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RUI CHAFES

ASCENSÃO




IGREJA DE SÃO CRISTOVÃO
Largo de São Cristóvão
1100 Lisboa

05 MAI - 01 JUL 2016


Já dissemos que há uma procura de transcendência na obra de Rui Chafes: "acredito que a transcendência não tem outro significado a não ser o de mostrar ou pressentir algo que não está aqui" diz o próprio citado na folha de sala. Ascensão é a terceira parte de Não te Faltará a Distância. Uma Exposição em Quatro Passos. Este ciclo de exposições tem como objectivo reunir financiamento para recuperar a Igreja de S. Cristóvão, que data do séc. XVII e possui 35 obras do pintor régio Bento Coelho da Silveira.

 

Pensar numa igreja para albergar uma exposição de Rui Chafes é pensar no lugar perfeito. É a obra de arte a voltar ao lugar que foi seu, século após século, até a Igreja Cristã deixar de ser o principal comprador e a arte perder o seu carácter religioso. Mas nem toda a arte perdeu religiosidade. As obras de Rui Chafes têm essa qualidade, e aqui, é como se fossem devolvidas ao lugar que é seu por direito. O chão sagrado onde o Humano tenta encontrar e homenagear o Divino. Ascensão II, a primeira obra que vemos ao entrar, não toca nesse chão. É uma escada em ferro, localizada no centro da igreja, de onde os bancos foram desviados para permitir que a amplitude do espaço abrace a obra. Está perfeitamente alinhada com o Altar-mor; a iluminação proveniente da zona do Altar concentra-se por cima da escada, que não toca em nada. Não toca no chão nem no tecto, mas está suspensa (presa com cabos, mas isso é um detalhe técnico). Esta é a obra mais óbvia da exposição, mas também a mais marcante. Ficamos imediatamente siderados e aquele objecto leve e suspenso, dirigido ao divino, esmaga-nos e eleva-nos ao mesmo tempo. Quando nos aproximamos apercebemos um entalhe nos degraus que torna ainda mais difícil qualquer tentativa de subida. Uma metáfora para a dificuldade humana em ascender.

 

Este entalhe é retirado da forma dos degraus que sobem ao Coro Alto. Degraus que foram pisados ao longo dos séculos por fiéis, deformando-se sob o seu peso e sob o peso da humanidade. Nesses degraus, Chafes assinalou com folha de chumbo a marca humana e ao mesmo tempo a obstinação de subir para estar mais perto de Deus.

 

Ao contrário do ascetismo de uma galeria de arte ou museu, em que toda a construção é feita e pensada para albergar obras de arte que se destacam para ser únicas e visíveis e apreciadas de forma isolada, na Igreja, as obras têm de partilhar o destaque. "It was in France that Romanesque churches began to be decorated with sculptures, though here again the word "decorate" is rather misleading. Everything that belonged to the church had its definite function and expressed a definite idea connected with the teaching of the Church." [1]. As obras puras de Rui Chafes têm de conviver e dividir o protagonismo com as pinturas murais e com a talha dourada e a profusão escultórica do altar-mor. Talvez por isso, metade das peças estão colocadas nos "bastidores" da igreja: as zonas de uma igreja onde normalmente não vamos e que não fazem parte do lugar de culto, mas sim do local de trabalho religioso. Para encontrarmos estas obras temos de as procurar (o folheto tem um mapa) e não nos é facilitada a tarefa. Da mesma forma que se procura o divino numa igreja, temos de procurar as peças de Chafes, tendo para isso de caminhar no escuro e afastar pesados reposteiros negros.

 

Só assim descobrimos uma peça que parece uma pequena mesa sacrificial com um rasgão. Como se fosse o lenho que Cristo tinha no flanco após ser perfurado pela lança de um centurião. É a memória do corpo de Cristo aquela mesa. E para a encontrarmos temos de transpor um pesado cortinado e permanecer na escuridão até os nosso olhos se habituarem. Durante esse tempo só ouvimos o vento nas frinchas das portas que nem sequer vemos. É ao mesmo tempo uma penitência e um teste. Temos de ultrapassar o medo e a escuridão para vermos o que se nos apresenta mesmo à nossa frente, invisível ao primeiro olhar. Ainda assim, o rasgo requer um pouco mais de persistência na contemplação. Ao sair desta sala, somos atingidos pela luz e ao voltarmos à nave da igreja, a peça Ascensão III é um conjunto de lâminas de ferro suspensas como uma lança sobre nós. É a última escultura da exposição e pende sobre o visitante como um ponto de interrogação silencioso. Pensamos em punição, na lança divina, no machado do carrasco. Depois de, na obra anterior, termos tido de olhar para baixo, agora somos forçados novamente a elevar o olhar.

 

Rui Chafes obriga-nos a um exercício não só de interiorização, mas físico, de desviar o olhar dos pontos de fuga habituais, da linha do horizonte e do nível do olho. Obriga-nos a olhar para cima, para baixo, provocando-nos uma desestabilização do equilíbrio que é também levar-nos para um ponto de desconforto, um ponto de coragem. Nada em Ascensão nos deixa confortáveis. Temos sempre de confrontar-nos com os nossos limites, como o medo do escuro, do desconhecido, com as questões que nos atravessam a mente sobre a fé e a religiosidade num tempo em que a ciência é lei. Talvez a linha do horizonte seja a da humanidade, mas a linha do divino é, sem dúvida, vertical.

 


Bárbara Valentina

 


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Notas

[1] Gombrich, E. H., The Story of Art. Londres: Phaidon, 2006, p.131



BÁRBARA VALENTINA