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CATHERINE CHRISTER HENNIXCATHERINE CHRISTER HENNIXMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 01 ABR - 03 ABR 2016 CATHERINE CHRISTER HENNIX E A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA
Hoje, a arte encontra-se numa nova era, apresentando-se sem limites, multidisciplinar e complexa, no tempo contemporâneo acelerado e em constante mudança. O que a arte é visualmente, a sua forma visual e o modo como se exibe ao observador, tem ainda importância, bem como a ideia de conceito que, introduzida na segunda metade do séc. XX, ainda não abandonou o campo artístico. Contudo, o que se destaca e é comum a praticamente toda a criação artística atual é uma experiência que, de um modo teatral, se transporta ao espectador e desenvolve, com este, um forte diálogo. A experiência estética já não está presa ao reconhecimento de uma identidade estética - pintura, escultura, etc. - e reside na criação artística doravante liberta do formalismo de Greenberg. Alguns artistas são exemplos desta evolução num sentido de uma arte que desafia o seu próprio conceito, da prática e da criação, pondo em causa as noções estabelecidas no campo artístico, como é o caso da artista Catherine Christer Hennix (Estocolmo, 1948-). Discípula do falecido Pandit Pran Nath, mestre Indiano de rafas de inspiração Sufi, dedica-se a conceber composições, através de tamburas - instrumento de música tradicional indiana que costuma acompanhar música vocal. A artista recentemente desenvolveu um novo instrumento, o Tamburium, que transpõe os sons tradicionais para formas digitais e com o qual tem desenvolvido o seu mais recente trabalho. Hennix, para além de compositora e artista visual sueco-americana, é também filósofa, cientista e matemática, mantendo assim uma proximidade com várias áreas e disciplinas, o que lhe permite uma relação íntima de entendimento do mundo. Também por isso, personifica a ideia do campo artístico na sua forma mais atual, ao relacionar-se e deixar-se fundir com os outros campos. É, precisamente, através do cruzamento de várias áreas que surge a criação mais ampla, complexa, dinâmica e que chega a um maior número de espectadores.
Conhecida pela obra The Electric Harpsichard (1976), que já ocupou diversos espaços e maravilhou, quase até enfeitiçando, vários públicos, foi no minimalismo que encontrou o seu ponto de partida. Não será por acaso que é essa prática artística que, segundo Michael Fried [1], começou a impor a experiência estética acima das outras propriedades das obras. A música minimalista contém, habitualmente, uma repetição de pequenos trechos com ligeiras variações, durante um longo tempo, criando ritmos quase hipnóticos. A sala de madeira, que é a última das galerias do Museu de Serralves, encontrou-se coberta por tapetes no chão, pela cor e pelo som, apelando a todos os sentidos do corpo. O convite foi feito para que se descalçassem os sapatos e se avançasse pela tapeçaria, como se o espaço se tivesse tornado, de súbito, numa mesquita. Na parede do fundo, encontrou-se a projeção de uma letra do alfabeto árabe clássico, sobre um fundo verde, forte, em destaque. Os sons que a artista produz, quando contínuos e soando em eco pelo espaço, parecem sagrados e religiosos, numa composição electrónico-instrumental que invade o ambiente e contamina o ouvinte. O Imã Ahmet Muhsin Tüzer (Antalya Kaş, 1971), com o seu timbre vocal cativante, tem participado, cantando e enriquecendo a música de Hennix. Este cantor de educação tradicional do Corão, Árabe e Turco é conhecido pelas suas recitações de hinos (divinos) e qasida (poemas árabes). A união do cantor com a artista surge na fusão do som com a leitura de textos tradicionais, entre eles uma poesia de Shaykha Aisha al-Bauniyah. Foi assim apresentada a composição eletrónico-instrumental Raag Surah Shruti, o trabalho mais atual de Hennix. Tüzer defende, como ideologia, uma Unidade em que todos os indivíduos se encontrem em pleno estado de consciência e compreensão. Parece ser precisamente isso mesmo que o cântico e as ondas sonoras computorizadas provocam: uma experiência harmoniosa e profunda que une o público num mesmo momento. Também por isso, esta performance pode ser considerada tão oportuna e pertinente, numa altura em que se sente o receio europeu do médio oriente. O momento artístico vivido em Serralves humanizou essa cultura e relembrou a sua beleza hoje em grande parte abalada. Apoiada no sufismo, corrente mística e contemplativa do Islão, Hennix traz ao público a possibilidade de alcançar a meditação, e correlativa espiritualidade, através da arte. É nesta experiência estética que o espetador, indivíduo, se liga ao outro, ao mundo que o rodeia e, por conseguinte, a algo mais forte do que si mesmo. E, mesmo para um descrente em qualquer força superior, esta é uma possibilidade de entrar num profundo estado de enlevamento e de possível descobrimento de si próprio. Deste modo se criam novas ligações através da performance, através da arte, colocando-se a importância das experiências artística e estética na vida. Foi assim que, no fim de semana de 1 a 3 de Abril, Serralves se deixou ocupar por uma instalação que se assumiu como plataforma para uma outra dimensão e que ganhou vida através de três performances sui generis que possibilitaram experiencias únicas.
Constança Babo
::: Notas [1] Michael Fried, Art and Objecthood, 1967.
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