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GIORGIO GRIFFAQUASI TUTTOMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 13 MAI - 04 SET 2016 O MOMENTO DE GIORGIO GRIFFA
Suzanne Cotter (img.2), diretora do Museu de Serralves e curadora desta exposição, ficou a conhecer e admirar o trabalho de Griffa em 2012, numa exposição em Nova Iorque. No ano seguinte, entrava já para a coleção de Serralves uma das primeiras obras que se encontra no início desta exposição, Strisce orizzontall (img.3) de 1976. Ao lado desta, nas obras datadas de final dos anos 60 e início dos anos 80, estão em evidência linhas - verticais, horizontais e diagonais - e marcas de esponjas em tons suaves e harmoniosos. Ao longo de toda a exposição, composta por 30 pinturas e mais de 40 desenhos, organizados cronologicamente, há uma clara sensação de equilíbrio, de sentido e de narrativa, cada obra mostrando-se como um novo capítulo e mantendo o caráter lírico do trabalho. Também Suzanne Cotter considerou que, como esta nova exposição precede à da Sonnabend Collection - coleção que detinha uma obra do Griffa - também em Serralves "cada exposição está numa narrativa e todas fazem parte de uma história". Cada pintura de Griffa tem uma identidade própria, uma filosofia particular e, ao mesmo tempo, mantém uma lógica de continuidade em relação às obras que antecede e sucede. Essa ideia de trabalho global é refletida no título da exposição, Quasi Tutto. O quase tudo pode prender-se a várias possíveis significações que atribuem simbolismo ao título: ser quase todo o trabalho do artista, cada obra funcionar quase individualmente ou cada tela estar quase toda preenchida. Em relação ao último aspeto, é algo que se apreende ao observar todo o corpo de trabalho do artista, que advém das suas motivações e visão no momento da criação. Os traços começam sempre pela esquerda e as suas interrupções deixam constantemente um espaço vazio, sugestivo justamente de que cada obra nunca está totalmente finalizada. As áreas em branco são propícias à imaginação, permanecendo na mão e no pincel, mas também na zona da sua ausência, uma vontade contínua de descobrir, trabalhar, conceber. Aí também se encontra representado o tempo: o da própria produção do objeto e o da evolução de toda a arte. Assim, as telas podem ser entendidas como fragmentos temporais que se apresentam sob estas formas que seduzem e que esteticizam o espaço, tanto quanto alguma arte decorativa. Nas salas seguintes, verifica-se uma continuidade deste registo ainda que numa nova expansão. Tal é o caso das últimas obras apresentadas, datadas dos anos 90, nas quais ainda se vislumbra a ordem e harmonia comuns a todo trabalho do artista, mas encontrando-se combinadas com novos elementos: palavras, linguagem e relações com as ciências e a poesia. Esta evolução que se verifica no trabalho de Giorgio Griffa difere do que, paralelamente, ocorreu na arte: a partir de 1960, o tempo foi marcado por alterações radicais em todo o campo artístico e o artista italiano, por não se associar às iniciativas dos seus contemporâneos, foi caindo no esquecimento do qual agora se liberta. Por um lado, manifestavam-se os defensores da pintura modernista e do seu desenvolvimento ininterrupto e, por outro, estabelecia-se o início da recusa da pintura através de movimentos como a arte pop, minimalista ou a povera. Todos partiam de pressupostos com os quais Griffa reconhece não se identificar, principalmente a atenção ao conceito como o mais importante na obra. O artista explica que não pretende transportar uma ideia mas sim uma homenagem à pintura, pois foi nesta prática que encontrou a sua linguagem e dela não abdicou. Assim, considera-se um pintor tradicional e identifica as suas referências no trabalho de Matisse, inspiração que o levou a produzir, em 1984, a obra Matisseria n.2 (img.4), de Joseph Beuys ou Jackson Pollock. No caso deste último, serviu-lhe de inspiração pelo facto da sua produção advir de movimentos performativos, de um diálogo com a tela pousada no chão e o pincel em quase livre movimento da mão. Griffa, tal como esse artista expressionista abstrato, sente-se tão parte da pintura e do ato da sua criação que os seus movimentos não são inteiramente refletidos. Sugere que quando cria há uma ocorrência, um acontecimento. Ora, precisamente por Pollock ser considerado o grande inovador nessa nova forma de interagir com a pintura, Griffa diz que esse modo que adotou e as restantes influências que o movem, não são algo que lhe pertence, mas que estão inscritos na memória da própria pintura. O artista, na visita de imprensa à exposição, confessou que a pintura tem tão forte e longa memória que a prefere à sua própria. Griffa reconhece, também, a importância do material que compõe todo o objeto artístico e que constitui a identidade da obra. De extrema importância é, também, o local do momento que se segue à produção artística, ou seja, o da exposição. As paredes brancas de Serralves e o seu espaço aberto conferem o envolvimento necessário às obras do pintor e o público tem a oportunidade de ficar a conhecer o artista e o seu percurso através da organização da exposição e da forma como esta termina: o corredor final é ocupado com material documental que dá a conhecer o artista na sua completude e pelos seus desenhos e livros, que constituem a sua produção paralela e menos conhecida. Por isto, Andrea Bellini (img.5) considera Serralves "o local ideal, que se encaixa na perfeição com o trabalho de Griffa". O diretor do Centre dArt Contemporain de Genève, comissaria esta exposição em conjunto com Suzanne Cotter e o trabalho de ambos na seleção das obras de Griffa resulta numa exibição representativa dos períodos mais marcantes do artista. Esta exposição ampla e bem conseguida resulta de uma colaboração com o Centre dArt Contemporain de Genève, o Bergen Kunstall e a Fondazione Guiliani. Como Ana Pinho sublinha, esta associação faz parte da linha estratégica de destacar Serralves no mapa da arte contemporânea. A exposição, patente de 14 de maio a 4 de setembro, marca o momento de conhecer quase tudo de Giorgio Griffa.
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