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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Stan Douglas Coat Check, 1974, 2012. Cortesia do artista e de David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, A Luta Continua, 1974, 2012. Cortesia do artista e de David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, Two Friends, 1975, 2012. Cortesia do artista e de David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, Club Versailles, 1974, 2012. Cortesia do artista e de David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, Luanda-Kinshasa, vista da exposição. Cortesia do artista, da galeria David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, Luanda-Kinshasa, Still de vídeo. Cortesia do artista, da galeria David Zwirner, Nova Iorque.


Stan Douglas, The Secret Agent, 2015. Still de vídeo. Cortesia do artista, da galeria David Zwirner, Nova Iorque e Londres, e da galeria Victoria Miro, Londres.


Stan Douglas, The Secret Agent, 2015. Still de vídeo. Cortesia do artista, da galeria David Zwirner, Nova Iorque e Londres, e da galeria Victoria Miro, Londres.


Stan Douglas, The Secret Agent, 2015. Vista da exposição. Cortesia do artista, da galeria David Zwirner, Nova Iorque e Londres, e da galeria Victoria Miro, Londres.

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ARQUIVO:


STAN DOUGLAS

INTERREGNUM




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

21 OUT - 14 FEV 2016


 

Interregnum significa um intervalo temporário entre diferentes regimes (do Latim Inter - entre, regnum - reinado). As três obras de Stan Douglas expostas no Museu Berardo têm essa característica comum: debruçam-se sobre momentos de viragem histórica ou cultural. The Secret Agent estreia em Interregnum. Foi filmado em Portugal ainda este ano com equipa e actores portugueses, após um convite de Pedro Lapa, director do Museu Berardo e curador da exposição.

As três obras, duas em vídeo e uma em fotografia, unem-se assim, pela singularidade dos momentos que revelam: o 25 de Abril em The Secret Agent, o fim do colonialismo em Angola em simultâneo com a emergência do disco sound e o multiculturalismo nos EUA em Disco Angola e, em Luanda-Kinshasa, o início do free-jazz e de um certo experimentalismo musical iniciado com Miles Davis.

Em Disco Angola (2012) o suporte é a fotografia, mostrando que ao mesmo tempo que uma África sob domínio Português era descolonizada, emergia uma nova cultura urbana em Nova Iorque, o Disco Sound, sob o signo da miscigenação. Já Ernst Gombrich alertava nos anos 50 (como James Elkins, e outros, depois dele), para o facto de a História não ser linear, mas fazer-se em simultâneo e em paralelo. Douglas demonstra-o de forma óbvia, mas deixa espaço para a nossa própria reflexão, que a prática estética e o comentário social podem coexistir sem exploração, dando a ver a identidade cultural que, como Homi Bhabha defende, é continuamente actualizada mediante trocas entre diferentes tradições e culturas. "(...) a social space that somehow stops short (but does not fall short) of the transcendent human universal, and for that very reason provides an ethical entitlement to, and enacment of, a sense of community as both an ethical practice and an aesthetic idea." [1]

Luanda-Kinshasa (2013) mostra-nos uma banda de jazz de fusão no início dos anos 70 a gravar um álbum no estúdio The Church. Talvez não seja isso que nos mostra, já que foi feito em 2013. Aparentando ser um documentário sobre a gravação de um album musical, Luanda-Kinshasa é na realidade uma ficção de época que recria, com pormenorizada mise-en-scène, um momento musical (de seis horas) absolutamente único que nos envolve de tal forma que nos esquecemos do seu elaborado artifício.

Os trabalhos de Douglas, embora incidam sobre momentos da história, não têm uma vertente historicista. São antes comentários sobre esses momentos, ficções criadas sobre o real, na medida em que Douglas constrói narrativas próprias sobre a realidade da qual se apropria. O artista trabalha um passado demasiado recente para que o ajuizemos com rigor histórico e as suas obras revelam essa consciência, salvaguardando espaço para que também o espectador forme a sua opinião e faça o seu próprio comentário crítico.

The Secret Agent (2015) baseia-se na obra homónima de Joseph Conrad, cujo Heart Of Darkness inspirou o filme Apocalypse Now de Francis Ford Coppola. The Secret Agent transporta a história do espião Verloc e da sua família para o Portugal do PREC, mantendo em traços gerais a intriga de Conrad. A obra literária é passível de ser adaptada ao cinema ou a outro meio como é a instalação vídeo. Neste caso, embora Douglas tenha filmado com uma equipa e o apoio de uma produtora num método próprio do cinema, ele rompe com a linguagem cinematográfica, nomeadamente através do dispositivo de visionamento e da própria narrativa.

O vídeo é exibido em seis telas paralelas, não em simultâneo mas segundo uma métrica própria. Passado em décors interiores e exteriores, o mais importante e onde se passa a maior parte da intriga é a sala de cinema possuída por Verloc e pela sua esposa, que aparece sempre nos mesmos ecrãs. Mas não nos enganemos. Podemos ficar a ver os cerca de 50 minutos do vídeo, que não veremos um filme com uma narrativa linear. Aproxima-se antes da lógica do conto literário, uma história breve que poderia ter sido retirada de um enredo maior, do qual não sentimos, porém, falta.

O dispositivo dos seis ecrãs cria uma tensão que mantém o visitante em suspenso. A música, muito presente, retira-nos permanentemente do mecanismo cinematográfico como se nos quisesse lembrar quando, a espaços, nos deixamos embalar pela história, que não estamos numa sala de cinema. A própria sala, com três telas de cada lado, e uns pequenos cubos que nos permitem sentar, mas que nunca nos amparam confortavelmente o corpo, contribui também para o desconforto e tensão representados nos ecrãs. A instalação torna-se assim um todo do qual fazem parte o dispositivo de visionamento, o ambiente da sala, o corrupio de visitantes, e o espaço que o próprio espectador ocupa. Ninguém se levanta em frente do ecrã numa sala de cinema, mas aqui podemos ter de trocar de banco ou balançarmo-nos para evitar um visitante mais atento ao vídeo do que aos outros espectadores.

Ao sentarmo-nos podemos escolher ainda a perspectiva: permanecer os 50 minutos sentados numa ponta da sala e permitir que algumas cenas nos sejam mais distantes ou irmos mudando o nosso ponto de vista para nos sentirmos mais envolvidos pela imagem. Pedro Lapa, no catálogo da exposição exemplifica "Conforme um ecrã se ilumina, sou forçado a voltar-me. Para além disso, cada nova cena desdobra-se por vários ecrãs não coincidentes com os da anterior, e o desenvolvimento da narrativa, que é temporal, parece fazer-se também no espaço da instalação, obrigando-me a deslocar-me para a frente e para trás, em função da sua progressão: de possuir um suposto poder de controlo perceptivo sobre o filme, passo a ser um agente que actualiza na contingência dos seus movimentos uma possibilidade para a realização do próprio filme." [2] Assim, cada espectador é também um agente mais do que um mero receptor, alterando a sua própria fruição e a obra em si.

 


Bárbara Valentina

 

 

:::

Notas

[1] Bhabha, Homi K., Postmodernism/postcolonialism in Critical Terms for Art History (ed. Robert S. Nelson and Richard Shiff). Chicago and London: The University of Chicago Press, 1996, second edition, p. 444

[2] Lapa, Pedro, História e Interregnum. Fundação de Arte Moderna e Contemporânea - Colecção Berardo, 2015, p. 37



BÃRBARA VALENTINA