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COLECTIVAHISTORY OF NOTHINGWHITE CUBE - BERMONDSEY 144 – 152 Bermondsey Street London SE1 3TQ 03 FEV - 17 ABR 2016
History of Nothing, a exposição comissariada por Hannah Gruy a decorrer na galeria White Cube em Londres, reúne um conjunto de peças recentes de artistas cuja ressonância conceptual nos conduz para uma reflexão sobre o designado sonho americano, tendo como ponto de partida um filme de Eduardo Paolozzi (1924-2015).
Paolozzi, uma figura relevante no pós-guerra no contexto das artes plásticas britânicas, nomeadamente pela forma como a partir do The Independent Group contribui para o desenvolvimento da Pop Art, é hoje sobretudo reconhecido pela sua obra nos domínios da escultura, colagem, e gravura. History of Nothing [Fig. 1], filme de 1962 de onde a exposição levanta o título, transporta consigo temas e abordagens que atravessam parte significativa da sua obra - a justaposição entre corpo, máquina e paisagem cristaliza no contexto da sua obra um posicionamento critico face à progressiva mediatização da sociedade de consumo. O filme aqui em exibição é assim uma das peças centrais de uma rede discursiva que procura lançar alguma luz sobre a situação contemporânea de um sistema mediático encerrado sobre si mesmo, num momento em que a exaustão das possibilidades de representação corresponde a uma atrofia da autonomia política, individual e comunitária. Filmado com a colaboração do realizador Denis Postle, History of Nothing transfigura a paisagem urbana da cidade moderna num cenário em que objetos de consumo quotidiano são justapostos a outros edifícios, de modo a desestabilizar a escala arquitetónica de um espaço onde a relação entre o consumismo e o discurso público anuncia uma nova dinâmica social.
Partindo da obra de Paolozzi, os trabalhos selecionados por Gruy não deixam contudo de evocar questões mais vastas. Divididas por duas salas, as obras podem ser enquadradas num horizonte temático sensível à forma como o comércio, tecnologia e a própria circulação de imagens, se apresentam na condição de elementos constituintes de uma certa ideologia de sucesso e progresso, continua e produtivamente colonizada em função de uma série de efeitos politizados. Com particular atenção aos discursos visuais da publicidade enquanto forma de acesso a uma materialidade especificamente contemporânea - perante a qual a relação afetiva e sensorial com os produtos de consumo quotidiano abre as portas a um universo de experiências intoxicante -, o panorama traçado parece querer sinalizar uma ruptura nos mecanismos e processos que operam e regulam as fronteiras entre a própria ordem do mundo natural e o espaço da cultura.
Na sala 9x9x9 encontramos duas obras que contribuem para o esboço de uma cartografia de algumas destas questões. A instalação Sabotage on Auto Assembly Line to Slow It Down (2009) [Fig. 2] de Josephine Meckseper (n. 1964) explora com alguma espetacularidade a relação entre o aparato publicitário televisivo e a ideologia do complexo militar e industrial. Numa alusão às vitrines onde são expostos e colocados à venda bens de consumo, Meckseper dispõe sobre uma plataforma de madeira espelhada com base retangular uma esteira transportadora que suporta três pneus de borracha; sobre a plataforma encontram-se dois monitores que exibem os vídeos 0% down (2008) – centrado nos anúncios publicitários da marca automóvel Saab - e Shattered Screen (2009), uma imagem fixa de um vidro estilhaçado. A ligação da marca ao complexo industrial e militar é sublinhada pela própria iconografia do anúncio, cujas frequentes alusões a aviões de combate são intensificadas por um meticuloso trabalho de montagem e de edição sonora. Na parede oposta, os espelhos da instalação estabelecem um diálogo com uma pintura de Katherine Bernhardt (n. 1985), uma pintora com uma vitalidade magnética. Trata-se de uma pintura emblemática da prática de Bernhardt: a artista é conhecida pelas suas pinturas inebriantes com padrões de objetos vulgares, que nos remetem frequentemente para as mais variadas manifestações da cultura popular. Em View Finders, Sharpies, Coffee, and Cigarettes [Fig. 3], sobre um fundo negro podemos ver canetas, canecas com café, cigarros, e alguns visores de dispositivos fotográficos, objetos representados num plano unidimensional e afetados por uma irregularidade geométrica intensificada pela escolha de cores choque, como o cor-de-rosa estridente.
Na sala da galeria norte, obras como a série Visit Mirrorscape [Fig. 4, 5, 6] de Timur Si-Qin (n. 1984) exploram a forma como as imagens de stock e o universo do branding exercem influência sobre a construção e a idealização do mundo natural. A partir de três ecrãs LED, Si-Qin aborda a experiência da paisagem a partir de imagens trabalhadas em computador: olhando para a natureza como se de uma marca se tratasse, Si-Qin pensa o sublime digital enquanto manifestação de um ecossistema onde o antropocêntrico e o mediático dão visibilidade a um universo permeado por matéria “biológica” e “cultural”. Esta tensão entre uma materialidade virtual e tangível é um dos pontos fundamentais da prática de Zak Kitnick (n. 1984). Em Hamilton Beach [Fig. 7], apropria a iconografia das embalagens da célebre marca norte-americana de utensílios de cozinha com o mesmo nome, imprimindo o design gráfico dos produtos em objetos cúbicos colocados sobre estruturas metálicas, numa alusão formal e material à arte conceptual e ao minimalismo. Evocando o produto a partir da sua ausência, Kitnick parece aludir à imaterialidade da experiência do consumo.
Por seu turno, Eloise Hawser (n. 1985) apresenta uma obra em vídeo na qual se debruça sobre o mundo da moda. Solo [Fig. 8] faz uma espécie de levantamento topográfico do interior da histórica loja da Burberry na Regent Street, em Londres. Instalada na Westmoreland House, a loja ocupa um espaço que já albergou um cinema e uma igreja. Hawser não estabelece uma ligação entre essas histórias, mas a forma como percorre o interior do edifício com tracking shots parece ativar o espaço da loja enquanto espaço de assimilação de experiências e atmosferas – eis um sentido do consumismo contemporâneo.
Graças à atenção dedicada a um conjunto de obras muito recentes, a exposição dá visibilidade a uma pequena constelação de práticas contemporâneas profundamente comprometidas com as arqueologias do presente – ou com histórias sobre nada.
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