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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da Exposição. Créditos fotográficos: Carmo Osul


Vista da Exposição. Créditos fotográficos: Carmo Osul


Vista da Exposição. Créditos fotográficos: Carmo Osul


Pormenor de Upcoming Images (2015). Créditos fotográficos: Carmo Osul


Performance The Valley of Thousand Smokes (2015), Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. Créditos fotográficos: Rui Soares


Performance The Valley of Thousand Smokes (2015), Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. Créditos fotográficos: Rui Soares

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Rua Passos Manuel, 178, 4º
4200-382 Porto

19 NOV - 16 JAN 2016


 

Na exposição Upcoming Images (2015), Hugo de Almeida Pinho (1986, Ovar) realiza uma reflexão acerca de uma des-funcionalização, revelação e incompletude da imagem, que nesta obra assoma suspensa e em potência. Citando a matéria a negativo das miragens contemporâneas – a visão que não se constitui, não se finaliza –, a exposição incita a meditar sobre questões relacionadas com os fluxos trans-nacionais migratórios e turísticos, bem como sobre uma anestesia do olhar provocada pelo seu excesso.

Em Upcoming Images, o artista procura traçar a mecânica inquieta dos trajectos da actualidade, interpelando um certo nomadismo contemporâneo, que surge aqui representado pelas visões quiméricas de postais do Norte de África e Médio Oriente, e, de filmes turísticos europeus dos anos 50 até à década de 70 do século XX. Esta obra apresenta, assim, imagens de países que, embora situados em diferentes continentes, estão unidos pelo Mediterrâneo; um espaço continuamente mapeado por diferentes moções, no qual se mantém ainda a necessidade de furar a rede, transpor o muro, avançar sobre uma qualquer fronteira, marítima ou terrestre.

Partindo da especificidade lumínica das caixas de luz dos mupis, em Upcoming Images as imagens são apresentadas durante o processo de montagem fílmica e revelação fotográfica, citando assim um impulso auto-reflexivo vinculado aos modos de manifestação e fixação imagética. Há, portanto, uma infecundidade da própria natureza propagandística e exteriorizada do seu suporte expositivo, bem como uma des-funcionalização do intento original das imagens, que emergem aqui entre a revelação e o apagamento, presentificando-se diferidas, suspensas.

O traço principal de Upcoming Images está na meditação acerca da miragem (uma presença a negativo, que é também um lugar de revelação), mais especificamente, na proposta de uma possível relação entre as miragens do medium e as novas miragens sociais: se os elementos figurativos das imagens desta exposição não se concretizam integralmente por se encontrarem ainda no seu processo constituinte, por outro lado, esta incompletude referencia alegoricamente todas as miragens que os imigrantes produzem em relação a uma imagem mitificada da Europa que, na maioria das vezes, não chega a constituir-se por um caminho interrompido a meio.

Desta forma, a partir da convocação de uma visão modalizada pelo desejo, algo particularmente intrínseco às imagens do turismo mas extensível a todas as representações visuais, Upcoming Images vai procurar cartografar estas novas linhas de fuga a partir de imagens e suportes (8mm e super-8) – adquiridos pela internet –, que pertencem a um período temporal (anos 50, 60 e 70) marcado por um “boom” do turismo ocidental, que foi potencializado pela estabilidade social da classe média, pelo desenvolvimento de uma cultura do ócio e pelo desejo de evasão à rotina e massificação citadina. Desta forma, esta expressão do passado no presente ganha reflexo numa igual meditação acerca da cultura mediterrânea, um espaço simbólico e historicamente marcado por certos regimes de moção e atrocidade.

Upcoming Images dá continuidade a uma série de obras do artista que trabalham sobre diversos planos de visibilidade e incompletude da imagem. Esta obra sucede à performance The Valley of Thousands Smokes (2015), que parte de uma reflexão acerca da potência a negativo da visibilidade da imagem, para pensar movimentos que referenciam uma interioridade e exteriorização. The Valley of Thousands Smokes emprega o elemento do fumo como possível superfície de projecção, e, paradoxalmente, enquanto lugar de interferência, devido ao temperamento instável da sua compleição. A performance foi, inicialmente, apresentada no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (Açores), meditando assim sobre o seu contexto expositivo através da inscrição de um movimento que se expande de dentro para fora: sejam os fenómenos sociais da imigração açoriana, os elementos naturais das fumarolas e dos vulcões, ou, a própria materialidade – simbólica e física – do medium fotográfico. Assim, convocando uma comunhão entre uma moção humana e natural, a performance cita a justaposição dos quatro elementos da natureza responsáveis pela alteração dos estados da matéria, desenvolvendo um impulso auto-reflexivo que alude ao próprio acto constituinte da performance.

