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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Wolfgang Tillmans, not yet titled 20151029-116A9980


Wolfgang Tillmans, JAL, 1997.


Wolfgang Tillmans, Sea of Japan, 2015.


Wolfgang Tillmans, Casita, 1995.


Wolfgang Tillmans, On the Verge of Visibility, 1997.


Wolfgang Tillmans, La Palma, 2014.


Wolfgang Tillmans, Lampedusa, 2008.

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ARQUIVO:


WOLFGANG TILLMANS

WOLFGANG TILLMANS: NO LIMIAR DA VISIBILIDADE




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

30 JAN - 25 ABR 2016

O LIMITE DO VISÃVEL DE WOLFGANG TILLMANS

 

Suzanne Cotter apresenta Wolfgang Tillmans como “um dos mais interessantes, inspiradores e influentes artistas que trabalham com a fotografia”. A seu lado, na visita de imprensa à exposição, o artista, com humildade, sorri. Este reconhecimento deve-se, em grande parte, ao facto do seu trabalho criativo não se restringir às imediatas possibilidades do médium fotográfico. O artista leva a prática mais além, aproximando-a da pintura e conferindo-lhe a qualidade de objeto artístico com dimensões objectual e conceptual.

A fotografia é, para Tillmans, o meio através do qual é possível uma maior aproximação ao real e se podem registar desenhos, neste caso, da luz. A técnica fotográfica é-lhe, portanto, mais favorável do que a pintura e, por isso, a escolheu para desenvolver a sua criação. Aproveita para explicar como as fotografias possibilitam a identificação dos cenários reais nas representações mais pictóricas que aparentemente apenas comportam cor. É para preservar essa mesma relação com a realidade que o artista alemão não aplica, às suas imagens, qualquer tipo de manipulação. Assim, considera-se um fotógrafo analógico, pois, apesar do uso predominante da câmara digital, cumpre as regras ópticas. Deste modo, consegue realizar as suas pictures contemporâneas, termo por si escolhido para se referir à fotografia enquanto objeto, ao contrário do frequente uso de images que entende como informação imagética e imaterial. Por isso mesmo, as suas obras, quase todas sem molduras, são fixadas às paredes de Serralves com molas, livres de restrições materiais, permitindo a noção de tridimensionalidade. Tillmans chega mesmo a dizer que, para ele, as fotografias têm volume e podem ser cubos.

Ao entrar na exposição, é através de imagens do céu captadas dentro de um avião que se dá o primeiro contacto com as janelas da realidade como o artista designa. De seguida, em grande formato para proporcionar uma aproximação do espetador às suas paisagens, traz pedaços do limiar de uma realidade visual e não física. As nuvens, o horizonte, ou as formas de luz que se criam na água, não são fisicamente alcançáveis mas apenas visualmente percepcionáveis. Algumas fotografias apresentam o câmbio entre dia e noite através do registo do instante em que o sol se põe, no preciso local em que se observa, de um lado, a escuridão e, de outro, a plena claridade. Na astronomia, esse momento é conhecido como terminator. Também em relação à ciência dos astros, o artista evoca o desconhecido, o limite daquilo que vemos e que a tecnologia procura, continuamente, quebrar, recorrendo a uma maior precisão e alcance nas lentes. Esse fascínio do artista reflete-se, também, no registo das constelações e galáxias que iluminam o céu à noite. É como resultado desta procura dos fenómenos que a natureza proporciona à retina humana que a exposição se anuncia como No limiar da Visibilidade. Esse foi, inicialmente, o título que Wolfgang Tillmans atribuiu a uma única fotografia, que se destaca no meio das restantes, na primeira sala. Impressa a larga escala, exibe, despojados numa mesa, um jornal, uma chávena de chá e uma maçã, entre outros objetos. Esta obra pode, aparentemente, não se assemelhar às que a rodeiam mas, na verdade, está-lhes intimamente vinculada já que foi precisamente a partir da observação desta fotografia que se proporcionou a concepção de todo o trabalho. O artista deixou-se prender pela zona em que a cor vermelha dos objetos se perdia, principalmente, para o negro das sombras e compreendeu que é uma mesma ínfima fronteira que se encontra em tudo o que compõe o mundo. Assim, avançou na sua procura nas mais variadas formas.

