ventura tem vários filhos, infindáveis filhos. Há sempre um e mais outro. E nem todos biológicos, ou nenhum. Não sabemos. Partilham condições e experiências e quase todos reconhecem em Ventura a paternidade. São filhos do 25 de Abril, como Costa tem vindo a afirmar.
Em absoluta escuridão, as finas esculturas de Chafes esvoaçam e dissimulam-se. Será pano? Caem como bandeiras das pequenas janelas no topo das paredes, caem como cortinas de porta em algumas das passagens. O corpo do espectador é convidado, e mesmo forçado por vezes, a envolver-se no espaço, seja para se baixar no túnel que atravessa as galerias, para se aproximar e observar as peças, dado que a luz rareia. De forma hábil, Chafes consegue que as suas obras coexistam harmoniosamente com a arquitectura do edifício e, por isso, em nenhuma altura se sente uma invasão ou uma submissão do espaço à exposição. É um convívio. O vento, que perspassa as bandeiras de ferros de Chafes, transporta em si um imaginário de outros tempos e assinala a presença vital de outrém. De forma paradoxal, mas significativa, o escultor traz-nos o movimento e o cineasta a fixação.
Apesar do contexto museológico, Pedro Costa resiste (e o termo não é em vão) à tentação de extravasar para lá do cinema. Os rostos dos seus filmes (Casa de Lava (1994) e Cavalo Dinheiro (2014)) habitam, e vigiam, as celas dispostas ao longo do túnel e o fundo negro dos planos imiscui-se na escuridão de cada divisória. Para o espectador, a sensação de abismo é permanente, não havendo referências espaciais, e a necessidade de tocar paredes para prevenir a queda, torna evidente, mais uma vez, o carácter exploratório da exposição. As vozes firmes dos actores de Straub-Huillet ressoam por todo o espaço, entoando o poema “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, de Mallarmé, mote para esta primeira edição da bienal. Filmado em frente a um dos muros onde foi levado a cabo o massacre da Comuna de Paris, a curta-metragem “Toda a revolução é um lance de dados” (1977) explora a manipulação tipográfica e a vertente composicional do poema seminal. Nove oradores encarnam, de forma metódica e rigorosa, os nove tipos de letra apresentados por Mallarmé na versão impressa, colocando em evidência os cortes abruptos da montagem fílmica tão característicos em Straub-Huillet.
O que une Rui Chafes e Pedro Costa é o modo como produzem: encontram-se “na solidão que necessitam para a sua realização e na dureza existente em ambos os trabalhos” [2], o que pode ser perfeitamente extensível ao trabalho do casal de cineastas. Chafes, Costa e Straub são também uma família no sentido em que os seus trabalhos se reconhecem numa economia dos meios, num despojamento do excessivo, na procura de uma certa justiça e, sobretudo, na absoluta necessidade de não nos deixarem apagar o passado. Evidentemente, estamos perante dois dos maiores artistas contemporâneos portugueses.
Alexandra João Martins
::: Notas [1] AGAMBEN, Giorgio - O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. p. 65. [2] COSTA, Pedro - Pedro Costa e Rui Chafes: diálogo de luz e sombras na cidade de Tóquio. Público, 2012. Entrevista concedida a Nuno Crespo. Disponível online em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/pedro-costa-e-rui-chafes-dialogo-de-luz-e-sombras-na-cidade-de-toquio-25712857
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