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JOSÉ LOUREIRO3ª FEIRA, DIA DE NATALGALERIA FONSECA MACEDO Rua Dr. Guilherme Poças Falcão, 21 9500-057 Ponta Delgada 14 ABR - 30 JUN 2016
Na segunda exposição do artista no Arquipélago dos Açores, o trabalho artístico gravita em torno da exploração da recta, para além do jogo de formas quadrangulares e rectangulares, oferecendo um conjunto de declinações dispositivas, intensivas e cromáticas. O respeito da tradição da pintura e da divisão disciplinar das práticas artísticas gera, na obra de Loureiro, um trabalho aprofundado e consequente das superfícies, constituídas ora por tela ora por papel, exercício que corresponde, na sua pesada simplicidade, ao contributo do artista, voluntário ou impensado, para a disciplina que elegeu como sua. A procura de Loureiro não se adequa a qualquer finalidade programática (ou não fosse o seu mais recente manifesto, Sinapsismo [1], percorrido por uma ironia fina), visando antes encetar uma busca quase interminável - ou não existisse a morte - tendo em vista um equilíbrio tão precário quanto produtivo. Trata-se de compor uma tela para descortinar um universo: “Vejo o processo de pintar como o abrir de um conjunto de cortinas: vamos tentando chegar a qualquer lado, mas o mais interessante disto tudo é não chegar a lado nenhum.” O percurso de José Loureiro corresponde à própria definição de vocação: “Nunca me passou pela cabeça usar outro tipo de médium. É absolutamente suficiente”. Essa certeza que queria ser pintor, afirmada desde uma decisão primeira, sedimentada pela prática e fundadora da própria possibilidade de produção artística, soube resistir à tentação do multimédia e à estigmatização da pintura que vigorou na última década do século XX. “Existiu uma grande pressão; existiu e há uma grande má vontade em relação à pintura. Acho isso idiota e absurdo, nunca me atemorizou”, declara, assertivamente. A minúcia do pintor está patente nos equilíbrios que cada desenho engendra, sendo retomado, nesta ocasião, o motivo da grelha, caro ao artista desde o início dos anos noventa – vejam-se as suas palavras cruzadas em grafite e guache, reinventadas e transformadas até 1995. Sensivelmente nesta altura, os círculos surgiam como nova obsessão pictórica, motivo trabalhado e pensado extensivamente, chegando-se à utilização de papel vegetal arquitectónico para melhor calcular estratégias de autonomização dessas formas, de afirmação pura da sua representação e dos espaços de indeterminação que produzem, sem qualquer pretensão de fazer apelo a outra disciplina que não a pintura, essa que é, para o artista, o único palco onde os confrontos e as tréguas se materializam. É que, na sua actividade, são as formas e matérias que surgem e pedem resolução. Face às leituras eróticas a esferográfica de 1990, aos objectos parcelares que se saturavam em naturezas mortas povoadas por manchas pastosas, à apropriação de iconografia popular e pop na qual a mão era novamente chamada a pronunciar-se, a pintura actual de Loureiro dá-se sob a forma de linhas rectas ou riscas, termo que lhe é particularmente caro: “linhas, riscas, gosto muito da palavra risca. A risca é suficientemente complexa, sem querer dar um ar muito complexo à palavra complexa, mas é suficientemente rica para se estar toda a vida a trabalhar nisso”. O óleo, material régio da sua actividade, dispõe-se em composições que se pretendem o mais bidimensionais possível, lembrando que, em tempos idos, esse foi o móbil que sustentava a possibilidade de uma pintura pura. A justificação das virtudes do óleo tem também, para Loureiro, uma dimensão inerente à prática: “Nunca é necessário rasgar uma tela, pode-se sempre sobrepor até ficarmos satisfeitos. Tem essa vantagem, a de se poder sobrepor, para além de se poder apagar infinitamente uma tela, que se torna, quase, um suporte infinito”. Recorda, a título de exemplaridade, a pintura que fez em 2005, em Sines, completamente transformada quinze dias antes de uma exposição na Capela da Misericórdia, deixando a obra em desadequação com um texto que João Miguel Fernandes Jorge tinha escrito para o evento. Desadequada, nunca inutilizada, porque esse texto encontra a sua pertinência na pintura submersa pela composição final. A pintura primeira fica assim salva, invocável por palavras que a testemunharam: “O que ficou escrito foi sobre o que ficou por baixo” [2]. 3ª Feira, dia de Natal, é acompanhada por um excerto da obra O Bosque (2015) de João Miguel Fernandes Jorge, não porque estas telas se imponham como comentário a qualquer outra produção artística, não porque uma exposição seja redutível a um título, ou porque a pintura pudesse ilustrar uma teoria ou manifesto, mas porque elas visam, como a poética das palavras, do papel maculado ou do pigmento aplicado, fazer apelo a algo próximo do que se propôs outrora sob o signo do Belo: a experiência e registo de modalidades de existência, a materialização de procuras, a dignificação imanente ao gesto artístico. Pintura e desenho são essas vias paralelas nas quais Loureiro enceta a interminável procura de uma mesma substância, inesgotável, inexaurível, que, sem se prestar a uma captação definitiva, deixa o campo do diálogo em permanente espera para novas investidas - desafio que Loureiro aceita, fazendo apelo à sua via de constituição de mundos: pintar.
Jorge Vieira Rodrigues
Agradecemos a José Loureiro a conversa que nos concedeu, da qual provêm as citações utilizadas.
Notas [1] Disponível em http://contemporanea.pt/marco2016/20/ a 01/05/16
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