A incansável pesquisa que, a partir daí, Tillmans desenvolve, comporta ainda um outro limite, o do visível pelo olho humano e o apenas captável pela lente da câmara. Tal, resulta num conjunto de imagens puras e equilibradas que transportam o público para um cenário pacifico que lhe é tão familiarmente próximo quanto distante de alcançar.

O artista nomeia a maior parte das fotografias como “Paisagens Verticais”, o que é pouco comum na representação fotográfica desta temática, usualmente apresentada na horizontal. Deste modo, a paisagem ganha novas formas, quebrando com os pressupostos estabelecidos tanto na história como na teoria do médium e reforçando a aproximação desta prática à dimensão artística.

O que também contribui para fornecer ao espetador uma experiência sensorial é o formato de exposição e curadoria, no qual o aparente desequilíbrio de proporções e escalas na conjugação das pictures nas paredes é propositado para o artista que utiliza o espaço do museu como o seu próprio estúdio criativo. Tillmans avançou numa semântica da arquitetura e atribuiu-lhe uma dimensão metafórica pela qual as galerias se transformam em novos lugares e contactos com outras realidades. Exemplo disso, é uma inesperada instalação de vídeo que se esconde e alberga na área que, usualmente, é um corredor. Isto será desafiante e, em alguns casos, desconcertante, principalmente para o frequentador habitual de Serralves, que encontrará novas paredes e divisões concebidas pelo artista em colaboração com o arquiteto Siza Vieira.

É, assim, desse modo singular, que a ala direita do Museu é ocupada por obras datadas de 1980 a 2015, mostrando uma continuidade no trabalho do artista, o qual apenas existe em ação, movido pelas possibilidades do olho e da lente fotográfica, na procura de alcançar de todos os limites possíveis.

Próximo do final da exposição, apresentam-se obras mais antigas, algumas delas subitamente monocromáticas. Em papel, expõem-se fotocópias de fotografias, rudes e pouco definidas, como Tillmans as descreve, produtos da própria máquina fotocopiadora, resultados de um certo acaso, com uma variável escala de cinzentos e manchas. Essa circunstância inusitada atrai o artista que se deixa questionar se “há lá algo ou não há lá nada?”. São, portanto, irreprodutíveis, libertando-se das condições de múltiplo e cópia comportadas pela fotografia. Próxima deste trabalho, pode destacar-se a icónica obra Concorde realizada em Londres, em 1997, que surge aqui como representativa de outros interesses do artista: os tecnológicos. Estes refletem a sociedade e a atualidade e relacionam-se com outras preocupações de Tillmans: a ética e a política. Estas estão presentes em toda a sua criação artística, ainda que não visualmente explícitas nesta exposição particular, onde apenas três fotografias incluem indivíduos e, uma outra, na primeira sala, incorpora vestígios do homem através de partes de madeira de barcos devastados que se aglomeram areia.

O artista, com um curriculum extenso de exposições, detém um corpo de trabalho humano, arquitectónico e orgânico, hoje exposto numa escala mais abstrata. Na sua obra, apresentada de forma muito própria, é visível, como a diretora do Museu observa “o seu uso de espaço e escala constitui um mundo”. Temos, por isso, aqui, um dos grandes momentos da programação de 2016 de Serralves, inaugurando o ano de um modo inesquecível e imperdível.

Trata-se da primeira mostra de trabalho deste grande artista contemporâneo em Portugal, que vem comprovar o empenho da Fundação em inovar e alargar o campo artístico do país. Ao mesmo tempo já se esperava um elevado número de visitantes, desde que o artista marcou a sessão inaugural do Fórum do Futuro de 2015, em Novembro, para um público que ultrapassou largamente o espaço do auditório de Serralves.

De 30 de Janeiro a 25 de Abril, fica o convite para uma visita comissariada por Suzanne Cotter, com apoio da curadora Paula Fernandes, aos horizontes e limites mais profundos do mundo, através do alcançável pelo impacto da luz na câmara fotográfica. Wolfgang Tillmans deixa, ao espetador, a possibilidade de deslizar entre o momento congelado e o contínuo, num desafio à percepção e consciência do (in)visível.



CONSTANÇA BABO