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COLECTIVAINQUÉRITOS AO TERRITÓRIO: PAISAGEM E POVOAMENTOMUSEU NACIONAL DE ETNOLOGIA Avenida Ilha da Madeira 1400-203 Lisboa 14 ABR - 16 OUT 2016 COMO FAZER NOTAS DE UMA VIAGEM AO TERRITÓRIO
Território sempre me pareceu uma palavra palpável. Era como se seu mero enunciar quase que, imediatamente, eu pudesse ver e sentir um bocado de terra e com ele tudo que fosse possível colocar sobre ele, desde as coisas concretas como toda sua vegetação, sua topografia, suas construções até as coisas invisíveis que são todas aquelas linhas que o amarram e se emaranham. As linhas, a partir das quais podemos dizer “o território” no singular, são a cultura, o povo, a identidade e tantas outras linhas. Estranhamente, mesmo sendo substantivo singular, o território é, ainda e sempre, plural. Um território é uma e muitas coisas. Essa pluralidade é a única coisa que é definitiva, todo o mais está em permanente fazer.
A visita à exposição “Inquéritos ao território: paisagem e povoamento” nos lembra, justamente, que interrogar o território, traçá-lo, mapeá-lo é tarefa incessante. A proposta da mostra é colocar em diálogo os discursos científicos (geográficos, topográficos, etnográficos…) que durante o século XIX, e grande parte do século XX, procuraram grafar Portugal com os métodos da arte, olhar e pensar o mesmo território. Se desdobram deste diálogo uma paisagem, sem dúvida, heterogénea não apenas pela passagem do tempo, mas principalmente pelos conceitos e experiências que as movem e que disparam em nós, espectadores-viajantes.
Transitar pela exposição nos permite ir ao encontro de um território que não vemos passar como passam as paisagens à janela de um comboio. De uma imagem a outra, estamos sempre a dar saltos. Uma trajetória nos é proposta pelo curador, mas seguramente trilhá-la é não saber aonde nos estão a levar. Se vamos por entre as sendas de um Portugal rural, dos pastores, da choça, do trabalho no campo, da recolha do sargaço ou pelos caminhos modernos às margens das autoestradas que nos mostra Valter Vinagro ou das áreas próximas aos centros urbanos de Nuno Cera e Diogo Lopes. Entre um e outro, há espaço também para pensarmos se o rural e o urbano são efetivamente tão diferentes, como nos propõe pensar as fotografias de Álvaro Domingues.
Na exposição, estamos a olhar Portugal através das lentes de uma pesquisa científica e pelos veios de um método artístico de pensar o lugar e a paisagem. Alguns trabalhos expostos demonstram a eficácia da arte enquanto experiência de pensar o presente, a identidade, o lugar, ou melhor, enquanto pura experiência do pensar. A exposição, todavia, tem a delicadeza de nos fazer olhar a ciência pelos olhos da poesia que nos distancia com subtileza e pungência da razão catalográfica que motivaram o surgimento daquelas imagens. A força de todos os braços que trabalham juntos na recolha do sargaço transborda os limites do registo etnológico em direção a uma paisagem lírica. Esse olhar suscitado pela exposição é, segundo creio, seu maior êxito. A seleção de imagens (em sua maioria fotografias) que nos propõe a curadoria de Nuno Faria é um transitar dos inventários das expedições científicas para aqueles das experiências estéticas da paisagem. Passar de uma a outra é permitir que ambos os discursos se contagiem daquilo que o outro possui de mais intenso e acutilante.
Das secções de um território, anatomicamente dissecado, que nos proporciona um património material e imaterial cientificamente registado a um território insistentemente questionado e artisticamente registado pela fotografia e pelo vídeo, a exposição nos leva às íntimas e profícuas trocas entre a arte e a ciência. Encontraremos, sem dúvidas, ausências, paisagens que nos faltam para traçar os limites desta paisagem. Mas um território é senão um corte. Continuamos e continuaremos a seccioná-lo. E de camada em camada, encontraremos outros territórios e outras paisagens a desbravar.
Suianni Macedo
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Elenco da exposição: Expedição Científica à Serra da Estrela (1881), Orlando Ribeiro, Inquérito à Arquitetura Regional (1955-1957), levantamentos realizados no âmbito do Centro de Estudos de Etnologia (Jorge Dias, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira), Alberto Carneiro, Luís Pavão, Duarte Belo, Álvaro Domingues, Nuno Cera e Diogo Lopes, Paulo Catrica, Valter Vinagre, André Príncipe, Pedro Tropa, Daniel Blaufuks, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Álvaro Teixeira, Jorge Graça, Eduardo Brito, Duas Linhas (Pedro Campos Costa e Nuno Louro) e Sete Círculos (Pedro Campos Costa e Eduardo Costa Pinto); Projecto sonoro: Carlos Alberto Augusto.
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