Upcoming Images versa a latência processiva das imagens – a película sem o contacto sequenciado dos fotogramas e a aparição da imagem na tina do banho de revelação –, acordando assim com a potência aristotélica, onde fazer algo contém em si a potência de não o fazer. As imagens ainda não existem em acto, mas sim no que podem vir a ser em acto, ou seja, no que existe em potência, em suspensão. Desta forma, o traço de ausência das imagens coloca-as em modo de presente contínuo, assentando numa noção de imagem que se confunde com o não-observável, com a “tentativa incessante de mostrar o que não se pode ver” [1], estando, assim, entre o visível e o invisível.

Como sugere Jean-Luc Nancy em Le Regard du Portrait (2000), o termo husserliano “augenblick”, combina o olhar (Blick) com o olho (Augen), uma união lexical que significa ‘instante’. Desta forma, o piscar de olhos que corresponde ao augenblick é, simultaneamente, “o signo corpóreo da negação da totalidade do tempo e o assentimento à interrupção inerente a todo o acto de ver” [2]. Neste sentido, o piscar de olhos inscreve o invisível no campo da visão, impondo identicamente uma descontinuidade à sucessão cronológica, algo que Upcoming Images vai versar, ao registar este momento de relance através da apreensão do instante temporal dos fotogramas (cuja acção impetuosa é visível na própria visualidade indefinida de algumas das imagens).

Neste contexto, as obras em exposição aludem a uma certa violência perceptível em todo o acto de criação de imagens mecânicas: a força e a brutalidade do corte da película, a multiplicação e sobreposição de imagens, a mutilação e o dissecar da fita. Porém, a contundência maior da obra estará na tentativa frustrada de ver correctamente os barcos, as bandeiras, os monumentos e as ruinas das imagens; elementos que assomam distorcidos tal como a visão das miragens. Desta forma, a própria materialidade da obra projecta-se na violência dos movimentos migratórios, na medida em que a água tingida de vermelho pela luz da revelação fotográfica menciona uma “cor” alegórica do Mediterrâneo, e, a dimensão latente da imagem, a convocação do apagamento dos monumentos e ícones da humanidade destruídos, que os postais (cujos “greetings from” estão actualmente ameaçados) já afiguravam em ruínas.

Desde a Grécia clássica a cultura ocidental está cingida a um ocularcentrismo que se manifesta na metáfora que identifica a verdade com a luz, com aquilo que revela o que está velado. Embora Upcoming Images opere uma visão sobre as imagens centrada na luz – através do enfoque na montagem e na compleição da fotografia e da película –, as obras vão contrariar o seu próprio médium expositivo, o mupi, ao quebrar alegoricamente o regime de visão total predominante na publicidade e na cultura pós-moderna.

Ao meditar sobre o imaginário que os países do Mediterrâneo construíram e reformularam sobre si próprios, Upcoming Images vai convocar a miragem na sua condição mais intrínseca, aludindo não apenas a todo o espelhismo que encobre o conhecimento e a relação com o outro (não estivesse na origem da palavra ‘miragem’ a expressão francesa se mirer que significa mirar-se, ver-se ao espelho), mas, identicamente, todo o pensamento utópico que, também, se presentifica enquanto miragem: caminhamos para algo que pode não existir; no entanto, o facto de se fazer um caminho já é a potencialização de algo.

 

 

A propósito da exposição, Hugo de Almeida Pinho irá reunir-se com o ensaísta Jorge Leandro Rosa, o artista e comissário Paulo Mendes e o filósofo Sousa Dias para uma discussão em torno das temáticas de Upcoming Images. Na conversa “Uma Janela Para Alguma Outra Coisa”, que irá realizar-se dia 16 de Dezembro, às 18h30, nos Maus Hábitos, irão abordar-se questões intrínsecas à exposição, tais como a problemática da aparição e da latência das imagens, as miragens contemporâneas, as utopias da construção político-social europeia ou o cruzamento dos fluxos e evasões actuais.

 

 

 

Sara Castelo Branco

 

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NOTAS

DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens Apesar de Tudo. Lisboa: KKYM, 2012, p. 171
MONTEIRO, Hugo. “Figurações do Infigurável: entre Jacques Derrida e Jean-Luc Nancy”. Revista Filosófica de Coimbra, nº 45, 2013, p. 31


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[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]

 



SARA CASTELO BRANCO